O varejo no Brasil desacelera: como agir neste cenário?

Fabíola Paes
Fabíola Paes

No decorrer de 2014, a economia brasileira começou a mostrar sinais de desaceleração, devido a fatores como o aumento da inflação e da desvalorização do real frente ao dólar norte-americano. A inflação mais alta penaliza quase todas as indústrias brasileiras, mas especialmente de alimentos e produtos industriais. Durante os tempos de inflação alta, quando não é possível encontrar comida a preços razoáveis, muitos consumidores olham primeiro para alimentos alternativos – e eventualmente reduzem ou evitam o consumo de itens que são considerados muito caros. Com a desvalorização do real, os produtos importados ou desenvolvidos a partir de componentes importados ficam mais caros, devido à taxa de câmbio.

Especialistas afirmam que esse cenário não deve mudar a curto prazo. Como consequência, algumas indústrias deverão crescer num ritmo muito mais lento, em comparação com as taxas de crescimento registradas entre 2010 e 2013. Por outro lado, o varejo deve continuar a registrar um pequeno crescimento nas vendas.

As propostas para potencializar a economia, nesse cenário mais desafiador, seria apostar na alta da produtividade e criar novos fatores de crescimento. Neste momento, o combinado competitividade e produtividade torna-se altamente relevante e necessário para rentabilizar o setor.

Em situações como essas, espera-se que a velha receita de minimizar os gargalos estruturais com as reformas tributária e trabalhista voltem a ser assunto de discussão. Porém, ela é muito mais difícil de colocar em prática no curto prazo, pois fatores como engajamento político se fazem necessário.

Para potencializar a distribuição e vendas do comerciante, no curto prazo, a estratégia multicanal – loja física, loja virtual, loja mobile, venda direta, entre outras – deve continuar a se desenvolver. São esperadas maior integração e sinergias para levar as estratégias de negócios do varejo omni-channel.

Além disso, os varejistas de e-commerce deverão oferecer serviços exclusivos ou aplicativos para facilitar o processo de compra e experiência. Netshoes, por exemplo, investiu em um aplicativo que permite aos consumidores tirar uma foto do tênis e procurar um produto semelhante no site da empresa. Dafiti oferece uma plataforma de chat online para os consumidores fazerem perguntas sobre o dimensionamento de produtos, bem como guias de moda e consultoria.

Pesquisa recente da Euromonitor aponta que a penetração de smartphones e tablets cresce rapidamente no Brasil. Entre 2012 e 2017, o smartphone deverá registrar um aumento de 32% no volume de vendas no varejo, atingindo 57 milhões de unidades, enquanto o tablet deverá crescer 59% em volume e, em termos de vendas no varejo, atingir 17 milhões de unidades. Mais investimento são estimados em pagamentos através de terminais POS e opções de móveis como NFC (Near Field Communication), que é ainda pouco desenvolvida a nível mundial.

Nesse sentido, o país deve pensar não apenas na manufatura, mas também em pesquisa e inovação. Dentro deste contexto, iniciativas que visam contribuir com a inovação e aplicação de novas tecnologias para aprimoramento da gestão, com foco na alavancagem de vendas, proporcionando maior rentabilidade e sustentabilidade ao setor, estão sendo desenvolvidas dentro das universidades, para orientar estudantes, empresários, empreendedores, dirigentes empresariais e lideranças sobre as tendências que moldarão os novos desafios do varejo.

O artigo foi escrito por Fabíola Paes, que é Coordenadora do Núcleo de Estudos e Laboratório de Varejo da Escola de Comunicação e Negócios da Universidade Positivo e Coordenadora do MBA em Gestão de Varejo e Administração de Shopping Center da Universidade Positivo.

