Chega de recessão. Indústria precisa crescer, mas qual é a melhor estratégia para investir de forma sustentável?

Depois de 3,5 anos de recessão econômica, a indústria paranaense começa a dar os primeiros sinais de reação. Nos primeiros sete meses do ano, a produção industrial paranaense cresceu 3,9% em relação a igual período de 2016, ante um aumento de 0,8% da média nacional, segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o faturamento da indústria do Paraná continua em queda. No primeiro semestre, pesquisa da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) apontou que a retração nas vendas industriais foi de 8%.

O aumento da produção e a queda nas vendas não significa que as indústrias paranaenses estão fazendo estoque. A pesquisa Sondagem Industrial da Fiep indica que para se adaptar à nova realidade e acompanhar o mercado, as indústrias que fabricavam produtos mais sofisticados trocaram por outros mais simples e mais baratos. Automaticamente, o faturamento ficou menor. “Essa foi a alternativa encontrada pelos industriais do Estado para não fechar às portas e diminuir o desemprego”, justifica o economista Roberto Zurcher, do Departamento Econômico da Federação das Indústrias do Estado do Paraná.

Para atender as novas demandas, o setor industrial precisa investir. Só que para crescer e produzir mais é necessário investimento, que por sua vez requer capital. É aí que os problemas surgem, pois sem ou com pouco dinheiro em caixa, a opção é buscar recursos em bancos para financiar os investimentos, seja para a construção ou ampliação do parque fabril, inovação de produtos e aumento da produtividade.

Além de empréstimos bancários, considerados restritivos e caros, existem hoje diversas formas para bancar o tão esperado retorno do crescimento industrial. O grande desafio está em sustentar o retorno de investimento atrativo e ideal, que proporcione não apenas maior crescimento em receita, market share ou lucro, mas também a maximização do valor do negócio. As empresas que não visam apenas o crescimento orgânico, mas um grande potencial estratégico, podem buscar sinergias através de fusões e aquisições.

Outras formas de captação de recursos visando a retomada do crescimento podem ser feitas através da entrada de fundos de investimentos, os famosos private equity, que acabam se tornam sócios no negócio ou alternativas no mercado de capitais com captação de dívida; através de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA); Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI); Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC); debêntures ou então pela abertura de capital na Bolsa de Valores (IPO), aponta o sócio-proprietário da Geld Group, Mario Candido Neto. O importante é analisar atentamente qual alternativa de crédito é a mais viável para o negócio. “No nosso País predomina a cultura de usar apenas aquilo que se conhece. No entanto, com uma boa assessoria o empresário pode maximizar os investimentos e ser orientado sobre as especificidades de cada modalidade de financiamento”, explica.

Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Campagnolo, para o crescimento do setor produtivo o acesso ao crédito é fundamental. “Sem crédito dificilmente uma indústria conseguirá implantar novos projetos, ampliar mercados e contribuir para a geração de empregos e renda para a sociedade”.

Marcelo Percicotti e João Baptista de Lima Guimarães: juro alto inibe o investimento industrial. 

O gerente de Economia, Desenvolvimento e Fomento da Fiep, Marcelo Percicotti, chama a atenção para fato de que embora a economia precise crescer urgentemente, o crédito para o setor industrial está cada vez mais restrito, além de caro, mesmo com o declínio da taxa Selic verificado nos últimos meses. Entre janeiro e julho deste ano, o saldo da carteira de crédito dos bancos diminuiu 8,6% em relação a igual período de 2016. E durante os 12 meses de 2016, a queda registrada foi de 2,5%. Por mais estranho que pareça, em 2015, o saldo da carteira de crédito cresceu 8%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) apresentou variação negativa de 3,8%.

Animado com o quadro atual, Percicotti informa que a partir do segundo trimestre do ano o setor de Fomento da Fiep passou a registrar uma demanda maior de empresários do setor industrial prospectando crédito para investimento. “Infelizmente, nos dois últimos anos, o que mais atendemos foram empresários que buscavam dinheiro para capital de giro visando o pagamento das contas”.

Um erro muito comum cometido pelos industriais paranaenses, apontado pelo gerente de Economia e Fomento da Fiep, foi a compra de máquinas e equipamentos, utilizando recursos próprios da empresa. “Embora esse seja um erro muito grave, 90% da estrutura produtiva têm agido dessa forma, deixando a empresa sem fôlego, sendo obrigada a recorrer a empréstimos para capital de giro, que são bem mais caros”, justifica. Ou seja, enquanto o custo do financiamento para a produção está, em média, em 14% ao ano, os juros anuais dos empréstimos para capital de giro variam entre 23% e 24%.

O analista de Fomento da Fiep, João Baptista de Lima Guimarães, aconselha os empresários para que nunca fiquem reféns do gerente do banco com quem trabalham, que vão atrás de informações em outras instituições financeiras e que sempre busquem orientações na Federação das Indústrias do Paraná.

Crescer dói? Muitas empresas sentem a dor do crescimento semelhante a dos seres humanos

Emanuele Caroline de Oliveira Solyom: “A trajetória para o sucesso de um negócio é longa”.

A dor do crescimento quando criança e adolescente é mais comum do que se imagina. Quem é que não se lembra dessa dor, que se manifesta em uma fase natural do desenvolvimento físico? Assim, como o crescimento do corpo humano é um processo dinâmico, que começa na concepção e se prolonga até a vida adulta, com intensidades que variam nas diferentes fases da vida da criança e do adolescente até atingir a plena maturidade, o mesmo ocorre com o universo corporativo.

Para a diretora de Consultoria da Russell Bedford Valuconcept, Emanuele Caroline de Oliveira Solyom, não existe crescimento sem dor e no caso das empresas isso é inevitável. “A trajetória para o sucesso de um negócio ou até atingir sua maturidade é longa. Serão muitas dores a serem enfrentadas pelo caminho até atingir o crescimento sustentável, desde ter um caixa apertado, ter uma equipe sobrecarregada por falta de processos, falta de treinamento ou falta de pessoal até ser menos dono do negócio porque tem que delegar responsabilidades”, alerta.
Emanuele ressalta que um dos maiores objetivos das empresas de uma forma geral é o crescimento, porém se não for bem planejado e conduzido, poderá se tornar uma “dor” sem fim, afetando a qualidade, a lucratividade a motivação da equipe e a satisfação dos clientes.

A fusão e aquisição vem sendo uma estratégia bastante utilizada para crescer. Esse caminho permite que as empresas ampliem sua carteira de clientes, portfólio de produtos, regiões de atuação ou se apropriem de novas tecnologias, de forma mais rápida do que lhe seria possível no crescimento orgânico. Embora o volume financeiro de fusões e aquisições de empresas brasileiras tenha caído 46,8% entre janeiro e junho, somando R$ 32,7 bilhões, com o número de negócios totalizando 44, o cenário para o segundo semestre é positivo, de acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima).

A maior parte dos anúncios do primeiro semestre (43,2%) foi concentrada em operações com volume inferior a R$ 100 milhões. Como consequência das maiores operações, os setores que puxaram as fusões foram o de mineração, com 22,5% do volume total, seguido dos segmentos de alimentos e bebidas (19%) e de siderurgia (16,9%).

A vantagem da fusão para a concorrência é importante, principalmente, pela disputa que existe hoje no mercado por clientes. Ao unir forças, as empresas aumentam os consumidores, pois além dos próprios clientes incorporam os da companhia à qual se fundiu. Com isso, cresce a participação no mercado e mais produtos passam a ser oferecidos.

Crescer através de private equity é só para grandes

Outra forma de captação de recursos são os fundos que operam investimentos, mais conhecidos como private equity. Esta modalidade se restringe a indústrias que faturam acima de R$ 50 milhões/ano. Os private equity ou capital de risco ou capital empreendedor são um meio de financiamento de empresas ou negócios que envolvem empresários e um grupo provedor de capital.

Normalmente, os investimentos são realizados por meio da aquisição de participação acionária na empresa alvo e pelo aporte de recursos necessários para o crescimento da empresa. Portanto, o investidor de um private equity acaba se expondo aos mesmos riscos de um empresário, pois acabam se tornando sócios. No entanto, o investidor de private equity não será sócio da empresa para sempre. A ideia do capital empreendedor é investir no médio e longo prazo e, ao final desse período, recuperar o investimento através dos lucros sobre o crescimento da empresa.

De acordo com o sócio-proprietário da Geld Group, Mario Candido Neto, esses fundos são indicados para negócios que já têm uma maturidade no mercado e trabalham com uma média de rentabilidade entre 20% e 25% ao ano.
Um dos principais benefícios em receber recursos dos private equity é que eles trazem melhoria para a gestão do negócio e maior governança corporativa. Há também fundos voltados para empresas que buscam a retomada do crescimento, e que trabalham com uma média de 30% de retorno ao ano.

