Por dentro dos humores dos agentes econômicos

Gilmar Mendes Lourenço.

Uma breve incursão sobre os cadernos das sinalizações antecipatórias, que traduzem o humor e as expectativas de empresários e consumidores, oportuniza enxergar o prosseguimento da predominância de páginas de coloração verdes e a diminuição da frequência de inserções amarelas e, especialmente, vermelhas, a despeito da flagrante degradação da aprovação popular ao governo do presidente Temer.

A esse respeito, sondagem realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com o Ibope, revela que popularidade do executivo, medida pela agregação dos conceitos ótimo e bom, conferidos pela população consultada (duas mil pessoas, em 126 municípios, entre os dias 15 e 20 de setembro), declinou para 3%, a menor da série histórica começada em março de 1986, com forte propensão ao desaparecimento e constituindo autêntica anomalia sociométrica.

Na realidade, mesmo convivendo com taxas de inflação anuais inferiores a 3%, a administração Temer vem amargando graus de desaprovação da sociedade maiores do que aqueles experimentados por todos os mandatários pós-redemocratização nacional, em picos de instabilidade política e/ou disparada inflacionária, como Sarney (em junho e julho de 1989), Collor (agosto de 1992), Itamar (janeiro de 1994), Fernando Henrique Cardoso (julho de 1999), Lula (setembro/dezembro de 2005) e Dilma (junho/dezembro de 2015).

Não obstante, em 2017, o País ganhou uma posição no ranking global de competitividade, preparado pelo Fórum Econômico Mundial, com a colaboração da Fundação Dom Cabral, passando a ocupar a 80ª posição, em um painel de 137 nações, depois de ter descido da 48ª, em 2012, para a 81ª, em 2016. O Brasil está rabeira no grupo dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul) e no nono lugar na América Latina. Há nove anos a Suíça lidera o certame, seguida por Estados Unidos e Cingapura.

Houve avanço em dez dos doze itens integrantes da apreciação, com destaque para o marco institucional, em especial a autonomia do judiciário, com a passagem da 79ª para a 59ª colocação. Embora tenha conquistado onze postos na variável combate à corrupção, o País ainda figura no 109º lugar neste quesito e no 108º em infraestrutura, devido à carência de investimentos públicos.

O índice de confiança do empresário industrial (ICEI), calculado pela CNI, deu um salto em setembro de 2017, atingindo 55,7 pontos (varia entre zero e cem, representando otimismo quando superar os cinquenta pontos), o maior nível desde 2013. Já o indicador de evolução da produção industrial registrou 54,8 pontos, em agosto de 2017, suplantando a linha divisória entre ceticismo e esperança, equivalente a 50 pontos, pelo segundo mês seguido, algo que não ocorria desde outubro de 2013.

Em direção análoga, o nível efetivo da produção fabril exibiu acréscimo de 1,5% no intervalo janeiro-agosto de 2017, determinado por avanços apurados em bens de consumo duráveis e de capital, com registros de expansão de 11,1% e 4,4%, respectivamente, conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Constaram-se números positivos em 15 dos 26 ramos, 45 dos 79 grupos e 52,4% dos produtos acompanhados.

Investigações da Confederação Nacional do Comércio (CNC) também apontam impulsão da confiança do empresário do setor pelo segundo mês consecutivo, alcançando 104,78 pontos, em setembro do corrente exercício, acima da zona de indiferença entre pessimismo e satisfação, representada pelos cem pontos, pois o indicador oscila entre zero e duzentos pontos.

Todavia, a mesma CNC apurou que a intenção de consumo das famílias, depois de subir para 77,3 pontos (escala de zero a duzentos) em agosto, caiu para 76,8 pontos em setembro, regredindo aos patamares verificados no começo do ano, fenômeno que pode ser imputado ao estado de alerta dos consumidores, escaldados com a embrionária e moderada reativação do emprego e a resistência do flagelo político e institucional.

Em consonância com os números da CNC, inquérito da CNI revela que o índice nacional de expectativa do consumidor (INEC) regrediu em setembro de 2017, em relação a agosto, registrando 98,5 pontos (varia entre zero e duzentos) e voltando a situar-se abaixo da linha divisória de 100 pontos e da média histórica de 108,2 pontos.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

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