O complicado arranjo econômico de 2015

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

A discussão econômica brasileira, neste final de 2014, tem abastecido a sociedade com comunicações de formulações teóricas, e ensaios de cenários, a respeito do que deveria acontecer para a retomada de um ciclo de expansão sustentada dos negócios, em médio prazo, e o que de fato deve ocorrer, em 2015, à luz da avaliação das chances de equacionamento das formidáveis distorções, acumuladas entre 2008 e 2014, e das respectivas opções técnicas e políticas de solução, a serem negociadas entre governo e demais agentes sociais.

Por certo, o panorama prospectivo desautoriza rompantes de otimismo. Isso porque, no ambiente exógeno, conformam-se barreiras não triviais, traduzidas na tendência de acentuação da queda dos preços das commodities, elevação dos juros nos Estados Unidos, intensificação da desaceleração da economia chinesa, morosa superação da recessão europeia e aprofundamento do caos político e inflacionário na Argentina.

No front doméstico, emerge a desgastante herança maldita do primeiro mandato da presidente Dilma, caracterizada por economia estagnada; flerte da inflação (represada artificialmente com a segurada nos reajustes das tarifas públicas e preços administrados) com o teto da meta, pouco ambiciosa, definida pelo Conselho Monetário Nacional; juros ascendentes; déficit externo recorde; e deterioração monetária e de credibilidade das finanças públicas, com o fechamento do exercício com restos a pagar equivalentes a 2% do produto interno bruto (PIB).

Ademais, aflora a debilidade política da administração reeleita. O diminuto fluxo de confiança manifestado pelos atores produtivos nos ocupantes do Palácio do Planalto resulta em um governo frágil e acuado, forçado pelas circunstâncias adversas, evidenciadas na inquietação dos mercados e das agências de rating, a promover a negação das recentes promessas de campanha e a negociação fisiológica da aprovação da lei de desobrigação de cumprimento da meta fiscal no Congresso Nacional, controlado por um PMDB rebelde. Aliás, o episódio da instituição do calote fiscal reproduziu a aliança da incompetência do Executivo com o clientelismo do Legislativo, expresso no compromisso de liberação de verbas para as emendas dos parlamentares.

Entre os vários cenários políticos disponíveis na praça para 2015, destaca-se a implantação de uma espécie de presidencialismo de coalização, no qual Dilma, no afã de reverter as expectativas desfavoráveis, reprisaria a atitude de Lula, em 2003 (com Palocci, Murilo Portugal e Marcos Lisboa, na Fazenda, Henrique Meirelles, no Banco Central, e Joaquim Levy, no Tesouro). A presidente tentaria comprar credibilidade, com a execução de uma orientação macroeconômica ortodoxa, ancorada na estruturação do ajuste fiscal via, predominantemente, aumento de impostos, e no realinhamento dos preços relativos, aproveitando o panorama de visível enfraquecimento do mercado de trabalho e dos orçamentos domésticos, comprometidos em 46% com o pagamento de prestações, contra 38% em 2010.

Repete-se aqui o comportamento convencional de busca de recomposição do equilíbrio de caixa pelo caminho da elevação da tributação, deixando em segundo plano um arrojado programa de redução de dispêndios, o que demonstra que o efetivo esforço fiscal constitui apenas peça de discurso.

A diferença básica entre a atmosfera pretérita e a presente é que, enquanto Lula sucedia Fernando Henrique Cardoso (FHC), herdando um superávit primário de 3,4% do PIB, Dilma ingressa em seu próprio lugar, depois de ter produzido um déficit fiscal de 0,5% do PIB, excluindo a contabilidade criativa, e nominal (incorporando os juros da dívida) superior a 5% do PIB, e carregando o fardo do “Petrolão” (Operação Lava-Jato), e seus desdobramentos negativos sobre os investimentos e os programas de concessões de infraestrutura, acrescidos das investigações em realização pela justiça americana.

