Censo demográfico 2022 e a via crucis do IBGE

Censo demográfico 2022 e a via crucis do IBGE
Gilmar Mendes Lourenço.

À medida que se aproxima a Semana Santa, com as celebrações mais importantes da Igreja Católica, o ambiente especializado dos “Mestres da Lei” vem preparando, de maneira franca, a crucificação do Censo Demográfico 2022, do IBGE, esquecendo a interferência negativa decisiva exercida por alguns Judas disfarçados de autoridades nesta tortuosa história.

Em contraposição, por uma ótica estritamente técnica, proliferam convicções de que o Censo, cuja coleta teve o encerramento oficial anunciado pela instância de estatística em 28 de fevereiro de 2023, abarca os maiores avanços tecnológicos já empregados em qualquer pesquisa ou empreitada destinada ao levantamento de dados do universo da população brasileira.

Os aprimoramentos começam pela sofisticação do arcabouço metodológico, passam pela rigorosa seleção e treinamento dos pesquisadores de campo e a ratificação dos mecanismos de coleta instantânea, propiciados pela “informática na palma da mão”, e chegam aos contemporâneos procedimentos empregados na sistematização e tratamento das informações primárias e geração de indicadores socioeconômicos.

Mesmo com a defasagem temporal de quase três anos em relação ao projeto original, previsto para 2020, os resultados da investigação censitária deverão servir de referência à revisão de outros esforços realizados pela instituição de estatística, especialmente os inquéritos domiciliares.

De outra parte, o novo inventário brasileiro ocupará papel central no oferecimento de subsídios relevantes ao planejamento, definição, implementação, monitoramento e revisão de políticas públicas e nas múltiplas escolhas estratégicas dos agentes privados.

No entanto, é imperioso reconhecer o conjunto nada desprezível de falhas e lacunas contidas nas diferentes etapas do processo de construção do inquérito censitário, que, se não adequadamente avaliadas e contornadas pelo IBGE, podem ensejar números menos precisos e, o que é pior, deliberações equivocadas a partir da publicação dos mesmos.

O caminho natural seria a feitura do Censo em 2021, em razão da eclosão de evento fortuito, representado pela pandemia de Covid-19 e as imediatas medidas de restrição adotadas pelas autoridades, principalmente o isolamento e distanciamento social, em 2020, em um espaço geográfico continental e heterogêneo em geração e apropriação de renda e provisão de serviços públicos, notadamente de saúde.

As apreciáveis barreiras à elaboração da pesquisa censitária começaram a ser erguidas em 2019, pelo governo recém-empossado, absolutamente insensível aos requerimentos informacionais ao trabalho de estabelecimento de bases para a preparação de programas de longo alcance e maturação.

Em outros termos, tratava-se de uma administração de matiz ideológico liberal, defensora do funcionamento privilegiado das forças de mercado e da tese de que atividades subjacentes ao planejamento, englobando a produção de informações, representavam “manias” remanescentes do intervencionismo estatal que deveriam ser varridas do mapa brasileiro.

O próprio ministério da Economia empenhou-se, em não poucas incursões, em diferentes momentos, voltadas à inviabilização da empreitada censitária, centradas em propostas de poda radical no questionário – sob a justificativa de premência de imitação do padrão das instituições operantes em países avançados, ignorando as enormes disparidades brasileiras – e, sob o manto protetor da crise sanitária e orçamentária, em 2020 e 2022, de adiamento ad eternum.

Tanto que a incorporação do Censo na peça orçamentária, dotado de cifras incomparavelmente menores do que as estimadas em 2019, só aconteceu por determinação explícita do poder judiciário, em permanente embate com a cúpula do executivo de plantão – que parecia desejosa de repetir a irresponsabilidade do incumbente Collor em 1990, que não permitir a feitura do Censo e autorizou apenas a “Contagem Populacional”, em 1991 -, o que oportunizou o despacho das equipes às visitas domiciliares em 2022.

Dentre as principais dificuldades encontradas para a condução das visitas do Censo durante sete meses, suplantando em mais de duas vezes o tempo previsto inicialmente, destacam-se a captura do material em instantes distintos, as recorrentes ausências dos respondentes nas residências e a excessiva rotatividade dos recenseadores contratados e as paralisações por atrasos nos salários, derivadas da escassez de verbas.

Porém, a maior limitação para a aplicação dos questionários (completo ou simples) junto às famílias, expressa pelos entrevistadores, repousou na emergência de uma espécie de “negacionismo informacional” impregnado nas pessoas, evidenciado por veemente recusa em atendê-los e/ou responder os quesitos apresentados.

Por conta disso, ao decretar o desfecho formal das atividades de coleta, em março de 2023, o IBGE anunciou alcance de cobertura de 91% da população, estimada em 207,8 milhões de habitantes, em dezembro de 2022, e entregue ao Tribunal de Contas da União (TCU), para efeito de utilização nos critérios de rateio do Fundo de Participação dos Estados e Municípios (FPE e FPM).

Só que o Censo não acabou. O IBGE já deflagrou o ciclo de execução de ações de consistência e reverificação e, sobretudo, aplicação de refinamentos científicos que permitam a diminuição do hiato populacional, identificado ou pelo desinteresse das pessoas em participar da atividade de montagem do novo retrato do Brasil ou por outros elementos impeditivos, como acesso e/ou impossibilidade de localização.

Para tanto, em prazo relativamente curto, recorrerá à utilização de modelagens de primeira linha no campo da demografia, disponíveis e/ou apropriadas pela entidade, na perspectiva de identificação estratificada do painel dos “difíceis” e minimização das distorções provocadas pela incúria de governantes que designaram a perseguição do atraso civilizatório como política de estado.

Aos Economistas e demais cientistas sociais, sugere-se o despojamento da postura contemplativa dos ataques sofridos por um dos mais respeitados órgãos de estatística do planeta e o esboço de posições de proteção propositivas e qualificadas, ainda que críticas em certos aspectos, em um estágio da vida nacional marcado pela covardia da isenção.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, ex-presidente do Ipardes e ex-conselheiro da Copel.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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