PIB global em 2024: boas notícias do FMI?

Gilmar Mendes Lourenço.
As estimativas preliminares relativas ao desempenho da economia global no ano de 2023 e os prognósticos para 2024, disponibilizados no relatório World Economic Outlook, preparado pela equipe técnica do Fundo Monetário Internacional (FMI), em janeiro deste ano, enfeixam cenários discretamente melhores do que aqueles delineados por ocasião dos diagnósticos e extrapolações esboçadas no começo do ano passado.
No princípio de 2023, a potencialização do intrincado conjunto de dificuldades, encontrado pelas economias centrais e principais mercados emergentes durante o extenso período de alastramento, enfrentamento e superação, parcial e plena, da pandemia de Covid-19, levou a entidade multilateral a prever acréscimo de 2,9% e 3,1% do produto interno bruto (PIB) global para 2023 e 2024, respectivamente.
O recrudescimento inflacionário, agravado por tensões geopolíticas, o inexplicável retardo dos governos e bancos centrais no desencadeamento de rodadas de austeridade fiscal e monetária e, posteriormente, o exagerado prolongamento temporal das limitações impostas aos níveis de atividade conformariam a matriz conjuntural do panorama adverso.
Tais resultados serviriam para ratificar a condição de estagnação cíclica, constatada desde 2018, coincidindo com o escancaramento da nova disputa hegemônica entre Estados Unidos (EUA) e China, com a deflagração e intensificação das contendas comerciais lideradas e conduzidas por Donald Trump e Xi Jinping.
No entanto, recomenda-se cautela nas celebrações e, preponderantemente, nas tomadas de decisões, amparadas no vislumbre de mares menos revoltos, pois as novas inferências não alteram de forma expressiva o ambiente dominado por forças não benignas.
De acordo com o Fundo, depois de crescer 3,1%, em 2023, a economia internacional deve praticamente repetir a performance, em 2024 e 2025, com inflação de 4,9%. Isso porque, a despeito da despencada inflacionária dos maiores degraus observados em mais de quatro décadas, a variação média anual de preços ao consumidor ainda sobrevive ao maior e mais rápido choque de juros, desde 1979, por conta das pressões dos reajustes salariais e dos serviços.
Recorde-se que a última brutal elevação dos juros internacionais ocorreu por deliberação do Fed, acompanhada pelos congêneres, em resposta à duplicação dos preços do petróleo, depois da deposição da derrubada do Xá do Irã, Reza Pahlavi, pela revolução capitaneada pelo grupo religioso xiita de Aiatolá Khomeini, no segundo semestre de 1979.
Ademais a espiral de preços continua acima da meta fixada pelo Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, (3,4% ao ano versus 2% a.a.), e o Banco Central Europeu (3% a.a. versus 2 a.a.%), favorecendo a manutenção dos figurinos ortodoxos das autoridades monetárias, ao menos até o final do segundo semestre.
Cumpre esclarecer que o transbordamento da disparada inflacionária de 2022 pode ser imputado aos acentuados desajustes das cadeias logísticas, ocasionados pelo surto de Sars-CoV-2, a impulsão da demanda, provocada pelo derrame e atrasada interrupção de vultosas somas de recursos fiscais e monetários, voltado à mitigação dos impactos do patógeno na saúde financeira de empresas e famílias, e a escalada das cotações das commodities, sobretudo as energéticas e alimentares, com a invasão do território soberano da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.
Nas circunstâncias atuais, afigura-se fácil perceber a predominância generalizada da retranca ortodoxa, mesmo diante de conjunturas macroeconômicas geograficamente distintas e alterações no modus operandi global, derivadas da conjugação entre iniciativas políticas e institucionais na direção da desglobalização, retorno do nacionalismo e, notadamente, o protecionismo.
Conforme levantamento feito pelo jornal Valor Econômico, 3.200 novas restrições ao comércio foram lançadas por distintas nações, em 2022, e 3 mil, em 2023, contra 1.100, em 2019, quando as práticas protecionistas já estavam em franca aceleração.
Só a título de ilustração, enquanto a economia americana vem operando próxima do pleno emprego, com desocupação de 3,7% da força de trabalho e incremento de 2,5% do PIB, em 2023, e projeção de aumento de 2,1%, para 2024, a europeia padece com desemprego de 6,5% e ampliação do PIB de apenas 0,5%, em 2023, e expectativa de variação de 0,9%, para este ano.
Dentre as nações categorizadas como em desenvolvimento, que devem renovar em 2024, o crescimento de 4,1% do PIB, apurado em 2023, os destaques cabem à China (5,2%, em 2023 e 4,7%, em 2024), fruto dos apreciáveis rearranjos comerciais em benefício da Rússia, e Índia (6,7% e 6,5%, respectivamente), vedete das inversões em segmentos da quarta revolução industrial e desigualdade social.
Ressalte-se que o gigante asiático vem adiando sucessivamente o estouro da bolha imobiliária, por meio de substanciais injeções de haveres de instituições financeiras estatais. Em caso de disrupção, as apostas recaem no aprofundamento do declínio dos preços dos imóveis, com efeito cascata sobre as atividades da construção civil (pública e privada), o consumo e o investimento.
Acrescentem-se os elementos de risco subjacentes ao alargamento e acirramento da disputa bélica no Oriente Médio, iniciada com a desmedida resposta de Israel ao ataque do grupo terrorista Hamas, e magnificada com o episódio do cerco aos petroleiros no mar vermelho, particularmente as chances de interrupção no suprimento de commodities, sobretudo petróleo, e o correspondente salto nos preços.
Em contrapartida, emerge a necessidade de convivência com o mais robusto ciclo eleitoral da história, alcançando quase metade da população mundial, a começar pela disputa polarizada à cadeira de chefe da Casa Branca, sugestiva à adoção de políticas de distensão fiscal pelos governos envolvidos, deixando aberta as porteiras para a emissão de dívida pública e inflação.
Por fim, seria precipitado acalentar sonhos e ilusões de guinadas virtuosas em razão do flagrante desaparecimento de lideranças e enfraquecimento dos fóruns globais de discussão de temas estratégicos e resolução de conflitos, em paralelo à multiplicação de projetos autocráticos e ações contrárias à preservação das regras democráticas escritas e informais.
Essas lacunas revelam-se altamente preocupantes em um estágio reconhecidamente conturbado, fortemente dependente de diálogos maduros, marcados por avanços e concessões visando à maximização dos upgrades tecnológicos, reversão das mudanças climáticas, redução das emissões de carbono, efetivação da transição energética com emprego de fontes limpas e diminuição da pobreza e da miséria.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