Nessas condições, apesar de relevante, a anunciada priorização das variáveis conjunturais, sintetizada na arrumação das contas e geração de poupança pública de 1,2% do PIB, destinada à cobertura de parte dos encargos da dívida governamental em 2015, que representa economia de quase R$ 100 bilhões, se considerado o desequilíbrio de 2014, não deve sequer “fazer cócegas” na inflação, especialmente com a sinalização (comunicação) confusa do Banco Central e o prosseguimento da relação promíscua entre Tesouro Nacional e bancos públicos. É a tentativa de curar “ferida braba” com o emprego de “mertiolate, gaze e esparadrapo”.

A reconquista da estabilidade econômica da nação requer a percepção social da aplicação de reformas capazes de encaminhar uma “operação desmame” das benesses tributárias e creditícias, dirigidas a poucos privilegiados, e desmanchar as armadilhas plantadas pelo ativismo estatal de um presidencialismo de cooptação, com ocupação da função de economista-chefe por Dilma Rousseff, desde 2005.

O papel do Estado esteve ancorado em populismo salarial, intervenções cambiais e controle de preços estratégicos, ocasionando a falência dos segmentos petrolífero e elétrico, a destruição de apreciável fração da indústria e a piora dos indicadores sociais, reacen¬dendo a chama da síndrome da renda média do País. O valor atual de mercado da estatal petrolífera corresponde a menos de 20% do registrado em maio de 2008, antes da deflagração da crise financeira internacional.

A título de exemplo, a taxa de poupança (governo, empresas e famílias) caiu de 18,8% do PIB, em 2008, para 14% no terceiro trimestre de 2014, fruto sobretudo da contração dos lucros retidos pelas corporações, a mais importante origem de haveres para a alavancagem dos investimentos no Brasil.

Também não constitui obra do acaso a constatação da entidade “Todos pela Educação”, a partir de estimativas com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2013, de que pouco mais de 54% dos jovens encerraram o ciclo do ensino médio com até 19 anos de idade, chegando a 32,4% nas famílias mais pobres, que representam um quarto do total.

Em direção análoga, na avaliação do Pisa, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), efetuada para aferir a capacidade dos estudantes de 15 anos, de 65 nações, de pensar e resolver problemas de maneira autônoma, 65% dos alunos brasileiros não possuíam noções essenciais de matemática, 19% exibiam deficiência em leitura e 54% expunham carência em ciências. Investigação do Instituto Paulo Montenegro, do Ibope, mostra que somente 1/3 dos que concluem o ensino médio são dotados de alfabetização plena (redação, compreensão de texto e matemática elementar).

Por essa ordem de complicadores, parece crucial que o planejamento econômico do País ultrapasse os estreitos limites impostos pela necessidade de ataque aos embaraços conjunturais, e paute o entendimento, reconhecimento e priorização das variáveis portadoras de futuro, especialmente a educação, e retire, por exemplo, do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) a pecha de um grande projeto imobiliário.

Em tempo: de uma vez por todas, é preciso ficar claro que a parte da população que não sufragou os candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), e abomina o maior escândalo de corrupção da história brasileira, não está afrontando a democracia. Até porque, mesmo discordando, a maioria deste pedaço da sociedade respeita a posição política daqueles que foram contrários ao plano real e à aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, diretor-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES) e professor da FAE Centro Universitário.

Indústria do Paraná recuou 0,4% em outubro

A produção da indústria do Paraná recuou 0,4% na passagem de setembro para outubro de 2014, diante da estagnação na média nacional em 0,0%, segundo a Pesquisa Industrial Mensal Regional – Produção Física (PIM-PF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segunda taxa negativa consecutiva neste tipo de confronto, acumulando perda de 1,5% em dois meses. Com esse resultado, o índice trimestral registrou variação positiva de 0,1% nos três meses encerrados em outubro frente ao nível do mês anterior, interrompendo a trajetória descendente iniciada em março deste ano. Entre os locais pesquisados no País, sete dos quatorze apresentaram diminuição no ritmo da produção industrial. Os ramos que influenciaram negativamente no Estado foram fabricação de veículos automotores e minerais não metálicos.

