Calma, a crise é setorial

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

Ao participar de um evento técnico, no final de março de 2015, tive o ensejo de ouvir de um profissional defensor da racionalidade e do acerto da política econômica que vem sendo adotada no Brasil desde o derradeiro trimestre de 2008 e, de forma um tanto quanto acanhada, do ajuste ortodoxo praticado pela dupla Levy-Tombini, neste começo de ano, a máxima de que a instabilidade atual é setorial. Na ocasião de minha fala, no referido encontro, consegui, por meio do exame de algumas estatísticas apuradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmar o acerto do diagnóstico do colega. De fato, a recessão tornou-se setorial ao atingir todos os setores, exceto algumas cadeias produtivas presas ao agronegócio que, ainda assim, padecem com a conjuntura de declínio das cotações das commodities alimentares nos mercados globais.

A rigor, a marcha cadente que arrebanhou as variáveis de mão de obra industrial, particularmente nível de emprego e horas pagas, e produção fabril, a partir de 2012, por conta, em princípio, do enfraquecimento estrutural da demanda externa, e, depois, da contração da absorção interna, incorporou as atividades comerciais e de serviços, em 2014, fruto primordialmente da deterioração da oferta de crédito e do mercado de ocupações, que, junto com o alargamento do programa Bolsa Família, representaram os verdadeiros baluartes da orientação anticíclica praticada pela gestão Dilma Rousseff.

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A terceirização e o “coice de porco” da produtividade

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

Depois de onze anos de tramitação e do recente festival de mudanças de posições de parlamentares e partidos, de acordo com o sopro dos ventos oriundos da iniciativa privada e das representações dos trabalhadores, além das caneladas protagonizadas entre executivo e legislativo, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei (PL) 4.330/2004, que estipula as novas regras para a terceirização.

Se a essência original do PL for confirmada, em vez de desfigurada, pelo Senado da República, o dispositivo permitirá a uma organização privada à repartição da produção e do trabalho com empresas especializadas, em qualquer atividade desenvolvida, incluindo as secundárias, como vigilância e limpeza, e o foco dos negócios.

O PL também propiciará o encurtamento do tempo de vinte e quatro para doze meses, transcorrido entre o desligamento de funcionários, regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e posterior contratação como pessoa jurídica, e tornará as empresas públicas solidárias em pendências trabalhistas, em caso de não quitação dos encargos pela prestadora dos serviços. A instância contratante constituirá uma espécie de fundo de reserva, de 4% do valor pago pelos serviços para a terceirizada, garantidor do pagamento de eventuais passivos desta para com os empregados.
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Despesas pessoais e profissionais: quando o dinheiro sai da mesma fonte

Lidar com dinheiro não é um jogo fácil para a maioria dos brasileiros. Fugir das dívidas, planejar os gastos, investir e poupar muitas vezes são metas que ficam no campo das ideias. A situação complica ainda mais quando se tem que administrar, ao mesmo tempo, as finanças pessoais e as da empresa. É que, para boa parte dos micro e pequenos empresários, a fonte de recursos é a mesma – o que mudam são as expectativas. Enquanto o foco da pessoa jurídica está no negócio, nos fluxos de caixa, na rentabilidade e nas vendas, para a pessoa física as necessidades são mais subjetivas – englobam família, sonhos e qualidade de vida.

Aproximadamente 500 mil novas micro e pequenas empresas solicitaram adesão ao Simples Nacional para o exercício de 2015. O número representa um aumento de 125% em relação às adesões para o exercício de 2014. Em meio a tantos novos empreendedores, uma preocupação é fundamental para a perpetuação destas organizações: estabelecer a divisão entre pessoa física e jurídica. Nada mais é do que colocar em prática a base da educação financeira que tanto o consumidor comum ouve em épocas de 13º salário: a mudança comportamental, de hábitos e de consumo. A linha que separa os gastos pessoais e os da empresa é tênue, mas pode significar a diferença entre o sucesso e o fracasso de um empreendimento.

O primeiro passo é o empreendedor listar seus gastos com a empresa e as despesas pessoais. Colocar tudo na “ponta do lápis”, separando as contas e diagnosticando excessos. É fundamental citar todos os gastos da empresa: do contador às contas de telefone. O objetivo é que, assim, se tenha domínio sobre quanto, de fato, custa o seu negócio por mês. É válido também mudar planos de celular, internet e saúde, geralmente com custos menores quando feitos para a pessoa jurídica, e fazer uma estimativa, em percentual, de quanto combustível e estacionamento se gasta com a empresa e com próprio uso.

