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Os efeitos da greve dos caminhoneiros

Gilmar Mendes Lourenço.

As estatísticas correntes relativas a maio de 2018 e os indicadores antecedentes referentes a junho dão uma dimensão aproximada dos danos, no ambiente de negócios, provocado pela greve dos serviços de transportes rodoviários de cargas, acontecida em fins de maio, e as providências bizarras adotadas para a obtenção da suspensão do bloqueio das estradas, acordadas entre governo e representantes dos caminhoneiros.

De fato, diferentes pesquisas de instituições públicas e privadas denotaram pronunciado abalo na postura e confiança dos agentes econômicos, associado à descontinuidade ou atraso no suprimento de matérias-primas, bens intermediários e produtos acabados, o que veio afetar dramaticamente o funcionamento das linhas de produção e os fluxos de distribuição de bens e serviços.

Começando pelos parâmetros explicativos do desempenho do nível de atividade, investigação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra contração generalizada e expressiva das variáveis atinentes ao setor, em maio de 2018, em todas as bases de comparação. Só a título de exemplo, faturamento real, horas trabalhadas na produção, emprego, massa salarial real e rendimento médio real contabilizaram decréscimos de 16,7%, 2,4%, 0,6%, 1,7% e 1,4%, respectivamente, em comparação com abril, já descontadas as interferências sazonais.

Contudo, os impactos mais dramáticos foram notados no comportamento da produção industrial, medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O volume de produção fabril sofreu redução de 10,9%, no cotejo com abril, a maior desde dezembro de 2008 (-11,2%), quando a instabilidade financeira global atingiu, de forma plena, o complexo fabril brasileiro. Com isso, os níveis de produção regrediram aqueles constatados em dezembro de 2003, situando-se 23,8% abaixo dos recordes atingidos em maio de 2011.

No confronto com maio de 2017, o tombo foi de 6,6%, o mais acentuado desde outubro de 2016 (-7,3%), ocasionando a interrupção de uma marcha de doze meses seguidos de performance positiva, com compressão nas quatro categorias de uso, sendo mais afetadas as de bens de consumo duráveis (-11,9%) e semiduráveis não duráveis (-9,1%). Verificaram-se ainda recuos em 24 dos 26 ramos, 63 dos 79 grupos e 69,7% dos 805 produtos cobertos pelo painel da pesquisa, com destaque para produtos alimentícios (-14,3%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (-12,8%).

Os prejuízos foram multiplicados pelo retardo no cumprimento de parte dos compromissos de exportações, configurando mais uma mancha na imagem brasileira no front externo. Ademais, como fração expressiva da produção não realizada seria destinada à cobertura da ampliação e modernização da produção das empresas operantes no território nacional ou atendimento da demanda das famílias, parece razoável admitir perdas de competividade e implicações inflacionárias.

A propósito desse último ponto, o desabastecimento de inúmeros itens de produção e de consumo reavivou, ainda que temporariamente, a espiral de preços. Prova disso foi a elevação de 1,26%, em junho, do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mensurado pelo IBGE, para uma desta de produtos consumidos por famílias com renda mensal entre um quarenta salários mínimos, sendo a maior taxa para o mês desde 1995 (2,26%).

Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), também do IBGE, abarcando a faixa de rendimentos mensais entre um cinco salários mínimos, apresentou variação de 1,43% em junho, igualmente a mais acentuada para o mês desde 1995 (2,18%).

Passando ao exame dos humores dos atores, o índice de confiança do empresário industrial (ICEI), levantado pela CNI, recuou de 55,5 pontos (faixa entre zero e cem pontos), em maio de 2018, para 49,6 pontos, em junho. Trata-se da maior redução desde 2010 que serviu para furar o piso de 50 pontos, sinalizador de travessia para o sentimento de descrença, algo que não acontecia desde janeiro de 2017, contra média histórica de 54,2 pontos.

Na mesma linha, o índice de confiança do empresário do comércio (ICEC), calculado a partir de pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), desceu de 113,8 pontos (escala de zero a duzentos), em maio, para 110,3 pontos, em junho, a maior retração desde agosto de 2015 (-4,7%).

Pelo ângulo da demanda, o índice nacional de expectativa do consumidor, também apurado pela CNI, caiu de 102,1 pontos (varia entre zero e duzentos) para 98,3 pontos, entre maio e junho de 2018, o que representa o menor nível desde abril de 2016 (quando havia registrado 97,5 pontos), o rompimento da linha divisória entre confiança e pessimismo, marcada pelos cem pontos, e maior distância para a média de 107,8 pontos, exibida pela nova série histórica iniciada em 2010.

O mais gritante, porém, é que a percepção de não equacionamento do problema, especialmente em razão do impasse criado com a fixação, por medida provisória (MP) da tabela de tarifas mínimas de fretes, desvinculada do desenho do mercado, determinado pela depressão no preço do transporte das cargas, ocasionada pela enorme ociosidade da frota de caminhões – superdimensionada na última década com as aquisições subsidiadas pelo programa de sustentação do investimento (PSI) -, em um panorama de estagnação econômica.

Aliás, ao se somarem às múltiplas incertezas de natureza política, e a subsequente convicção coletiva de adiamento definitivo das reformas institucionais, a bolha recessiva e o repique inflacionário, ocorridas em maio e junho, serviram para produzir brutal reversão nas esperanças de retomada da expansão da economia brasileira, em curto e médio prazo. Tanto é assim que as previsões de crescimento do produto interno bruto (PIB), para 2018, caíram pela metade em meio ano, passando de 3,0%, em janeiro, para 1,5%, em julho.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-diretor-presidente do IPARDES.

mirian
Sobre a Mirian Gasparin Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
http://www.miriangasparin.com.br

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