Em outubro de 2014, no confronto com outubro de 2013, o setor fabril paranaense apontou recuo de 8,3%, frente contração de 3,6% para o Brasil, com retração em dez dos quinze locais pesquisados. Os setores que afetaram o desempenho da indústria no Estado foram veículos automotores, reboques e carrocerias (-29,2%), pressionado, especialmente, pela menor produção de automóveis; fabricação de máquinas e equipamentos (-23,1%), explicado pela menor produção de máquinas para colheita, tratores agrícolas, partes e peças para aparelhos de ar condicionado e refrigeradores e câmara frigorífica para produção de frio para usos industrial e comercial; produtos minerais não metálicos (-13,4%), devido a menor produção de artigos de fibrocimento contendo amianto, blocos e tijolos para construção de cimento ou concreto e cimentos “Portland”; e de produtos de metal (-7,1%), pressionado pela retração na produção de moldes para fabricação de peças de borracha ou plástico, artefatos diversos de ferro e aço estampado, estruturas de fero e aço em chapas ou em outras formas de pias, cubas, lavatórios, banheiras e semelhantes de ferro e aço.

Em sentido oposto, os setores de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (6,4%), fabricação de celulose, papel e produtos de papel (4,7%), produtos alimentícios (0,8%) exerceram as contribuições positivas mais importantes sobre o total da indústria paranaense.

No acumulado dos dez primeiros meses de 2014, a indústria do Paraná desacelerou 6,1%, ante redução de 3,0% na produção nacional. Dos treze setores pesquisados, nove diminuíram a produção, puxados por fabricação de veículos automotivos (-20,5%), máquinas e equipamentos (-11,9%), fabricação de móveis (-8,4%), produção de alimentos (-5,7%) e fabricação de produtos químicos (-2,9%).

No indicador acumulado de doze meses, encerrado em outubro de 2014, a produção industrial regional ao passar de -3,5% em setembro para -4,8% em outubro de 2014, manteve a trajetória descendente iniciada em fevereiro de 2014 (4,7%). Os principais impactos negativos para a média global vieram dos setores veículos automotores, reboques e carrocerias (-16,4%), móveis (-7,6%), máquinas e equipamentos (-7,3%), produtos alimentícios (-3,9%) e produtos químicos (-3,3%).

Os números desfavoráveis da produção regional resultam do ambiente nacional desfavorável com destaque para as barreiras externas, mais precisamente a drástica redução do ritmo de evolução da economia mundial, e subsequente diminuição dos preços internacionais das commodities; e a intensificação da adoção de uma política macroeconômica baseada em forte entrada de poupança externa, para financiar o consumo interno público e privado, em detrimento do investimento.

Aliás, esse modelo adotado pela gestão federal apresenta sinais de esgotamento, com a perspectiva desfavorável da elevação do consumo das famílias, em função da redução dos ganhos reais de salário, por conta da escalada da inflação, e do elevado comprometimento da renda com pagamento de dívidas.

O artigo foi escrito por Francisco José Gouveia de Castro, economista do Núcleo de Macroeconomia e Conjuntura do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES).

O preço do atraso educacional brasileiro

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

Apesar de ostentar o status de sétima maior economia do planeta, o Brasil ainda amarga enorme distância em relação às nações avançadas na área educacional. Tal fenômeno, explicado primordialmente pelo descaso e, por extensão, retardo na educação, torna-se evidente através do exame da versão 2014 de um levantamento denominado “Índice para uma vida melhor” (better life index), realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) Projetos, em parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que congrega as 36 principais economias com renda média e alta.

Segundo a organização, mesmo tendo uma jornada de trabalho superior à média dos países considerados ricos, o brasileiro é o mais pobre no conjunto dos espaços geográficos investigados, em razão da menor produtividade por trabalhador, associada aos diminutos patamares quantitativos e qualitativos de instrução, que, por sinal, contribuem de forma relevante para a menor geração de produto social.