Emissão de títulos da dívida, uma opção para grandes, médias e pequenas corporações

Empresas de médio e pequeno portes estão buscando alternativas para financiar sua expansão, a exemplo do que acontece com as grandes corporações que emitem títulos de dívida para vender aos fundos de investimento. A vantagem é garantir taxas de juros menores por prazos mais longos. A empresa ainda reduz a dependência do financiamento bancário, liberando os limites aprovados para a gestão do caixa.

Para emitir títulos de dívida, como por exemplo, debêntures, as empresas precisam ter balanços auditados, passar pela avaliação de agências de classificação de risco e divulgar prospectos que exigem o trabalho de bancos de investimentos, advogados e consultores. No Paraná, a maior emissão de debêntures, este ano, por uma indústria foi realizada pela Klabin, maior produtora e exportadora de papéis do Brasil, com fábricas nos municípios de Ortigueira e Telêmaco Borba, que conseguiu captar R$ 945 milhões através da colocação de 945 mil debêntures com vencimento em 25 de março de 2022.

Por sua vez, para empresas de médio porte, uma das formas mais fáceis de alcançar o dinheiro do investidor é pela venda de recebíveis, como prestações de compras a prazo, faturas, contratos de fornecimento e até cheques pré-datados. Esses créditos a receber (daí o nome recebível) são “empacotados” pelas securitizadoras e transformados em aplicações voltadas aos fundos de pensão e de investimento.

Indústrias ainda resistem à abertura de capital, principalmente no Paraná

Embora a captação de recursos via abertura de capital seja considerada uma das opções mais baratas, muitas indústrias continuam resistindo em negociar suas ações na Bolsa de Valores. Em 2016, apenas uma empresa brasileira abriu seu capital. Este ano, de janeiro até a primeira quinzena de setembro, dez companhias lançaram ações na BM&FBovespa, porém nenhuma do setor industrial. Com a venda de ações, essas empresas conseguiram captar R$ 24,1 bilhões. Não se pode esquecer, que o Ibovespa atingiu neste mês de setembro o maior índice de toda a sua história ao ultrapassar a casa de 75 mil pontos. A expectativa do mercado é que se a economia brasileira não registrar grandes percalços poderá chegar aos 85 mil pontos até o final do ano e saltar para os 95 mil pontos caso Lula não saia candidato à presidência da República.

Segundo o proprietário da Geld Group, Mario Candido Neto, existe uma cultura pouco disseminada para a abertura de capital no Brasil e, principalmente, no Paraná, onde a maioria das empresas são familiares. “Não é ruim ser uma empresa familiar. A Cargill, por exemplo, que é a maior empresa de alimentos do mundo, é familiar. Nos Estados Unidos, a Ford é uma empresa familiar. Existem grandes empresas que são familiares, mas profissionalizaram sua gestão. A Siderúrgica Gerdau e a Gerdau Metalúrgica depois de 50 anos de gestão familiar anunciaram no mês passado uma mudança de gestão, com os membros da família controladora se afastando da direção e ficarão apenas nos conselhos de administração ”, completa.

De um universo de mais de 21 milhões de empresas ativas no Brasil, apenas 302 são de capital aberto e negociam ações em Bolsa. No Paraná, este número é inexpressivo. Menos de dez empresas em atividade no estado estão listadas na BM&FBovespa, sendo somente duas do setor industrial. Em 2015, três empresas (Café Cacique, Iguaçu Café e Cia Providência) optaram por realizar ofertas públicas de aquisição de ações (OPA) e, com isso, registraram o cancelamento dos seus registros em bolsa. O consolo é que duas empresas paranaenses (uma do setor industrial e outra da área de serviços), com faturamento superior a R$ 300 milhões/ano, estão em processo de abertura de capital. O nome dessas companhias ainda não pode ser revelado.

Mario Neto chama a atenção para o fato de que os preços das ações brasileiras continuam baratos e, portanto, há grandes oportunidades em bolsa.

É preciso inovar para produzir mais e com custos menores

Mineração São Judas aguarda aprovação de financiamento do BRDE.

Desenvolver novos produtos e serviços ou aprimorar aqueles já existentes é uma necessidade para as empresas, independentemente do setor de atuação ou porte, principalmente neste momento em que as indústrias estão substituindo produtos mais sofisticados e de maior valor por outros mais simples e mais baratos. Para as indústrias que querem investir na inovação de produtos, de processos, de organizações e de marketing, mas não têm recursos suficientes, existem linhas específicas de crédito. No Paraná, o BRDE é agente financeiro credenciado pela FINEP para operar os recursos do Inovacred. Atualmente, o banco é o líder nacional em repasses da FINEP. Só no primeiro semestre deste ano foram contratados R$ 43,1 milhões em financiamentos pelas linhas MPME Inovadora (Micro e Pequena Empresa Inovadora), Inovagro (Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica na Produção Agropecuária) e Inovacred (Finep).

Os valores financiados pelo BRDE através do Inovacred variam de R$ 150 mil a R$ 3 milhões para micro e pequenas empresas e de R$ 150 mil a R$ 10 milhões, para empresas de médio porte, podendo chegar a 90% do valor do projeto, no caso de microempresas, e 80% para pequenas e médias empresas.

O diretor-presidente da Mineração São Judas, Fábio Pires Leal, aguarda para ainda este mês a aprovação de um financiamento do BRDE para abrir uma indústria de beneficiamento de calcitas brancas, matéria-prima utilizada pelas indústrias de papel, cerâmica, moveleira, tinta imobiliária e borracha, no município de Sengés, no Paraná. A nova indústria receberá investimento de R$ 4,5 milhões, sendo que R$ 3,7 milhões serão financiados pelo BRDE.

Segundo Fábio Leal, no Brasil, há somente duas firmas que desenvolvem as calcitas de alta alvura e vendem a todos os fabricantes de papéis e cartões, pelo beneficiamento de minérios de calcário calcíticos puros vindos do exterior (Itália, Grécia ou Tanzânia) ou trazidos de jazidas de calcitas brancas silicosas existentes somente em Cachoeiro de Itapemirim no Estado de Espirito Santo, que sofrem também beneficiamento por flotação.

Assim sendo, o desenvolvimento de inovação nas técnicas de lavra mineral assim como o beneficiamento incluindo a flotação dos filitos com produto químico inovador dos calcários calcíticos da Mineração São Judas, em Sengés, trarão vantagens não somente para o Estado do Paraná que é o maior produtor de cartões do Brasil e grande produtor de papéis brancos, mas também aos Estados de Santa Catarina a Rio Grande do Sul. Estas vantagens se dão pela localização das Minas da São Judas. O presidente da indústria explica que o beneficiamento trará economia de frete rodoviário superior a R$ 200 por tonelada de calcita branca, comparado aos produtos das únicas fabricantes no Brasil. A nova fábrica deverá gerar 30 empregos diretos.

Investidor-Anjo é uma opção rápida e barata

Buscar investimento através de investidor-anjo é também uma das alternativas rápidas e baratas de se conseguir crédito. É uma solução positiva, pois o investidor não vai apenas injetar dinheiro na empresa, mas contribuirá também com conhecimento do mercado.

Entretanto, o industrial deve ter consciência de que haverá uma cobrança e participação nos lucros por parte do investidor-anjo. No momento em que o investidor coloca capital na empresa, já existe uma data pré-estabelecida para saída do mesmo, geralmente acordado em contrato. O período de atuação do investidor-anjo na empresa vai depender da negociação entre empreendedor/investidor, explica Fábio Yamamoto, sócio da Tiex, empresa de consultoria e gestão financeira.

Exportar é a solução para crescer enquanto o mercado interno não reage

Fábrica da Berneck em Araucária. Indústria aumenta o faturamento com o mercado externo.

A indústria paranaense de painéis e madeira serrada Berneck S.A., que é uma das dez maiores exportadoras de madeira do Brasil, encontrou no mercado internacional uma forma de continuar crescendo, enquanto a economia interna continua retraído. Em 2015, 20% da sua produção era destinada ao mercado internacional. Hoje, 38% do faturamento vem das exportações, informa o diretor Industrial de Madeira e de Comércio Internacional, Fernando Gnoato, que não vê qualquer melhora para o setor no Brasil antes de 2019.

Este ano, a Berneck recebeu o Prêmio Valor 1000 pelo melhor desempenho entre as empresas do setor de Construção e Decoração. É a 3ª vez que a companhia, com matriz no município de Araucária, conquista o primeiro lugar na premiação do jornal Valor Econômico, que aponta as empresas com os melhores indicadores em 25 setores da economia, entre as 1.000 maiores empresas do Brasil.

Gnoato destaca que desde 2012, a Berneck vem operando com uma unidade fabril na cidade catarinense de Curitibanos, que recebeu investimento de R$ 1 bilhão, sendo que 85% dos recursos foram provenientes de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES). Toda a produção da fábrica em Santa Catarina é destinada à exportação.

