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Os economistas e a Nação

Gilmar Mendes Lourenço.

Em carta aberta endereçada aos brasileiros, divulgada em 06 de abril de 2018, o Conselho Federal de Economia (Cofecon), autarquia que representa a categoria social dos Economistas, alertou para o “estado de exceção” vivido pela nação, fruto de uma articulação perversa entre segmento financeiro e seus beneficiários diretos e parcela do setor privado, judiciário e forças armadas, em atendimento às pressões internacionais interessadas na eliminação dos ganhos sociais domésticos, conquistados nos tempos recentes, e na apropriação das “riquezas nacionais”.

O documento, repleto de aspectos característicos de partidarização, permite apreender que a Democracia do País teria sido vitimada pela produção de um golpe, que teve início em 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff, prosseguiu com o congelamento dos recursos para as iniciativas públicas de infraestrutura social, por vinte anos, o achatamento do salário mínimo e a flexibilização da legislação trabalhista, e foi concretizado com as manobras do poder judiciário que resultaram na prisão do ex-presidente Lula.

Ademais, o Conselho identificou perfeita semelhança entre o momento atual e as circunstâncias que levaram, em 1936, à detenção e deportação de Olga Benário, esposa do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes, para a Alemanha nazista. Na visão do Cofecon, a presente orquestração seria também parecida com a aquela celebrada para a deposição do presidente João Goulart, em março de 1964.

Paradoxalmente, a postura do Cofecon, contida na Carta, revela-se absolutamente desprovida de apreciações que tenham surgido da aplicação de critérios técnicos e científicos no exame da dinâmica do tecido social, aliás, marca registrada dos rigorosos esforços e trabalhos empreendidos pelos membros da classe. Mais que isso, por meio do conteúdo apresentado, a entidade simplesmente atropelou o princípio de pluralidade que deveria defender, ao sugerir uma espécie de insurreição coletiva dissociada de eventos eleitorais.

Essencialmente, a retórica do Conselho expõe perfeita aderência com o discurso de Lula, proferido horas antes de sua prisão, em São Bernardo do Campo, em 07 de abril de 2018, repleto de acenos a episódios virtuosos do passado, como se a restauração da Democracia nacional pudesse ser imputada exclusivamente aos efeitos das greves dos trabalhadores do ABC paulista, em fins dos anos 1970.

A reconquista da Democracia, em 1985, ainda que baseada em um pacto conservador, acertado entre as alas progressistas do regime militar e moderadas das oposições, foi progressivamente construída por intermédio do repúdio nas urnas (em 1974, 1978 e 1982) ao autoritarismo. Os movimentos e manifestações para a realização de eleições diretas, liderados por Ulisses Guimarães, e a exacerbação da insatisfação social, empurraram a ação sindical na direção das esquerdas.

Nesse sentido, os radares do Cofecon não conseguiram alcançar a edificação da Carta Magna de 1988, o welfare state brasileiro, que, dentre outros avanços, ensejou o competente exercício de políticas de abrandamento da concentração de renda e da miséria, nos anos 1990 e 2000, nas gestões de Fernando Henrique Cardoso e Lula.

O raciocínio do Conselho também não captou os aprimoramentos institucionais ocorridos na década de 1990, sobretudo a abertura comercial, as privatizações, a flexibilização dos monopólios, a lei de responsabilidade fiscal e o extermínio da superinflação, executado pelo plano real, o que devolveu previsibilidade ao cálculo econômico.

Ressalte-se o aparente desprezo, por parte do organismo dos economistas, aos fenômenos de evolução democrática expressos na instauração de processos de impedimento de dois presidentes da república – Collor, em 1992, e Dilma, em 2016 -, pela prática de crime de responsabilidade, e a prisão de um terceiro, que, em dois mandatos, transformou o estado brasileiro em um império (ou paraíso, para os que não se consideram humanos) dominado por empreiteiras, cuja destruição requer aprofundamento da operação Lava Jato.

Por fim, o Cofecon parece ter esquecido que o tão sonhado desenvolvimento econômico, centrado na combinação entre a elevação consistente dos níveis de produtividade e redução das desigualdades sociais, depende de estabilidade jurídica e respeito às instituições, algo que, em ambientes democráticos, só pode ser viabilizado pelo amadurecimento da decisão de voto, influenciado decisivamente pelo debate de ideias e confronto de opiniões.

Isso é particularmente relevante para a consolidação do atual estágio de recuperação da economia, ainda incipiente e determinado pela queda da inflação e dos juros, ancorada em uma nova geração de reformas estruturais e investimentos em infraestrutura, educação e inovação.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é Economista, professor da FAE Business School, foi diretor-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
http://www.miriangasparin.com.br

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