O que explica a enxurrada de dólares em direção ao Brasil

Gilmar Mendes Lourenço.
A entrada líquida de divisas estrangeiras no Brasil, em 2026, vem atingindo velocidade e volume semelhantes aos observados em 2008, quando, após o anúncio da descoberta das reservas na área do pré-sal, a percepção de indiscutível estado de excelente saúde das finanças públicas e o enorme montante de reservas internacionais, em poder da autoridade monetária, propiciaram país a obtenção do selo de “bom pagador”, conhecido no jargão financeiro como grau de investimento, pelo país, junto as mais importantes agências globais de classificação de risco de não pagamento de dívidas soberanas.
Porém, é interessante assinalar que, ao contrário do movimento consistente e convincente verificado em 2008, nas circunstâncias atuais, afora a combinação entre declínio da inflação, fortemente determinada pela depreciação do dólar em escala planetária, e continuidade, ainda que em ritmo menor, da recuperação econômica iniciada no final de 2022, os demais fundamentos macroeconômicos domésticos situam-se fora do ponto de equilíbrio e, portanto, não endossariam essa autêntica enxurrada de capitais externos em direção à nação.
Na verdade, é fácil perceber flagrante deterioração do desempenho orçamentário da esfera pública, não obstante os sucessivos recordes de arrecadação, resultante da acentuada expansão fiscal, patrocinada pela atuação do universo dos poderes e instâncias da república.
O manejo fiscal ativo destina-se ao atendimento de demandas nobres, a exemplo da cobertura das robustas iniciativas oficiais de proteção social, desmanteladas entre 2019 e 2022, e outras não tão augustas e, sobretudo desalinhadas das políticas de estado.
Dentre os atendimentos menos prementes sobressaem as farras com as escandalosas emendas “para lamentares” – assim rotuladas pelo economista Roberto Macedo (1), em brilhante artigo no Estadão de 20.02.2026 -, de cunho eminentemente clientelista e paroquial, e as desavergonhadas despesas do judiciário mais caro do mundo, engrossadas com os penduricalhos furadores dos limites constitucionais.
Recorde-se aqui que o desarme da bomba fiscal herdada da administração antecessora – próxima de R$ 200 bilhões, englobando a urgência de pagamento do calote dos precatórios e do débito com os governos estaduais, constituído pela renúncia forçada do ICMS incidente sobre combustíveis, energia e telecomunicações – só foi possível graças a negociação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Transição entre os representantes do governo eleito e o Congresso Nacional, o que inviabilizou o aproveitamento do cacife de capital político inicial para a feitura de entendimentos na direção da promoção do ajuste fiscal.
A Nova Regra Fiscal (NRF), aprovada em 2023 em substituição ao Teto de Gastos, produzido pelo governo Temer e jamais cumprido, embute flexibilidade por propiciar acréscimo de dispêndios primários da União até 2,5% superior à variação de preços, restrito a 70% do incremento das receitas reais.
No entanto, na prática houve sistemática alteração dos medidores dos sinais vitais das contas, por meio de maquiagens, factíveis com a retirada do cálculo de itens como precatórios, Correios, reclassificações e estabelecimento de despesas fora da meta, o que conduziu à desconfortável disparada da trajetória de endividamento, que saltou de 71,7% do produto interno bruto (PIB), em 2022, para 78,7% do PIB, em 2025.
O desequilíbrio fiscal seria a justificativa primária, ainda que parcial, para a manutenção dos juros reais exorbitantes, pelo Banco Central (BC), em nome do controle e/ou eliminação das tensões inflacionárias pelo lado da demanda do sistema, que, paradoxalmente cederam apenas com a emergência de choques negativos de oferta, expressos na supersafra agrícola, no bônus de energia elétrica e na fragilização do dólar.
Considerando que o preço das letras governamentais, com garantia de recompra, é empregado como autêntica carta de navegação para a rolagem da dívida pública e operações interbancárias, os juros elevados suprem os anseios de felicidade dos rentistas, acomodados e interessados na perpetuação da ciranda financeira, que, por sinal, foi a grande responsável pela falência do estado desenvolvimentista nos anos 1980.
Cálculos preliminares propiciam constatar que o pagamento direcionado aos portadores de papéis públicos – aqueles que enriquecem à custa dos outros (classes média e pobre), em formato de juros da dívida, equivalem a 8% do PIB, no Brasil, contra 2% do PIB, na média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e também 2% do PIB, para alguns mercados de renda média, como China, Índia, Indonésia e Rússia.
A denominada financeirização da riqueza, indutora das companhias no sentido da deliberada diminuição das atividades operacionais, compensadas pelos sedutores ganhos de tesouraria, em condições de regulação, fiscalização e controle meramente protocolares, constitui, ao mesmo tempo, causa e consequência da eclosão de eventos fraudulentos, como o desencadeado pelo Banco Master, abarcando a teia de relações de promiscuidade entre atores privados e públicos, envolvendo cifras amazônicas, controladas por Daniel Vorcaro e Cia e configurando o maior escândalo financeiro da história da república.
Retomando o fluxo de captura de somas externas, os destinos tem denotado discreta diversificação, com concentração em fundos financeiros, por conta do diferencial de juros endógenos vis a vis os internacionais, e absorção de ativos tangíveis, oferecidos via mercado de capitais.