Na opinião do diretor da Berneck, para o crescimento das empresas nacionais faltam linhas de financiamento, além do que a burocracia é muito grande. Segundo o executivo, hoje está mais fácil conseguir recursos no exterior e com taxas bem menores do que as praticadas no mercado interno.

Quando se fala em crescer, Gnoato reconhece que os empresários enquanto não sentirem segurança e confiança dificilmente vão ampliar os seus negócios

Diante de todo esse quadro, o que se pode concluir é que se a dor do crescimento é inevitável, não crescer pode significar sumir do mercado no longo prazo, então minimizar essa dor engloba ter uma visão clara de futuro, fazer escolhas de como será feito o investimento, tomar decisões no tempo certo e ter jogo de cintura para corrigir o planejamento.

Indústria precisa inovar, mesmo em tempos de crise

Inovação é muito mais do que o desenvolvimento de novas tecnologias, produtos e serviços.
Inovação é mais do que o desenvolvimento de novas tecnologias, produtos e serviços.

O setor industrial vem atravessando momentos de dificuldade há três anos consecutivos. No caso específico do Paraná a queda do faturamento industrial desde 2013 chega a 20%. Só no ano passado, as indústrias paranaenses faturaram 8,4% a menos e nos primeiros sete meses de 2016 a perda acumulada ficou próxima de 5%, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

O consolo é que a crise não dura para sempre e as empresas precisam continuar criando produtos e tecnologia para se prepararem para a retomada da economia. Sem isso, correm o risco de perder competitividade e ficar para trás na próxima onda de crescimento. O problema é que com menos dinheiro em caixa, diminuem também os recursos na área de inovação.

O processo de inovação é muito mais que o desenvolvimento de novas tecnologias, produtos e serviços. Envolve a criação de novos modelos de negócios, novas formas de atender necessidades dos consumidores, novos processos organizacionais, novos meios de competir e cooperar no ambiente empresarial. Segundo o gerente executivo do Centro Internacional de Inovação do Sistema Fiep, Filipe Cassapo, a inovação, acima de tudo, é uma ferramenta necessária para promover a competitividade com produtividade e sustentabilidade.

Filipe Cassapo: a inovação é uma ferramenta necessária para promover a competitividade com produtividade e sustentabilidade.
Filipe Cassapo: a inovação é uma ferramenta necessária para promover a competitividade com produtividade e sustentabilidade.

Entretanto, o que se tem verificado em termos de Brasil é que o grau de inovação, principalmente nas indústrias, ainda é muito baixo. E isso pode ser constatado através da comparação de dados entre Brasil e Coreia do Sul, informa Cassapo. De acordo com ele, o primeiro item a ser analisado entre os dois países é a geração de conhecimento, onde ambas as Nações produzem uma ciência de qualidade. Em termos de artigos referenciados internacionalmente nós temos uma diferença de 20% a menos do que os sul coreanos. Porém, quando se comparam os valores do Produto Interno Bruto (PIB) para transformar o conhecimento em negócios há uma grande disparidade. Na Coreia do Sul, 4,3% do PIB são destinados para pesquisas e conhecimentos gerados nas universidades. No Brasil esse porcentual cai para 1,2% ou quase quatro vezes menos.

Outro elemento importante destacado pelo gerente executivo do Centro Internacional de Inovação do Sistema Fiep é o número de mestres. “Inovação não é apenas geração de conhecimento. É preciso transformar o conhecimento em negócios”, alerta Cassapo, informando que na Coreia do Sul, 80% dos pesquisadores estão inseridos na iniciativa privada contra apenas 25% do Brasil.

Uma das dificuldades enfrentadas pelo sistema brasileiro é o número de pesquisadores nas empresas: são poucos e com tendência de redução. O Brasil tem mais de 130 mil pesquisadores, sendo 57% em universidades e 37% em empresas. E o mais lamentável ainda é que a última Pesquisa sobre Inovação Tecnológica (Pintec) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que está havendo uma redução na quantidade de pesquisadores nas empresas.

O número de pesquisadores nas empresas brasileiras vinha aumentando até 2005, quando atingiu 50 mil. Porém, voltou a cair. Hoje são pouco mais de 45 mil pesquisadores em empresas. A Coreia do Sul, com um sétimo da nossa população, tem 166 mil. E os Estados Unidos têm 1,1 milhão. O pequeno dispêndio do Brasil em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) se manifesta concretamente no pequeno número de pesquisadores.

Quando se comparam os números de patentes entre os dois países os dados são ainda mais desanimadores. Em 2012 (últimos números pesquisados), por exemplo, a Coreia do Sul solicitou 14.500 patentes contra apenas 245 do Brasil. “O que era uma diferença de apenas 20% no que se referia à produção de artigos referenciados internacionalmente entre Brasil e Coreia, quando analisamos outros itens verificamos que o nosso País não consegue transformar o conhecimento em produtos inovadores”, lamenta Cassapo.

Paraná tem 442 empresas inovadoras

A última Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que 442 empresas do Paraná praticam o processo de inovação continuada. Segundo Filipe Cassapo, esse número deve crescer ainda mais nos próximos anos, tendo em vista que a economia paranaense está cada vez mais industrializada.

Na opinião de Cassapo, a inovação é a capacidade de transformar o conhecimento em empreendimentos inovadores e não precisa ser radical. “Inovar também não é só pesquisa. Para inovar é preciso ser criativo e, acima de tudo, converter a ideia em resultado de negócios”, observa.

A XX Sondagem Industrial realizada pelo Departamento Econômico da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) referente aos anos de 2015 e 2016 revela que quase 40% das empresas paranaenses têm pesquisa e desenvolvimento próprios. Por outro lado, 9,86% recorrem a universidades em busca de conhecimentos, de parcerias, de novas tecnologias ou inovações; 13,15% absorvem tecnologia do Brasil e 13,70% o fazem do exterior. Por sua vez, 24,11% das nossas indústrias ainda não possuem uma política tecnológica formada.

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A pesquisa também mostrou que 77,14% das empresas paranaenses atribuem a responsabilidade pela gestão da inovação ou de novos produtos formalmente a uma pessoa ou grupo de pessoas.

Quanto à estrutura organizacional para apoiar a política de inovação, 34,9% das empresas paranaenses atribuem a uma diretoria/gerência específica os assuntos de tecnologia e inovação; 17,11% o fazem por diversos setores da empresa e 12,75% têm uma coordenação de projetos de tecnologia e inovação.

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Para as indústrias paranaenses, o planejamento estratégico tecnológico, a gestão da propriedade intelectual/industrial, a prospecção tecnológica/monitoramento, a gestão de projetos P&D e gestão de normas e regulamentos técnicos são “bem” dominados e executados nos processos de gestão da inovação.

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Quando o assunto é estágio tecnológico das indústrias paranaenses em relação ao nível nacional, a XX Sondagem Industrial da Fiep mostrou que 21,65% se consideram adiantadas; 58,42%, em dia; 12,71%, defasadas; e 7,22% desconhecem. Isto mostra que o Paraná conta com 71,13% de empresas atualizadas (adiantadas e em dia) tecnologicamente ao nível nacional. Em termos internacionais, 42,05% das indústrias do Estado se consideram defasadas tecnologicamente; 32,86% estão em dia e 4,59% adiantadas.

A aprovação de uma patente demora 11 anos

O gerente executivo do Centro Internacional de Inovação do Sistema Fiep aponta dois grandes obstáculos enfrentados pelas empresas inovadoras. O primeiro deles é a burocratização. “No Brasil tudo é muito demorado. Para que uma empresa tenha uma patente concedida são necessários 11 anos. Então o que vale uma ideia que demora 11 anos para ser aprovada?”, questiona Cassapo, que aponta a burocracia como a maior inimiga da inovação.

O segundo grande obstáculo à inovação é a falta de recursos financeiros. Os incentivos de apoio direto se materializam por meio de instrumentos de financiamento aos projetos de inovação disponibilizados através das agências e bancos de fomento, como a Finep, o BNDES, as fundações estaduais de pesquisa, dentre outras. Nessa modalidade de incentivo, há ainda a subvenção econômica, que consiste na aplicação de recursos públicos não reembolsáveis (que não precisam ser devolvidos) diretamente em empresas, para compartilhar com elas os custos e riscos do projeto.

Em março de 2013, o Governo Federal lançou o programa “Inova Empresa”, prevendo investimentos de cerca de R$ 33 bilhões para inovação na indústria brasileira. No entanto, mesmo com o aumento nos últimos anos, por parte do governo brasileiro, do dinheiro disponível para a inovação, o País vem perdendo posições em rankings de competitividade internacional. Outro dado que mostra que o conjunto do sistema de incentivos à inovação tem sido, até o presente momento, pouco eficaz em alterar de maneira radical o quadro da inovação nas empresas brasileiras são os resultados obtidos nas últimas pesquisas de inovação tecnológica realizadas pelo IBGE.