Outro ponto é estipular um pró-labore, ou seja, o ganho mensal que a empresa paga para os sócios. O valor deve ser definido respeitando os custos mensais do empreendimento. Não adianta o empresário determinar para si um valor ínfimo mensal, pois dificilmente ele conseguirá manter o seu padrão de vida com essa quantia e acabará incorrendo no erro de misturar as contas de pessoa física com as de pessoa jurídica. Também não cabe estipular um valor muito alto, que pode comprometer a rentabilidade da empresa. É importante ainda que seja estabelecido qual será o percentual de ganhos que será reinvestido na empresa. Não são raros os casos de empresas que “quebram” justamente quando tentavam expandir suas atividades. Normalmente, em um momento de investimento, a saída é comprometer o capital de giro, o que é um grande erro.

Por fim, é inevitável pensar no futuro pessoal e nas incertezas econômicas. A pessoa física tem que estabelecer uma reserva mensal pessoal, enquanto a pessoa jurídica tem que definir reserva mensal para a empresa. Pelo menos 10% do ganho mensal devem ser poupados com o objetivo de utilizar este valor como capital de giro ou para reinvestimento na empresa. E no campo particular, lembrar-se das férias, aposentadoria ou doenças e outros imprevistos.

A partir desses pontos ficará mais fácil perceber o quanto esta mistura de dinheiro pode ser onerosa às economias particulares e ao seu negócio. Criando-se uma rotina financeira, vai ser possível desenvolver o hábito saudável de ordenar o dinheiro de forma coerente e ter controle total de suas economias, com rendimento real em ambas as contas.

O artigo foi escrito por Ana Carolina Borges Souza, especialista do segmento PJ do Sicredi.

Crise do segmento automotivo e erros privados

Gilmar Mendes Lourenço
Gilmar Mendes Lourenço

Um dos elementos relevantes integrantes do exercício de análise da conjuntura econômica compreende a identificação das estratégias e táticas empregadas pelos agentes, visando à manutenção e intensificação dos cenários considerados desejáveis e a atenuação ou até eliminação dos pontos de perturbação à evolução do ciclo de negócios. Nessa perspectiva, parece interessante sublinhar a postura absolutamente equivocada adotada pelas empresas fabricantes de autoveículos atuantes no Brasil. Em vez de examinar a possibilidade de lançamento de medidas compatíveis com a nitidez do desenho de uma fase de prolongada estagnação da produção e da comercialização, as companhias começaram a optar pela saída fácil da promoção de reajustes dos preços finais dos produtos.

Tal critério de recomposição de margens revela-se bastante comum em estruturas de mercado oligopolizadas, nas quais um número reduzido de plantas domina as cadeias produtivas, sendo menos sensíveis ao uso de modelos de ajuste pela via da supressão de gorduras ou de ineficiências e mais inclinadas à transferência das patologias microeconômicas ao consumidor final, o que, no ambiente presente, deve agravar o distúrbio que se tenciona eliminar.

A reprodução setorial da atual situação de fragilidade do aparelho de transações no País é evidenciada pela acentuada queda no volume de vendas domésticas, produção e exportações, no primeiro trimestre de 2015, em cotejo com o intervalo janeiro-março de 2014, apurada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA). A comercialização interna e a produção do ramo encolheram 17% e 16,2%, respectivamente, enquanto as vendas internacionais subiram 6,3%, influenciadas pela depreciação do real, especialmente no item ônibus (12%).

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Programas de Compliance exigem estratégia para atingir público-alvo

Rogeria Gieremek
Rogeria Gieremek

A eficácia dos programas de Compliance não depende apenas da seleção de bons profissionais para a tarefa. Uma vez constatado que as atividades são positivas para os processos da empresa, chega a parte mais delicada do trabalho: os profissionais da área têm, não apenas que apresentar experiência acadêmica e profissional sobre o assunto, como também – e principalmente –sensibilidade para adequar o discurso ao público-alvo. O mesmo ensinamento sobre regras e políticas da empresa pode ser ministrado a um grupo de executivos e à equipe de produção. Porém, a linguagem tem de ser adequada a cada setor, sob o risco de não ser compreendida pela maioria ou de não despertar interesse.

A sensibilidade e o bom senso são as primeiras condições para quem prepara e/ou escolhe o profissional encarregado de ministrar palestras em um programa de Compliance. Um currículo estrelado e um discurso erudito podem funcionar muito bem para pessoas com conhecimento e prática acadêmica mais acentuada, mas não é eficiente para o time com um nível de escolaridade mais baixo. Isso porque, na maioria das vezes, o ambiente frequentado por estes profissionais é mais informal, com linguajar simples e direto, o que pode dificultar a compreensão integral da mensagem. Portanto, a adequação do discurso é a ferramenta necessária para que o conteúdo seja assimilado e praticado.

Da mesma forma, não se pode perder de vista que um programa de Compliance é algo dinâmico, que não se encerra em uma palestra ou treinamento, mas que deve considerar revisões constantes e reforço de regras transmitidas anteriormente, como uma maneira de fixar as mensagens-chave.

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