Tanto que o País registra a menor renda per capita entre os 36 pesquisados, figurando na 79ª posição no mundo, embora esteja classificado no 11º posto em tempo superior a 50 horas semanais dispendido pelo fator trabalho, o que representa 11% do contingente empregado, ante 15,4% no Chile, 11% nos Estados Unidos (EUA) e 6% na Alemanha.

Tal incongruência está diretamente ligada ao fato de que somente 42% da população adulta, pertencente à faixa compreendida entre 25 e 64 anos, encerrou os estudos de nível médio, versus 75% para a média da OCDE, 72% para o Chile, 86% para a Alemanha e 89% para os EUA. Ainda nessa classe, apenas 12% possui o diploma de terceiro grau, o menor nível da OCDE (média de 33%). O pior é que 57% das pessoas com idade entre 25 e 34 anos completaram o segundo grau, contra 82% no cotejo mundial.

Não bastasse essa defasagem, o País carrega a pior performance no Programme for International Student Assessment (PISA), avaliação preparada pela OCDE para aferir o conhecimento acadêmico de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências. A pontuação média dos discentes brasileiros é 406, inferior à da organização (497), considerando os 439 pontos do Chile, 494 dos EUA e 514 da Alemanha.

Adicionalmente, o Brasil situou-se abaixo da meta para os anos finais do ensino fundamental no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), da rede pública e privada, estimado pelo Ministério da Educação, atingindo 4,2 pontos, em 2013, ante um objetivo de 4,4 pontos. Outro complicador, conforme o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), repousa na evasão escolar do básico, calculada em 24% no País, contra 2,6% no Chile, 4,8% no Uruguai, e 6,2% na Argentina.

Nesse particular, não seria ocioso lembrar uma das argumentações centrais desenvolvidas pelo economista Thomas Piketty, professor da École d’Économie de Paris (Paris School of Economics), em polêmica obra de 940 páginas, que sublinha o conhecimento e a educação como os dois pilares da diminuição estrutural da desigualdade.

Mesmo com mais de 1 milhão de pessoas desempregadas nos espaços metropolitanos, a absorção do fator trabalho no País esbarra na sua insuficiente e/ou inadequada qualificação. Ademais, a despeito da elevação da escolaridade, comprovada pelo salto quantitativo demonstrado pela expansão do contingente de alunos matriculados, nas diferentes escalas de aprendizagem, percebe-se expressivo grau de analfabetismo funcional, inclusive, surpreendentemente, nos meios universitários. De acordo com o Instituto Paulo Montenegro, 38% da população com acesso ao ensino superior acusa dificuldade de entendimento de textos convencionais e de resolução de operações de matemática básica.

Igualmente relevante é a escassa aderência entre a formação universitária e o perfil de profissional demandado pelas organizações produtivas, atestando a pouca sintonia entre projetos acadêmicos e necessidades técnicas manifestadas pelo mercado, em contraste com o verificado nas nações emergentes e avançadas.

Cumpre reconhecer a natureza inclusiva de algumas políticas do governo federal, lançadas a partir de 2005, particularmente a criação do Programa Universidade para Todos (PROUNI), beneficiando estudantes com renda mensal familiar de até três e um e meio salários mínimos per capita, com bolsas de até 50% do valor das mensalidades e integrais, respectivamente.

Houve ainda a ampliação da abrangência do Financiamento Estudantil (FIES), depois de 2010, cobrando taxas de 3,4% ao ano, com 18 meses de carência, depois da colação de grau, e tempo de pagamento equivalente a três vezes a duração do curso, acrescido de um ano. Os empréstimos do FIES nonuplicaram nos últimos quatro anos, passando de R$ 1 bilhão em 2010 para R$ 9 bilhões em 2014.