Atualmente, o principal instrumento utilizado pelas empresas inovadoras do setor industrial é o financiamento para compra de máquinas e equipamentos, sendo que dentre os menos utilizados está o instrumento de subvenção econômica e o financiamento a projetos de PD&I e inovação tecnológica em parceria com universidades ou institutos de pesquisa. Já a Fundação Dom Cabral em parceria com a Inventta Consultoria realizou levantamento junto às empresas brasileiras para avaliar a visão delas sobre as políticas públicas de apoio financeiro à inovação e também avaliar a efetividade dos mecanismos de fomento à inovação.

A pesquisa mostrou a falta de recursos financeiros e a mensuração dos ganhos do processo como dificuldades do processo de inovação. Além disto, a cultura da empresa e a falta de processos estruturados foram apresentadas como complicadores da inovação quanto a sua utilização, desafios e perspectivas. Pelos resultados, a maioria das empresas fez uso de fontes de fomento nos últimos três anos (51%). Além disto, 38% das empresas nunca utilizaram o benefício, mas têm a intenção de utilizá-lo nos próximos anos. Dentre os que utilizam as linhas de fomento, a maioria pretende continuar usando esse mecanismo.

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O que é preciso para que uma inovação dê certo?

Para o professor da Fundação Getúlio Vargas, Moysés Simantob, para que uma inovação possa ser bem sucedida é necessário conhecimento, mercado, aceitação e sorte. Já na opinião do economista da gerência de Economia, Fomento e Desenvolvimento da Fiep, Roberto Zurcher, a inovação é uma das saídas para enfrentar a crise. “A crise econômica é um momento para as empresas repensarem seus produtos. As que forem mais criativas, certamente, sairão na frente”, destaca.

Roberto Zurcher: A crise é um momento para as empresas repensarem seus produtos.
Roberto Zurcher: A crise é um momento para as empresas repensarem seus produtos.

Como exemplo, Zurcher cita o celular Quantum Fly, lançado pela unidade de negócio da paranaense Positivo Informática, que esgotou em menos de 24 horas. Objetivando atender um público de maior poder aquisitivo, o aparelho foi mais um passo dado pela empresa para a consolidação da marca no concorrido mercado de celulares. A empresa posicionou o produto como top de linha, com condições de oferecer o mesmo desempenho dos aparelhos de marcas renomadas como Apple e Samsung, mas com preço 50% inferior. Em um ano, a Positivo saltou de 2,3% de market share para 6,1%.

Segundo o estrategista de Marcas e Inovação, Hélio Moreira, o desafio de evoluir é fundamental, e não há como fugir dele. Ele chama a atenção para a quebra de alguns paradigmas. O primeiro deles é que a maioria das empresas fica olhando apenas para seus concorrentes como fonte de competição e muitas vezes como inspiração, sendo que essa quebra de paradigma virá de fora do seu setor. “O Skype e o WhatsApp não nasceram de dentro da indústria de telecomunicações. O Airbnb não surgiu de nenhuma rede hoteleira. Bitcoin não nasceu na indústria financeira. Uber não saiu dos taxistas. Amazon não nasceu no varejo. Ser uma empresa ágil, com a chegada da transformação digital tornou-se ainda mais importante para sobrevivência. Não é uma opção”, alerta. Para Moreira, as inovações que vimos na última década são apenas um aquecimento para o que veremos nos próximos vinte anos. Ou seja, ainda não vimos nada.

Senai no Paraná é parceiro para inovação

Laboratório de pesquisa do Senai em Curitiba. Foto - Gelson Bampi
Laboratório de pesquisa do Senai em Curitiba. Foto – Gelson Bampi

Nos últimos anos, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) tem se posicionado como principal ofertante de tecnologia aplicada à indústria brasileira. O domínio técnico dos processos produtivos, o conhecimento científico de ponta e a infraestrutura laboratorial mais moderna e mais ampla do país confere ao Senai a condição de atuar com rapidez e objetividade em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. No Paraná, o Senai, que está presente no Estado há 70 anos, oferece consultorias para que as empresas estruturem seus planos de inovação, desde metodologias de captura de ideias até a gestão da carteira de projetos e captação de fundos.

Há quatro anos, o Senai vem investindo na constituição de sete Institutos de Tecnologia nas áreas de Alimentos e Bebidas, Meio Ambiente e Química, Construção Civil, Papel e Celulose, Tecnologia da Informação e Comunicação, Madeira e Mobiliário, Metalmecânica e um Instituto de Inovação na área de Eletroquímica. Foram cerca de R$ 150 milhões de investimentos em infraestrutura laboratorial e profissionais de pesquisa à disposição das indústrias paranaenses e do Brasil. Somente no ano passado, a entidade executou cerca de 60 projetos de inovação com empresas de todos os portes, diversos setores industriais e em todas as regiões do Estado.

Bússola da Inovação dá o rumo certo para as indústrias paranaenses

bussola-da-inovacaoO Paraná foi o primeiro estado brasileiro a contar com o programa Bússola da Inovação, que objetiva incentivar o processo de inovação na indústria. Através desse programa o empresário responde um questionário online e recebe um diagnóstico de como está o processo de inovação dentro do seu negócio. Depois, os resultados são compilados em uma pesquisa que revela o Índice Paranaense de Inovação (IPrI). Podem participar indústrias de qualquer porte e segmento do estado. Todos os dados são sigilosos, sendo apenas compilados em uma pesquisa que revela o Índice Paranaense de Inovação (IPrI), da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).

Duas edições já foram realizadas e a terceira está com inscrições abertas. A segunda mostrou que houve uma queda de 13% no índice de inovação no estado, com nota final 5, quando o ideal é anota 7. Os principais desafios identificados pela pesquisa foram: aquisição de conhecimento externo; captação e exploração de incentivos e recursos; e formalização e qualificação de equipes de pesquisa e desenvolvimento (P&D).

Segundo o gerente executivo do Centro Internacional de Inovação, Filipe Cassapo, o Sistema Fiep está aí para ajudar as empresas a serem mais competitivas. Para traçar um retrato real da inovação, a pesquisa Bússola da Inovação, que é realizada a cada dois anos, precisa contar com o maior número possível de respostas. Assim, a participação de cada indústria é fundamental para mostrar as necessidades de cada setor e região. Com base nessas informações, podem ser idealizadas e planejadas ações específicas para facilitar o processo de inovação nas indústrias.

O sucesso da Bússola é tanto que já rompeu as fronteiras do Estado. De acordo com informações do coordenador do projeto, Augusto César Machado, o programa foi levado também para a Federação das Indústrias do Ceará. Embora seja um programa de médio e longo prazo, o seu objetivo é ambicioso: plantar uma semente da inovação e melhoria do desenvolvimento e assim mudar a cultura empreendedora.

As inscrições para a edição 2016 são gratuitas e vão até outubro pelo site do programa (www.bussoladainovacao.org.br). Após fazer o cadastro, o empresário responde um questionário com questões sobre procedimentos da sua empresa. É importante que as empresas respondam o questionário até o fim para que recebam o diagnóstico. Até agora mais de 2 mil empresas já participaram da Bússola da Inovação.

Com a Indústria 4.0 entramos na quarta revolução industrial

Óculos de realidade aumentada com tecnologia da Goepik.
Óculos de realidade aumentada com tecnologia da Goepik.

Estamos em plena era da quarta revolução industrial, que está sendo chamada de Indústria 4.0. Essa fase promete uma produção mais inteligente, em que todos os processos de decisão das fábricas serão tomados pelas próprias máquinas, com base em informações fornecidas de dentro do sistema de manufatura em tempo real.

Para o gerente executivo do Centro Internacional de Inovação do Sistema Fiep, Filipe Cassapo, a Indústria 4.0 pode ser definida como um conjunto de inovações. “No mundo inteiro as indústrias estão aderindo à quarta revolução industrial e o Brasil deve se preparar para não perder tempo. Aliás, algumas startups, inclusive do Paraná, já oferecem tecnologia 4.0. Quem não conseguir acompanhar, vai ficar para trás e perder a capacidade de produzir com custos e prazos otimizados, é uma questão de sobrevivência. Na Alemanha, essa indústria já é uma política de estado, entrar nessa indústria é um salto importante para o futuro”, adianta.

A Indústria 4.0, explica Cassapo, é a utilização de novas tecnologias de integração entre o virtual e o físico, para aumentar a produtividade e competitividade das indústrias de todos os tipos. Ele faz referência às três revoluções industriais anteriores, lembrando que a primeira trouxe a automação por meio de energia a vapor, a segunda, a energia elétrica, no começo do século 20. Mais recentemente, nos anos 1980, foi a robotização. E agora, com a emergência da nuvem, estamos à frente de um novo salto.