Tanto que o índice da B3 (Ibovespa) flertou com os 190 mil pontos, em fevereiro deste ano, contra 137 mil pontos, seis meses antes, em agosto de 2025, sendo fortemente influenciado pelo ingresso de recursos tomados por companhias nacionais e o Tesouro Nacional.
Conforme levantamento do BC, os investimentos diretos estrangeiros líquidos somaram US$ 79,1 bilhões, em doze meses até janeiro de 2026, ou 3,42% do PIB, versus US$ 72,8 bilhões, ou 3,37% do PIB, no acumulado de dozes meses terminados em janeiro de 2025.
Essa modalidade de entrada suplantou com folga o desnível na conta de transações correntes do balanço de pagamentos, que atingiu US$ 67,6 bilhões (2,92% do PIB), em doze meses findos em janeiro de 2026, ante US$ 72,4 bilhões (3,35% do PIB), em janeiro de 2025, em idêntica base de cotejo.
Por tais circunstâncias, esse comportamento aparentemente anômalo, absolutamente descolado daquilo que a teoria econômica convencional caracteriza como “fundamentos” tem a ver com o alargamento dos abalos à estabilidade da economia e geopolítica internacional, aprofundado depois do retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025.
Trata-se de um apreciável grupo de renovadas atitudes pouco previsíveis que retiraram a condição de porto seguro, representada pelos bônus emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos (EUA), e, por extensão, enfraqueceram o dólar, que, inclusive, perdeu mais de 11% do valor, em 2025 e os primeiros dois meses de 2026, quando confrontado com uma cesta de moedas de países que ostentam maior intercâmbio comercial global.
Nesse particular, o conjunto da obra de fatores ou barreiras negativas, erguidas por Trump, com destaque para a decretação de cobrança adicional de tarifas de importações, em abril de 2025, brotadas de uma tabela “maluca” que não resistiria à uma avaliação estatística rasteira, com avanços e recuos no decorrer do ano.
Ainda que tardiamente, o grosso do pacote tarifário “emergencial”, de caráter recíproco, adotado sob o confuso pretexto e inspiração de Lei promulgada no distante ano de 1977, foi anulado pela Suprema Corte, em 20 de fevereiro deste ano, por não ter sido submetida à autorização da Casa de Leis.
Esse de freio de contenção à escalada autoritária do poder executivo, somado ao clima de exacerbação da insatisfação popular prevalecente no país, derivado do amontoado de gravíssimos problemas (perseguição aos imigrantes, Epstein e outros), podem diminuir a densidade republicana nas eleições legislativas de meio de mandato, que acontecem no final do ano, e brindar a oposição com vitória na Câmara e no Senado.
Em pronta resposta, ao se referir aos seis magistrados ainda não cooptados, que derrubaram o decreto das tarifas (o placar foi seis a três) como “cachorrinhos da esquerda radical e dos falsos republicanos”, Trump fixou gravame extra de 15% a todos os países que possuem superávit na balança comercial com os EUA, e ainda detém poder e mecanismos para a instituição de novas sanções, motivadas por questões relativas à segurança nacional e concorrência desleal.
Na mesma linha imperialista, a postura intimidatória adotada com parceiros históricos, a manifestação explícita do desejo de incorporação de territórios, como é caso da Groenlândia, os incessantes ataques à autonomia do Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, a revogação da retaguarda científica do regramento ambiental e a interferência em outros organismos de estado, ocasionaram encolhimento da importância da moeda referência nas carteiras da comunidade de negócios e decisões estratégicas de diversificação de destinos fora dos EUA, por parte dos investidores.
Mais do que isso, a rápida e surpreendente adequação das principais economias avançadas e emergentes, diante das condutas ultra protecionistas de Trump, igualmente favorecida pela ampliação da liquidez e o abrandamento das amarras creditícias, com o controle da inflação e a diminuição dos juros, serviu para lubrificar as engrenagens dos canais alternativos para a alocação de excedentes financeiros.
De outra parte, a supervalorização das ações das gigantes de tecnologia dos EUA, que catapultou as bolsas de valores, o que ensejou a multiplicação das suspeitas de formação de bolha especulativa, também estimulou a desconcentração das aplicações e a hospedagem de haveres de risco em ativos mais baratos, como os brasileiros.
O complicador é que em face da perspectiva de prosseguimento do populismo eleitoral da adulação de praxe ou de meros lances para a plateia”, por aqui, ancorado em provável alargamento das bondades fiscais, e da ausência de margens de manobras políticas à implantação de mudanças institucionais atreladas ao longo prazo, puxadas pelas agendas centrais da educação, produtividade e previdência, parece lícito admitir que o balanço altamente positivo das inversões oriundas do exterior permanecerá subordinado mais ao “mau humor” de Donald Trump e menos às fortalezas endógenas.
Aliás, as porretadas de Trump, coadjuvadas pelas iniciativas dos “voluntários da pátria” ou “heróis da resistência aos resultados das urnas eletrônicas, instalados em solo americano e articuladores da imposição de mega alíquotas à penetração de produtos brasileiros nos EUA, fabricados majoritariamente por segmentos simpáticos às causas da extrema direita, tem se transformado, ao menos até agora, em estupendos anabolizantes eleitorais para o mandatário brasileiro.
- MACEDO, Roberto. Ainda as emendas “para lamentares”. O Estado de S. Paulo, 20 fev. 2026. Espaço Aberto, p.A4.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.






