PIB 2023: a culpa é do agro

PIB 2023: a culpa é do agro

A melhora do quadro de saúde da economia brasileira, atestada pela variação de 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2023, ensejou efusivas celebrações no Palácio do Planalto, Ministério da Fazenda e militância replicante por recolocar a nação entre as dez maiores economias do mundo, ou em nono lugar versus o décimo quarto, ocupado em 2022.

No entanto, a aferição não escapou ilesa de observações críticas proferidas por representantes dos meios especializados e formadores de opinião. Em suas apreciações, os argutos reparadores destacaram ao menos duas apreciáveis anomalias explicativas de uma suposta fragilidade do evento expansivo.

De acordo com os experts, o resultado esteve escorado na colheita, processamento e comercialização predominantemente externa, da safra recorde de soja e de milho, especificamente no primeiro semestre, e, o que é pior, no consumo privado em detrimento do investimento.

Mais precisamente, o episódio de crescimento teria durado apenas até a primeira metade do ano e sido sucedido por nova estagnação da atividade, a partir de julho, o que atestaria a fadiga do estilo de desenvolvimento amparado na absorção doméstica, principalmente na demanda das famílias, e nas exportações de produtos primários e semielaborados, portadores de menor capacidade de agregação de valor em comparação com os bens manufaturados e pronunciado potencial de deterioração dos termos de intercâmbio.

Do ponto de vista teórico, o raciocínio parece impecável. Só faltaria recomendar empenho no desmanche dessa anomalia crônica por meio do retorno revigorado do paradigma de substituição de importações, baseado na sintonia fina entre poupança pública e captação externa, mesmo em estágio avançado da quarta revolução industrial no planeta.

O escape dessa desconfortável e primitiva armadilha conceitual e interpretativa, absolutamente deslocada no tempo e no espaço, exige um mergulho raso na piscina de estatísticas oferecidas pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT) do IBGE, apoiado na lógica da matemática básica aplicada na contabilidade social.

Em sendo isso feito, é fácil perceber que o propalado motor expansivo funcionou exclusivamente no primeiro trimestre do ano passado, quando experimentou um salto de 20,9%. Na sequência, especialmente por causas climáticas acopladas ao fenômeno El Niño, a agropecuária passou a acusar taxas trimestrais negativas a ponto de perder mais de ¼ do excepcional desempenho do começo do exercício, dado que fechou 2023 com incremento de 15,1%, memos assim o maior desde 1995.

Por essa perspectiva, é prudente ressaltar que as cadeias rurais já não possuem o peso relativo no esforço produtivo nacional dos anos 1970 e 1980. “Para o bem ou para o mal”, o funcionamento do organismo de produção e transações nacional é determinado pela dinâmica industrial e de serviços, que responderam, em 2023, por 25,5% e 67,4%, do valor adicionado nominal, mensurado a preços básicos, sem contabilizar os impostos e subsídios, contra 7,1% da agropecuária.

Se forem acrescentados os ramos indiretos, componentes de uma espécie de campo ampliado, representado pelo agronegócio, abarcando também a agroindústria e os agrosserviços, a montante e a jusante do meio rural, a participação chega a menos de ¼ do PIB total, na medição do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Convém atentar que, enquanto o agro trilhava rota cadente, desde o segundo trimestre de 2023, a indústria e os serviços mantiveram o giro da roda da economia, ainda que com acréscimos moderados entre abril e dezembro, de 1,6% e 1,8%, respectivamente.

A indústria foi puxada por minério de ferro, petróleo, gás e eletricidade e os serviços foram alavancados por atividades imobiliárias, informação e comunicação, transportes e atividades financeiras, estas últimas, por sinal, anabolizadas pelos juros altos.

Esse cenário virtuoso deve ser imputado primordialmente à rápida resposta à queda da inflação e às providências de política econômica dirigidas ao fortalecimento do mercado doméstico, principalmente a maximização das iniciativas públicas de transferência de renda, a revalorização do salário mínimo e a renegociação de dívidas dos consumidores.

Com isso, aquelas duas categorias de repartição dinâmica do sistema econômico foram encarregadas por 25,9% e 66,6%, respectivamente, da marcha evolutiva do PIB no ano passado, sobrando à agropecuária a contribuição de 7,5%, não considerados os efeitos irradiadores nos laços com os demais setores.

Algumas simulações simples, escoradas na premissa de variação do PIB do conjunto do agronegócio em intensidade semelhante à verificada na agropecuária, proporciona aferir a colaboração relativa de cada setor na elevação do agregado, sendo de 29,7%, do agro estendido, 19,7% da indústria, e 50,6%, dos serviços.

Ou seja, na mais simpática modelagem matemática, a indiscutível força do agronegócio moderno, competitivo e plenamente encaixado nas intricadas relações econômicas globais, seria responsável por menos de 1/3 da impulsão da grandeza macroeconômica, acontecida em 2023.

Como se vê, a afirmação de que, não fosse o estupendo pulo do setor rural, o Brasil estaria em estado de recessão técnica por conta do panorama de paralisia do restante do aparelho de produção, notadamente no segundo semestre, aparenta flagrante desalinhamento das exigências rudimentares e complexas do método científico.

Ao contrário, como os outros dois setores permaneceram em discreta aceleração, durante praticamente todo o ano de 2023, soa correto defender a ideia de que o PIB conseguiu crescer apesar das inúmeras adversidades que acometeram a base rural.

Quanto ao incômodo ocasionado pela perseguição da retomada econômica dirigida ao curto prazo, dissociada da necessidade de especial atenção ao investimento e produtividade, urge apressar condutas imprescindíveis à restauração da confiança e recuperação de circunstâncias propícias à multiplicação dos negócios.

Há que se proteger e reforçar as fortalezas da responsabilidade fiscal, particularmente o controle de gastos, intensificar a redução dos juros, regulamentar a simplificação dos impostos de incidência indireta e apressar a formulação, encaminhamento, discussão e aprovação legislativa das demais reformas estruturais promotoras do resgate da operacionalidade do estado e da ampliação da velocidade dos ganhos microeconômicos.

Não obstante, a performance positiva da econômica brasileira, em 2023, traduz o poder de reação do mercado interno à decisão política de alargamento focalizado dos dispêndios públicos – como solução temporária à tendência contracionista dos patamares de atividade -, carente de preservação e aprofundamento com intervenções institucionais ativas, em médio e longo termo.

A propósito, pela ótica da demanda agregada, o consumo das famílias encarregou-se por 54,9% do delta do PIB, as exportações, principalmente de commodities alimentares e minerais, por 16,5%, as despesas da administração pública por 15,5% e os investimentos por 13,1%.

Afinal, conforme manifestado com extrema propriedade, pelo meu grande amigo, Masimo Della Justina, brilhante escritor, autor de vários livros, professor de economia e ciência política e extraordinário frasista, “mesmo que a galinha não consiga voar longe, o importante é que pelo menos bote alguns ovos”.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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