Avanços em sistemas como o Big Data, que é, basicamente, um grande conjunto de dados armazenados, é outra ferramenta que será ainda mais disseminada em um futuro próximo. “Com a capacidade da nuvem cada vez mais gigantesca, será possível armazenar cada vez mais rápido e de forma inteligente, com um banco de dados que gere análises sobre o produto e ajude a otimizar o processo produtivo”, explica. A descoberta de padrões e tendências, chamado de machine learning, permite a detecção de repetições de venda, por exemplo. “Vai ter um aproveitamento melhor dos dados e uma inteligência maior na hora de tomar decisões, o que aumenta a competitividade, pois é possível realizar um atendimento mais personalizado ao cliente, e customizar o produto”, salienta Cassapo.

A indústria da manufatura virtual – por meio da “internet das Coisas” – que se refere a essa revolução tecnológica que tem como objetivo conectar os itens usados do dia a dia à rede mundial de computadores – traz o conceito de que a fábrica seja 100% conectada. “Na fábrica, as máquinas poderão trocar informações, da mesma forma que ocorre a comunicação entre fornecedor e cliente”, frisa o gerente da Fiep.

A curitibana Goepik, criada há quatro meses, é uma spinoff da startup Eruga, e trabalha com digitalização de processos, utilizando como tecnologia a realidade aumentada e virtual, fornecendo informações em tempo real. Segundo explica o CEO da Goepik, Wellington Moscon, que criou e desenvolveu sozinho o software utilizado nos óculos de realidade aumentada, depois da Renault, outras grandes empresas já se mostraram interesse nessa tecnologia.

De acordo com Moscon, processos críticos, como paradas de produção, precisam de rápida atuação para minimizar as perdas na indústria. Através da tecnologia criada pela Goepik, utilizando plataforma de streaming e realidade aumentada um especialista atuando de forma remota pode orientar visualmente o operador no processo de manutenção do equipamento. Ou seja, o operador utiliza um smartphone e um óculos de realidade aumentada e através da câmara de dispositivo irá permitir que o especialista remoto tenha acesso ao seu campo de visão e insira elementos em realidade aumentada. Desta forma as perdas na produção são minimizadas, são eliminados os custos de deslocamentos (muitas vezes de um país para outro) e o processo de aprendizagem é acelerado.

Wellington Moscon, CEO da curitibana Goepik.
Wellington Moscon, CEO da curitibana Goepik.

Em parceria com o Senai, a Goepik está desenvolvendo um treinamento imersivo em grandes máquinas com foco em NR12, permitindo dessa forma que procedimentos e acidentes de trabalho sejam simulados de maneira fiel ao ambiente industrial, eliminando riscos de acidentes no processo de treinamento, diminuindo custos com materiais e deslocamentos dos alunos.

Resultados de pesquisa preocupam

A quarta revolução industrial já está aí e veio para ficar. O preocupante são resultados de uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) no primeiro semestre do ano com mais de duas mil empresas sobre adoção de tecnologias digitais relacionadas à era da manufatura avançada, a chamada indústria 4.0. A nova lógica de produção se refere à integração digital das diferentes etapas da cadeia de valor dos produtos industriais, desde o desenvolvimento até o uso, e envolve a criação de novos modelos de negócio, produtos e serviços a eles atrelados.

Atualmente, a digitalização é considerada o primeiro passo para a indústria entrar no novo patamar tecnológico. Em alguns países onde esse processo está mais avançado, já houve aumento da produtividade e redução de custos de manutenção de equipamentos e do consumo de energia, além do aumento da eficiência do trabalho. Entretanto, a pesquisa da CNI mostra, entre outras coisas, que a indústria brasileira ainda está se familiarizando com a digitalização e com os impactos que pode ter sobre a competitividade. O desconhecimento é significativamente maior entre as pequenas empresas (57%). Na avaliação da CNI, é preciso aproximar especialistas e indústria para ampliar o conhecimento sobre os ganhos que o país pode ter com a mudança de patamar da indústria.

Pouco menos da metade das empresas industriais utiliza pelo menos uma das dez tecnologias digitais listadas na pesquisa, como automação digital sem sensores; prototipagem rápida ou impressão 3D; utilização de serviços em nuvem associados ao produto ou incorporação de serviços digitais nos produtos. Para 66% das empresas, o custo de implantação é a principal barreira interna à adoção de tecnologias digitais.

A difícil busca pela competitividade

Os baixos índices de competitividade de alguns setores industriais preocupam. Foto/ Divulgação.
Os baixos índices de competitividade de alguns setores industriais preocupam. Foto/ Divulgação.

Produto Interno Bruto (PIB) negativo, dinheiro caro, inflação ascendente, crise energética, infraestrutura precária, instabilidade política e corrupção. Este é o cenário com que os industriais paranaenses se defrontam. Diante desse contexto, como ser competitivo e garantir a sobrevivência dos negócios?

A competitividade é um dos itens mais perseguidos atualmente pelas empresas. Por que uma empresa é mais competitiva que outra? Quais são os fatores que determinam a competitividade da empresa? Questões como essas estão permanentemente na cabeça dos empresários e principais executivos das empresas e também fazem parte das inquietações de muitos estudiosos da competitividade.

A própria Confederação Nacional da Indústria (CNI) tem se mostrado muito preocupada com os baixos índices de competitividade do País e das nossas empresas, e com toda razão. Estudo realizado pela CNI aponta que o Brasil está em penúltimo lugar em um ranking de competitividade que inclui 15 países. A posição do país no ranking, referente a 2014, é a mesma apresentada nos dois anos anteriores. A economia brasileira ficou somente à frente da Argentina no ano passado. O estudo começou a ser realizado pela CNI em 2010.

Desde 2012, o Brasil vem ocupando a penúltima colocação no ranking sobre competitividade. Além do Brasil e da Argentina, o levantamento também considerou os seguintes países: Colômbia, México, Polônia, Turquia, Índia, Rússia, África do Sul, Chile, China, Espanha, Austrália, Coreia do Sul e Canadá. De acordo com a entidade, essas nações são as “principais concorrentes” do Brasil.

Para fazer o ranking de competitividade, a CNI analisou oito fatores: disponibilidade e custo da mão de obra, disponibilidade e custo do capital, infraestrutura e logística, peso dos impostos, ambiente macro e microeconômico, educação, tecnologia e inovação.

A melhor posição do Brasil entre os oito fatores foi obtida em disponibilidade e custo de mão de obra (quarta posição entre 14 países). A pior posição foi em disponibilidade e custo de capital (15ª). O resultado em disponibilidade e custo de mão de obra deve-se, sobretudo, ao melhor posicionamento do Brasil na variável participação da População Economicamente Ativa (PEA) na população (2ª) e o pior desempenho em disponibilidade e custo de capital deve-se ao fato de o país possuir a mais alta taxa de juros real de curto prazo e o maior spread da taxa de juros. Deve-se ressaltar que o Brasil teria obtido uma posição superior em disponibilidade e custo de mão de obra, não fosse a baixa produtividade do trabalho na indústria. O Brasil ocupa a 12ª posição em 14 competidores nessa variável.

Indústria do Paraná ganha participação, passa o Rio Grande do Sul e é a quarta maior do Brasil

GRAFICO 1 VTI

A indústria do Paraná não fica fora do quadro nacional, mas tem lutado para obter maior participação relativa na geração da renda industrial e ganhar mais competitividade. De acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB industrial do Paraná é o quarto maior do Brasil, ficando atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, tendo ultrapassado o Rio Grande do Sul em 2008.

Em 1996, a participação do Paraná no PIB industrial brasileiro era de apenas 5,2%. Em 2008, passou para 7,3%, recuou para 6,9% em 2010. Em 2011 retomou ao patamar de 7,3%, voltando a cair para 7% em 2012 e recuperou o porcentual de 7,3% em 2013. As informações referentes ao PIB industrial de 2014, somente serão conhecidas no final deste ano, mas na avaliação dos economistas Gilmar Mendes Lourenço e Maurílio Schmitt, mesmo com a retração econômica nos dois últimos anos, a indústria do Paraná continuará firme na quarta colocação.

Entretanto, segundo o coordenador do Departamento Econômico da Fiep, Maurílio Schmitt, considerando-se apenas o PIB da indústria de transformação (ou seja, excluindo a indústria extrativa), o Paraná passa a ocupar a terceira posição, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. É que o Rio de Janeiro, por exemplo, possui uma grande indústria extrativa de petróleo, explica Schmitt.