No entanto, ao contabilizarem significativa massa de alunos assistidos (1,4 milhão, o Prouni, e 1,7 milhão, o FIES) com enorme carga de subsídios, os dois programas necessitam de profunda revisão, por conta da exagerada concentração da demanda de favorecidos em cursos de carreiras saturadas, como direito e administração, em detrimento da disputa de vagas em medicina e licenciaturas em ciências e matemática.

Por tudo isso, afigura-se prioritário o planejamento e a implementação de ações voltadas ao aprimoramento qualitativo do ensino no País. Em vez da rendição política às bandeiras e pleitos circunstanciais, e por vezes pontuais, por alargamentos de dotações orçamentárias destinadas à área, seria interessante a busca de emprego mais racional dos recursos disponíveis, ao lado de iniciativas estruturais com foco eminentemente qualitativo.

Entre as medidas de base emerge a introdução de modelos contemporâneos de gestão, a permanente revisão e atualização das matrizes curriculares, a modernização dos procedimentos pedagógicos, o aumento do número de horas de ensino e a recuperação, adequação e automação dos ambientes físicos das escolas.

A par disso, é crucial a viabilização financeira do acesso e permanência de estudantes a escolas privadas menos subordinada a benesses oficiais e mais amparada no barateamento estrutural do custeio dos estudos. Para isso, urge a redução da carga tributária incidente sobre o preço final dos materiais escolares, atualmente beirando os 50%, além da introdução de critérios econômicos mais completos para a precificação das mensalidades cobradas, privilegiando custos variáveis e economias de escala.

Porém, apesar do caráter imprescindível desse elenco de tarefas, sua eficácia plena na multiplicação da qualidade da educação brasileira requer a deflagração de processos de preparação e valorização dos professores, na perspectiva de transmissão e produção compartilhada de conhecimentos e formação de profissionais habilitados a organizar soluções baseadas em análises menos rasteiras, aderentes à natureza complexa e diversificada de mercados em contínua mutação; aspecto não coberto, por exemplo, pelo Programa Nacional de Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), criado em 2011, envolvendo mais de R$ 4 bilhões e apresentando taxa de desistência de quase 60%.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, economista, diretor-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (PARDES) e professor da FAE Centro Universitário.

Receita do setor de serviços do Paraná expande 3,5% em setembro

A receita nominal do setor de serviços (que abrange o segmento empresarial não financeiro, excluindo-se os setores da saúde, educação, administração pública e aluguel imputado) no Estado avançou 3,5% em setembro de 2014 no confronto com setembro de 2013, frente acréscimo de 6,4% para o Brasil, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As principais contribuições positivas vieram das atividades de serviços profissionais, administrativos e complementares (14,8%), serviços prestados às famílias (4,9%) e serviços de informação e comunicação (4,4%).

No indicador acumulado de janeiro a setembro de 2014, os serviços prestados no Paraná cresceram 6,6%, a mesma registrada nacionalmente. O desempenho regional foi puxado pelas atividades de serviços profissionais, administrativos e complementares (12,0%), serviços prestados às famílias (9,0%), serviços de informação e comunicação (7,2%) e serviços de transportes e correio (3,9%).

No acumulado em doze meses, encerrados em setembro de 2014, o setor de serviços paranaense ampliou 6,7%, diante evolução de 7,1% para o País. As atividades que se destacaram nesse tipo de comparação foram os serviços profissionais, administrativos e complementares (10,9%), serviços prestados à família (9,5%), serviços de informação e comunicação (7,1%) e serviços de transportes e correio (4,5%).

Mesmo diante de um ambiente econômico nacional desfavorável, o crescimento verificado no setor de serviços do Paraná é o resultado do dinamismo da massa de salários – que aumentou o poder aquisitivo da população – e do aquecimento do mercado de trabalho regional, que segue gerando emprego, em grande parcela no interior do Estado.

O artigo foi escrito pelo economista Francisco José Gouveia de Castro , coordenador do Núcleo de Macroeconomia e Conjuntura do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES).