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O que esteve por trás do enorme saldo comercial brasileiro em 2017?

Gilmar Mendes Lourenço.

Em paralelo ao discreto ensaio de restauração dos patamares de consumo doméstico, ocasionado pela conjugação virtuosa entre declínio consistente da inflação e dos juros, depois da ancoragem das expectativas realizada pela autoridade monetária, e revigoramento do mercado de trabalho, ainda determinado pelo avanço da informalidade, e da confiança, a economia brasileira vivenciou significativa expansão do comércio exterior em 2017.

De fato, o saldo da balança comercial foi o maior da história, atingindo US$ 67,0 bilhões, contra US$ 47,6 bilhões, em 2016, equivalendo a um auspicioso salto de 40,5%. As exportações chegaram a US$ 217,7 bilhões, representando variação de 18,5% em relação ao ano antecedente, depois de amargarem retração por três exercícios consecutivos. De seu lado, as compras externas somaram US$ 150,7 bilhões, ou incremento de 10,5% frente a 2016.

Contudo, é preciso redobrada cautela na formulação de tendências apoiada em tais resultados, pois avaliações exageradamente triunfalistas podem ensejar o menosprezo à influência exercida por variáveis meramente conjunturais e a magnificação da defesa da interferência de eventos de natureza estrutural. Isso porque, apesar de indiscutivelmente animadores, o números não são portadores de novidades ou motivos para celebrações efusivas na fronteira externa brasileira.

Um breve exame da matriz explicativa do desempenho externo do País permite identificar a combinação entre continuidade do movimento expansivo da economia mundial, acompanhado da recuperação das cotações das commodities, e superação do prolongado e profundo ciclo recessivo doméstico, que incitou a retomada das importações.

O destaque coube, mais uma vez, às vendas de itens básicos, que experimentaram acréscimo de 28,7% e responderam por 46,4% do total, versus 42,7%, em 2016. Mais especificamente, petróleo em bruto (66,4%), fortemente afetado pela ampliação da produção nos campos do pré-sal e da inversão do curso cadente dos preços mundiais, e minério de ferro (+45,6%) e soja em grão (+34,1%), atrelados ao empuxe da China, constituíram as performances preponderantes. Os três produtos contribuíram com 7,6%, 8,8% e 11,8%, respectivamente, do valor total das vendas externas.

No conjunto dos semimanufaturados (14,4% do total, versus 15,1%, em 2016), que cresceu 13,3%, os protagonistas foram ferro/aço (56,4%), ferro fundido (47,2%), madeira serrada (24,8%), ferro-ligas (18,2%), celulose (4,8%), óleo de soja em bruto (14,8%) e açúcar em bruto (10,1%). Açúcar em bruto e celulose, com pesos de 4,2% e 2,9%, respectivamente, do total, compreendem os itens mais importantes.

Em manufaturados (36,9% do total, versus 39,9%, em 2016), que cresceram 9,4%, sobressaíram óleos combustíveis (80,5%), máquinas para terraplanagem (66,0%), tratores (49,3%), automóveis de passageiros (43,9%), laminados planos (39,3%) e veículos de carga (37,4%).

O carro chefe do grupo é formado por automóveis de passageiros, com participação de 3,1% do total, ante 2,5%, em 2016. De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), as montadoras brasileiras exportaram 762 mil veículos em 2017, o que significa recorde histórico, 46,5% acima do verificado em 2016, comportamento imputado, fundamentalmente, à ressureição da economia argentina. A produção foi de 2,7 milhões de unidades, 25,2% superior à de 2016, sendo 28,0% dirigida ao mercado externo, aproximando-se do recorde de 30,0%, atingido em 2005.

A ascensão das importações repousou em combustíveis e lubrificantes (42,8%), bens intermediários (11,2%) e bens de consumo (7,9%), enquanto as de bens de capital regrediram -11,4%, reflexo da ainda bastante morosa reativação interna dos negócios. Até porque, mesmo apresentando incremento de 2,2% em doze meses encerrados em novembro de 2017, o maior desde setembro de 2013, a produção industrial ainda encontra-se 16,7% abaixo do pico observado em julho de 2013.

No que diz respeito à corrente de comércio, mesmo perfazendo US$ 368,5 bilhões e subido 15,1% em comparação com 2016, ainda situa-se em níveis quase 25% inferiores aos obtidos em 2011, simbolizando o retorno de práticas voltadas ao fechamento da economia nacional sob a administração Dilma Rousseff.

A consolidação da trajetória de geração de substanciais superávits comerciais e, por extensão, minimização ou até eliminação da vulnerabilidade externa brasileira, exigirá esforços na direção da diversificação da pauta de produtos exportados e dos mercados compradores, abrandando a subordinação aos itens básicos, comercializados em maior proporção com a China, e aos automóveis, mais demandados com o reerguimento da Argentina.

Apenas a título de ilustração, enquanto a presença chinesa como destino das exportações brasileiras, notadamente de soja e minério de ferro, saltou de 20,2% para 23,0%, entre 2016 e 2017, e a da Argentina passou de 7,2% para 8,1%, a dos Estados Unidos permaneceu estável (caiu de 12,5% para 12,3%) e a da União Europeia recuou de 18,0% para 16,0%.

Nessas condições, afigura-se crucial a deflagração de uma incansável busca de dissipação das resistentes trevas ao funcionamento adequado da área externa, principalmente a excessiva carga de impostos, a burocracia e os estrangulamentos infraestruturais que, em ambiente de crescente deterioração das contas públicas, tendem a impulsionar o custo Brasil e prejudicar a já combalida competitividade das empresas exportadoras.

Igualmente restritivas predominam a ausência de uma política comercial voltada à inserção competitiva do Brasil nas cadeias globais de valor; as distorções macroeconômicas, sintetizadas na dobradinha câmbio baixo e juros altos e na insuficiência de financiamento; a escassez de prospecção de mercados potenciais, a reduzida abrangência de pesquisas de inteligência comercial e a falta de estratégias de internacionalização e de cultura exportadora.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
http://www.miriangasparin.com.br

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