O PIB industrial de São Paulo dificilmente perderá a liderança entre os estados brasileiros, mas a sua participação vem diminuindo ano a ano. Em 1996, a indústria de São Paulo respondia por 49,4% do PIB industrial do País. Em 2013, o porcentual caiu para 34,3%, mas muito acima do segundo colocado que é Minas Gerais com 11,7% e do terceiro lugar que é do Rio de Janeiro com 10,5%.

Já um estudo preparado pela empresa de consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU), com a cooperação do Centro de Liderança Pública (CLP), entidade brasileira, apurou que o Paraná suplantou o Rio Grande do Sul e Minas Gerais em clima de negócios e capacidade de atração de investimentos, entre 2011 e 2013, passando da quinta para a terceira posição no ranking nacional, ficando atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A mais recente pesquisa, efetuada entre abril de 2013 e abril de 2014, consistiu em uma avaliação geral de cada unidade federativa do País, a partir da combinação de itens ligados à competitividade, com ênfase para os cenários político e econômico, às condições de infraestrutura e de regulação, o estoque e fluxo de recursos humanos, além de indicadores de criminalidade, inovação e sustentabilidade.

De acordo com o trabalho, o Paraná exibiu avanços nas vendas internacionais do agronegócio, na renda per capita, nos dispêndios realizados pelo setor privado com pesquisa e desenvolvimento e nos estímulos fiscais direcionados a políticas ambientais.

O economista Gilmar Mendes Lourenço, que há mais de 30 anos é um estudioso da economia do Paraná, atribui essa ascensão paranaense ao fato de o Estado contar com uma indústria mais nova e consequência de uma carteira de mais de R$ 35 bilhões em projetos de investimentos industriais privados, nacionais e multinacionais, atraídos pelo Programa Paraná Competitivo, entre fevereiro de 2011 e julho de 2014. “Trata-se do maior portfólio do País, quando cotejada a amplitude econômica do Paraná com a dos outros espaços subnacionais”, afirma Lourenço.

Mas, sem dúvida alguma, o que tem contribuído para os vetores expansivos do novo ciclo, segundo Lourenço, foram a recuperação da renda do agronegócio, movida pelas cotações internacionais das commodities primárias, a crescente ascensão da produção e produtividade setorial e a atuação das cooperativas.

Cooperativas têm grande peso na industrialização paranaense

Para se manterem competitivas, as cooperativas do Paraná investirão mais de R$ 2 bilhões.
Para se manterem competitivas, as cooperativas do Paraná investirão mais de R$ 2 bilhões.

O faturamento do cooperativismo paranaense dobrou de 2010 para 2014, passando de R$ 25 bilhões para R$ 50,5 bilhões, de acordo com a Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). Só o faturamento das cooperativas agropecuárias chegou a R$ 42 bilhões. Para se ter uma ideia, a receita bruta obtida pelas cooperativas paranaenses supera o orçamento individual de 23 estados, incluindo o do Paraná. Para este ano, a expectativa da Ocepar é que, mesmo com a crise, o faturamento das cooperativas cresça 10% em relação a 2014. No primeiro semestre de 2015, as  cooperativas paranaenses faturaram R$ 28,1 bilhões, ou 9,4% acima do verificado no mesmo período do ano passado, informa o analista da Gerência Técnica e Econômica do Sistema Ocepar, Robson Mafioletti.

O Paraná tem, hoje, 223 cooperativas, sendo 74 rurais. Só as cooperativas agrícolas recebem 56% de toda a produção agrícola paranaense e têm somado valores importantes para a economia do estado.  Mafioletti destaca que a agroindústria é responsável por nada menos do que 50% do faturamento das cooperativas. Já as exportações das cooperativas paranaenses, que atingiram US$ 2,4 bilhões, em 2014, representaram 25% do total das vendas internacionais do agronegócio paranaense.

Para se manterem competitivas as cooperativas têm investido em armazenagem, industrialização de produtos, qualificação de trabalhadores e ampliação ou instalação de novas unidades. De acordo com a Ocepar, em 2014 as cooperativas do Paraná investiram R$ 2,8 bilhões. Já para este ano, em função da instabilidade econômica, crédito caro e em menor volume, o investimento das cooperativas deve cair para algo em torno de R$ 2,350 bilhões.

Produtividade é fundamental para indústria se tornar mais competitiva

O crescimento da produtividade é fundamental para o aumento da competitividade, pois reduz o custo de produção por unidade fabricada. O aumento da produtividade ocorre principalmente por meio dos investimentos em capacidade produtiva e inovação. A utilização de máquinas e equipamentos mais modernos e técnicas gerenciais eficazes fizeram com que a produtividade em alguns setores da indústria paranaense seja ostentada com  mais destaque.

Informações da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), com base na Pesquisa Industrial Anual (PIA) dão conta que o crescimento da produtividade dos trabalhadores da indústria de transformação aumentou 9,7% no período de 2007 a 2012 (últimos dados divulgados), contra uma média nacional de 9,48%. Isso significa, em termos financeiros, que cada trabalhador da indústria de transformação do Paraná gerou um faturamento de R$ 11.099 em 2012.

GRAFICO 2 IND TRANSFORMACAO
O porcentual do Paraná é bem maior em setores como a indústria de carnes, onde o crescimento da produtividade dos trabalhadores foi de 54,35% entre 2007 e 2012, muito acima do aumento da média nacional que ficou em 9,16% para este segmento.

GRAFICO 3 IND CARNES
O Paraná ocupa  o segundo lugar em crescimento de produtividade entre os trabalhadores da indústria de móveis, com um aumento de 38,97% ante o crescimento de 40,96% do Rio Grande do Sul, 10,94% de Santa Catarina e 9,36% de São Paulo, que são os seus maiores concorrentes.

Na indústria de veículos, o crescimento da produtividade dos trabalhadores paranaenses  (51,11%) só fica atrás da do Rio de Janeiro (71,19%). Segundo pesquisa da Fiep, baseada na PIA, cada trabalhador da indústria de veículos do Paraná foi responsável pela geração de um faturamento de R$ 74.807, em 2012 (últimos dados levantados).

GRAFICO 5 IND VEICULOS
A agregação de valor é possível com conhecimento e tecnologia; por este motivo os industriais paranaenses despendem e investem fortemente na formação dos trabalhadores. O Senai, órgão especializado em formação de trabalhadores para a indústria, teve mais de 400 mil matrículas em 2014, evidenciando a importância da educação técnica que o Paraná realiza. “Os frutos dessa iniciativa são contabilizados na construção e no incremento dos indicadores de produtividade”, justifica o economista Maurílio Schmitt.

GRAFICO 4 CONFECÇÃO
Como a indústria pode ser mais competitiva

alta-A competitividade refere-se à habilidade de a empresa concorrer no mercado, ou seja, à sua capacidade de igualar ou superar seus concorrentes na preferência dos consumidores. Segundo explica o chefe do Departamento Econômico da Fiep, Maurílio Schmitt, as empresas dispõem basicamente de dois mecanismos para conquistar essa preferência: preço e diferenciação de seu produto por meio de qualidade, inovação ou propaganda.

Para o gerente de Negócios Competitivos do Sebrae/PR, Agnaldo Gerson Castanharo, uma empresa para ser competitiva precisa adotar um conjunto de estratégias que facilitem a concorrência com outras empresas e que permitam que ampliem ou mantenham seu posicionamento por um tempo desejado no mercado em que atuam. “Uma indústria não pode ser competitiva somente com uma estratégia.

Perceber que somente ter um modelo baseado na excelência da gestão pode tornar a empresa competitiva por um intervalo de tempo que não seja duradouro, ainda mais se o olhar da gestão for somente interno, sem observar o mercado e as tendências tecnológicas”, explica Castanharo. E acrescenta que “assim como inovar e fidelizar os clientes com novos produtos,  sem levar em consideração os resultados desta inovação tanto em termos de resultados financeiros para a empresa, como em participação no mercado, também não podem garantir que a empresa se mantenha competitiva por algum tempo. A inovação e o posicionamento da empresa perante o mercado são fundamentais”.

Empresas que conseguem ajustar as estratégias do modelo de excelência em gestão, inovação e posicionamento do mercado tendem a se tornar empresas duradouras, ou empresas feitas para vencer, afirma o gerente de Negócios Competitivos do Sebrae/PR. Segundo ele, nos últimos anos, só o Sebrae investiu mais de R$ 30 milhões em ações de melhoria de processos de supressão de desperdícios e inovação. “Foram milhares de empresas atendidas, mostrando que elas não estão acomodadas”, ressalta.

Para Castanharo, as pequenas indústrias podem ser competitivas. Na sua avaliação, a indústria, mesmo que pequena, se conseguir além de produzir um bom produto contar com a engenharia reversa vai agregar mais valor e melhorar a sua competitividade. Ele explica que a cada ano mais empresas entram no mercado, acirrando a concorrência. Portanto, se não investirem em inovação, dificilmente conseguirão competir no mercado.

Sistema tributário impacta na competitividade

Gilson Rasador: A indústria brasileira é castigada pelo atual sistema tributário.
Gilson Rasador: A indústria brasileira é castigada pelo atual sistema tributário.

Quando se discute sobre as limitações à competitividade da nossa indústria, o Custo Brasil é o culpado preferido. Mas, também outros fatores têm impactado negativamente a competitividade dos nossos produtos. Entre eles estão o alto custo de produção, atrelado aos encargos tributários, que oneram os bens de produção (máquinas, equipamentos, insumos e mão de obra). Na avaliação de Gilson Rasador, superintendente da Pactum, o sistema tributário vigente castiga pesadamente a nossa indústria, na medida em que importante parcela dos recursos financeiros, próprios ou de terceiros, destinam-se ao pagamento de um número assustador de impostos, contribuições e taxas.

Muitos impostos e contribuições pagos sobre os insumos adquiridos para produzir acabam sendo repassados aos adquirentes, como integrantes do preço ou ressarcíveis pelas Fazendas Federal e Estadual. Porém, nem tudo o que a lei determina acontece na prática, especialmente quando se trata de restituição ou ressarcimento de tributos pagos. Segundo Rasador, um exemplo é a dificuldade que os empresários enfrentam para obter ressarcimento de créditos de IPI, de PIS e de Cofins cobrados sobre os insumos empregados na fabricação de produtos destinados ao exterior. Esta situação é ainda mais grave nas indústrias exportadoras para obtenção de autorização do Fisco Estadual para transferência a terceiros de créditos acumulados de ICMS.

O que se constata hoje é que uma boa parcela do capital de giro das indústrias exportadoras está convertida em créditos fiscais. De acordo com o superintendente da Pactum , de um lado, as indústrias enfrentam o custo exorbitante do capital de giro e, de outro, os créditos mantidos pela União e Estados quedam-se sem atualização e também não são acrescidos de juros.

Maurílio Schmitt: A alta carga tributária tira competitividade da indústria.
Maurílio Schmitt: A alta carga tributária tira competitividade da indústria.

Rasador alerta que a manutenção e o crescimento no mercado dependem, cada vez mais, da capacidade de competir com indústrias instaladas em qualquer parte do mundo. Para isso, a inovação e a melhor gestão das questões tributárias merecem especial destaque.

O coordenador do Departamento Econômico da Fiep, Maurílio Schmitt, explica que os estados já desenvolveram a habilidade de cobrar o ICMS nas fontes produtoras ou distribuidoras de atacado para uma infindável lista de mercadorias. O regime de substituição tributária está aí consolidado para extrair, já na etapa de indústria, todo o ICMS, PIS e a Cofins, inclusive sobre as margens estimadas de agregação de valor nas fases subsequentes até o consumo. Portanto, não existe motivo algum para deixar de dar causa e efeito à desoneração tributária integrada, desde a origem de suprimento dos insumos até a efetiva exportação dos bens finais.

Segundo Schmitt, ou se implementa e se reconhece de vez o conteúdo e alcance do dispositivo da Lei Kandir ou então o Brasil voltará à condição de País exportador de produtos básicos e de renda e trabalho para aqueles que os utilizam na obtenção de bens finais de consumo. Reter tributos nos ativos das empresas exportadoras para equilibrar as finanças públicas decididamente não é iniciativa saudável para o conjunto da economia brasileira, destaca o coordenador econômico da Fiep.

Intervenção do governo diminui competitividade

Leonardo de Assis: A baixa qualificação influencia na produtividade.
Leonardo de Assis: a baixa qualificação influencia na produtividade.

Na opinião do economista e gerente de consultoria e customer success da Cortex Intelligence, Leonardo de Assis, quanto maior é a intervenção do governo, menor é a competitividade das empresas. Segundo ele, setores muito protegidos no País não conseguem desenvolver competitividade.

Como exemplo de sucesso e superação, Assis cita o setor do agronegócio, que nos últimos anos desenvolveu uma capacidade muito grande de competitividade. “Se analisarmos o top dos 20 maiores exportadores brasileiros, poderemos constatar que a maioria é composta de empresas do agronegócio”.

Ainda na avaliação de Leonardo de Assis, que também é professor de Custos Logísticos do IBMEC/RJ e de Inteligência de Mercado aplicada a Compras da Procurement Business School São Paulo, quanto mais conhecimento existe numa nação, mais diversificada é a sua indústria. “O que vemos hoje é um governo intervencionista. Não somos abertos o suficiente para o capital estrangeiro”, destaca.

O economista e professor aponta também como grandes empecilhos à competitividade da nossa indústria, a baixa qualificação profissional, a alta carga tributária e o custo elevado da infraestrutura.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Andrade, ao comentar sobre o encolhimento da participação da indústria brasileira de transformação em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) que neste ano deve cair para 9%, contra 10,9% em 2014, criticou o Governo Federal por não ter feito as reformas tributária e trabalhista, que poderiam dar mais competitividade à indústria, que é um dos setores mais expostos à competição externa.

Infografia – Emanuele Caroline de Oliveira – Crédito das fotos – Fiep e Divulgação

Indústria do Paraná muda perfil, ganha competitividade e cresce acima da média brasileira

O setor industrial do Paraná responde por quase 30% do PIB do Estado.
O setor industrial do Paraná responde por quase 30% do PIB do Estado.

Nos dois últimos séculos o mundo passou por alterações profundas. No que se refere à industrialização, esse processo veio em etapas. Inicialmente, a preocupação da indústria era de se expandir horizontalmente, com o aumento cada vez maior de empresas. Hoje, esse processo ocorre de forma vertical, com a busca incessante do aperfeiçoamento e do incremento tecnológico.

E foi assim que aconteceu com a indústria do Paraná.  Ao longo dos dois últimos séculos passou por grandes mudanças, mas também sofreu com as várias crises econômicas, hiperinflação, globalização, além dos diversos planos econômicos adotados pelos governos entre os anos de 1980 e 1990. A alternativa foi uma progressiva modernização e diversificação do seu parque industrial.

De um estado essencialmente agrícola e exportador de energia barata, a mudança de perfil possibilitou que o Paraná se destacasse no cenário nacional. Nos últimos 11 anos (2002-2013), enquanto a produção industrial brasileira cresceu 26,63% o desempenho da indústria paranaense foi excepcional. Puxada pelo setor automotivo e pela agroindústria, a produção estadual cresceu 59,47%  e ocupou a primeira posição no ranking calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seguida do Espírito Santo (35,12%) e Minas Gerais (31,77%), segundo e terceiro colocados.

gráfico - crescimento produção industrialCodapar dá o pontapé inicial

A mudança do perfil industrial do Estado começou em 1962 com a criação da Companhia de Desenvolvimento do Paraná (Codepar), mais tarde transformada no Badep.  A fonte primária dos recursos de fomento era uma parcela do Imposto de Vendas e Consignações (IVC) que os contribuintes paranaenses destinavam ao Fundo de Desenvolvimento Econômico, gerido pelo Badep. Fortes investimentos em infraestrutura colocaram o Paraná como alternativa importante de localização de empreendimentos industriais.  A implantação da Cidade Industrial de Curitiba (CIC) na década de 70  foi outro marco importante da industrialização paranaense.

De 2010 a 2019 o investimento da Renault na fábrica de São José dos Pinhais chegará a R$ 2 bilhões.
De 2010 a 2019 o investimento da Renault na fábrica de São José dos Pinhais chegará a R$ 2 bilhões.

Entretanto, a mudança mais profunda na economia do Paraná aconteceu no final da década de 90,  com a chegada das montadoras de veículos Renault e Volkswagen, que se somaram a Volvo, presente no Paraná desde a década de 70 e a New Holland. A Chrysler veio junto com a Renault e Volkswagen, mas teve uma passagem muito rápida. Em 2001, a unidade localizada em Campo Largo, que recebeu investimento de US$ 315 milhões, foi desativada como parte do processo de reestruturação internacional da empresa.

Junto com as montadoras vieram as fornecedoras de autopeças e perto de 300 indústrias de vários segmentos, isso apenas nos oito anos do governo Jaime Lerner. O Plano Real mostrava resultados positivos, a inflação estava controlada e para ajudar, houve a retomada de investimentos diretos externos em busca de oportunidades em economias emergentes.

O ambiente favorável inseriu o Paraná no mapa de grandes integradoras  de computadores (informática, telecomunicações, eletrônica industrial e comercial) . As indústrias que se instalaram no Estado formaram um ecossistema produtivo, começando pelos fabricantes do produto final, sendo completado por fabricantes de insumos. Isto pode ser exemplificado pela produção de gabinetes para computador, onde o Paraná é hoje líder; pela composição de placas-mãe, que é o segundo insumo mais importante depois do processador para a composição do produto final.  Só a indústria de computadores oferece hoje 6 mil empregos diretos no Paraná e produz por ano mais de 4,5 milhões de computadores. Também  a Electrolux, depois de  comprar  a paranaense Refripar, selecionou o Paraná como sua base de produção para a América Latina.

gráfico - PR maior produtor nacional de

Do lado interno, o governo do Paraná criou um programa de incentivos fiscais, com a dilação no pagamento do ICMS, que vigorou no período de 1994 a 1998, e que recebeu o nome de Paraná Mais Empregos. Este programa foi retomado em 2011 com a denominação de Paraná Competitivo e conseguiu atrair para o Estado, nos últimos três anos e meio,  investimentos industriais de  R$ 35 bilhões, segundo informações do secretário da Fazenda, Luis Eduardo Sebastiani.

Apesar da diversificação, a indústria de alimentos é ainda a maior em número de receitas, seguida pelas montadoras de veículos automotores e do refino de petróleo, segundo dados do Departamento Econômico da Fiep.

Gráfico Pr segundo maior

As transformações permitiram que o  Paraná ocupe hoje  o primeiro lugar do ranking nacional na produção de energia,  madeira MDF e HDFG,  farinha de trigo, amido de mandioca, frangos, seda e grãos. É o segundo maior na produção brasileira de equipamentos de comunicações, computadores, papel e tratores. E é terceiro maior produtor nacional de automóveis, caminhões, eletrodomésticos e móveis.

gráfico - Pr terceiro maior

Em 11 anos, emprego na indústria de transformação cresceu 74%

A indústria de transformação paranaense emprega 710.369 trabalhadores. Este número representa um crescimento de 74% em relação há 11 anos,  segundo os últimos dados da RAIS  (Relação Anual de Informações Sociais). O maior número de empregados está na indústria de alimentos com 155 mil, ou 21% do total. Em segundo lugar estão as montadoras de veículos, reboques e carrocerias com 44 mil ou 6% do total. O terceiro maior empregador na indústria de transformação é o de móveis com 42 mil trabalhadores.

gráfico RAIS

Para a economista e professora da Universidade Positivo, Leide Albergoni, embora os efeitos em relação a empregos diretos gerados pelas montadoras não sejam tão significativos, os principais ganhos foram os empregos indiretos gerados pelos fornecedores de peças e componentes e demais suprimentos às empresas.

Segundo a economista, a partir do momento em que  o Paraná desenvolveu  mão de obra qualificada para atuar na indústria automotiva, acabou formando  também trabalhadores para o setor metalmecânico. “ É essa expertise que atrai empresas de outras áreas não relacionadas com a indústria automotiva”, explica Leide.

Assim, outras empresas multinacionais se instalaram na região trazendo também seus fornecedores, atraídas pela disponibilidade de mão de obra qualificada. Dessa forma, destaca a professora da Universidade Positivo, os impactos da instalação das montadoras não se limitou ao próprio setor, pois os efeitos transbordam para o setor metalmecânico de modo geral.

Da erva-mate à alta tecnologia

Foram os italianos que começaram a fabricar as barricarias de madeira onde o mate era embalado.
Foram os italianos que começaram a fabricar as barricarias de madeira onde o mate era embalado.

Várias fases marcam a industrialização  paranaense. Tudo começou com a erva-mate, no início do século XIX, mais precisamente em 1820. Inicialmente, os ervateiros se situavam em Morretes e Antonina e utilizam nos engenhos, a tração hidráulica.  A produção era exportada para o Uruguai, Argentina e Chile.  De acordo com informações do Departamento Econômico da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), a indústria do Paraná quando foi instalada já se comportava de forma diferente das empresas caseiras do resto do País, pois usava somente mão de obra livre, ao contrário de outros estados que utilizam trabalho escravo. Em 1856, o vapor substitui a tração hidráulica e os engenhos começam a se mudar para Curitiba. Foi neste período que aconteceu a emancipação do Paraná e a Guerra do Paraguai. Os paraguaios eram os nossos  únicos concorrentes na produção de erva-mate. Com a guerra, todos os engenhos daquele país foram destruídos e o mercado paranaense passou a dominar o mercado mundial de mate.

No final do século XIX começam a chegar os imigrantes italianos e alemães. Com eles, começa a diversificação na área industrial. Os italianos dão início às indústrias de barricas de madeiras onde o mate passa a ser embalado para exportação. Também ligada ao mate, surge a indústria metalúrgica, mais particularmente, a fábrica Müller, depois denominada Irmãos Müller, que produz as novas máquinas para a moagem da erva.

Outro setor que se desenvolvia era a indústria gráfica. A primeira empresa do setor foi a Impressora Paranaense, que fabricava os rótulos para as barricas.

O ciclo do mate permitiu a diversificação do setor industrial e o aparecimento da classe média urbana. O mercado passa a ser suprido pelas indústrias caseiras locais com pequenas fábricas de sapatos, roupas, vidro e piano, no caso a Essenfelder.

Na década de 20 começou o declínio da indústria ervateira, tendo como causa principal as medidas protecionistas adotadas pela Argentina, que passou a plantar e refinar a sua própria erva-mate. Em consequência, o Paraná perdeu um mercado que absorvia a maior parte da produção.

Com o declínio da erva-mate, o esforço da produção se redireciona para a indústria madeireira que antes de atender o mercado interno,  passa a abastecer os países da Bacia do Prata e Chile. O curioso é que até a década de 40, as indústrias paranaenses estavam vinculadas ao mercado da América do Sul (Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile) mais do que ao mercado brasileiro.

O boom cafeeiro da indústria paranaense começou na década de 40 e com isso a indústria perdeu o peso relativo que até então detinha.

O começo da década de 60 marca o processo de concentração da indústria brasileira. As grandes indústrias paulistas provocaram a falência e fechamento de muitas indústrias caseiras, que não tinham condições de competir. São Paulo então passa a ser o estado produtor e o Paraná o fornecedor de matéria-prima agrícola.

Nos anos 70, o Paraná experimenta outro boom econômico, aproveitando a situação nacional com a elevação dos investimentos. Ocorre uma significativa modernização da agropecuária, com a expansão das cultas de soja e trigo. No setor industrial, novos segmentos  como mecânica, material elétrico e de comunicações, material de transporte, refino de petróleo e fumo passam a explorar o mercado paranaense. Também, nesse período, ocorre a diversificação dos gêneros tradicionais como madeira e produtos alimentares.

A década de 80 foi marcada pela desaceleração da economia, com a elevação dos níveis de ociosidade em diversos setores. Depois do Plano Real em 1994, a indústria do Paraná avança e entra fortalecida no Século 21.

De acordo com o economista e coordenador do Departamento Econômico da Fiep, Maurílio Schmitt, mesmo com a  diversificação da estrutura da indústria paranaense, a agroindústria continua forte.   “As crises que vieram e que ainda poderão acontecer, são facilmente absorvidas  quando se há uma maior oferta de bens de consumo corrente. Ou seja, o Paraná é um grande produtor de alimentos. Mesmo em períodos de dificuldades, ninguém deixa de consumir alimentos”, conclui.

gráfico - indústrias mais faturam

Créditos das fotos – Gelson Bampi e divulgação

Economista discute desindustrialização do Brasil pós ano 2000

desindustrialização-livroEm países em estágios intermediários de desenvolvimento, como é o caso do Brasil, a indústria de transformação é fundamental para incrementar indicadores econômicos e sociais. Afinal a manufatura, com sua característica de demandar inúmeros bens e serviços, tem capacidade de movimentar e acelerar o crescimento de diversos setores, além de possuir, por sua própria natureza, a faculdade de inovar, inventar e difundir tecnologia. Por tamanha importância, o setor manufatureiro é um dos focos principais de estudos econômicos em todo o mundo, à medida que sua participação no Produto Interno Bruto dos países é sempre um indicador do potencial de geração de emprego e desenvolvimento social.

Tomando como base o desempenho da indústria brasileira nos anos 2000, o economista Paulo César Morceiro questiona, em ‘Desindustrialização na economia brasileira no período 2000-2011: abordagens e indicadores’ se está em curso um processo de desindustrialização e de que tipo, como se manifesta e quais são suas causas e consequências mais significativas para a economia do país.

O autor demonstra, então, que há sim um novo e não desprezível processo de desindustrialização no Brasil, reiniciado em 2005 e aprofundado no triênio 2009 a 2011. Paulo Morceiro qualifica a desindustrialização como precoce e nociva ao desenvolvimento, uma variante patológica do processo de desenvolvimento socioeconômico “normal” verificado em alguns países desenvolvidos.

O livro integra a Coleção Propg Digital, parceria entre a Editora Unesp e a pró-reitoria de Pós-graduação da Unesp e sai com o selo Cultura Acadêmica, braço editorial da Universidade.