2021: retomada econômica global em V
De acordo com relatório Global Economic Prospects preparado pelo Banco Mundial, divulgado neste começo de ano, o produto interno bruto (PIB) global deve crescer 4%, em 2021, o que representa recuperação quase integral, em especial durante o 2º semestre, das perdas amargadas em 2020, por conta dos efeitos da pandemia provocada pelo Novo Coronavírus, quando houve recuo de -4,3% da principal grandeza macroeconômica.
Com isso, o aparelho de produção e negócios deve regressar aos níveis do final de 2019, ápice da desaceleração cíclica registrada depois de quase uma década de expansão generalizada e ininterrupta, puxada pelos mercados emergentes, com ênfase para o Chinês. O ponto fora da curva mundial nos anos 2010 foi justamente o Brasil que permaneceu refém das resistências políticas à concretização de novas rodadas de reformas institucionais capazes de diminuir o custo do país nas esferas pública e privada.
O documento da agência internacional relata que a retomada deverá acontecer apoiada na reação chinesa que, ao represar o surto da doença e promover enorme irrigação monetária e fiscal em sua base econômica, já conseguiu contabilizar, de forma solitária, variação positiva do PIB em 2020, calculada em 2%, com reação contínua a partir do mês de março. Conforme estimativas do Banco, o PIB do gigante asiático deve subir 7,9% em 2021.
Não menos relevante será o empuxe das nações avançadas, que devem mostrar acréscimo de 3,3%, contra declínio de -5,4%, em 2020, com recomposição de quase dois terços dos prejuízos amargados no ano anterior, ancorada na Zona do Euro (3,6%) e Estados Unidos (3,5%), sendo que a economia japonesa deve crescer apenas 2,5%, versus recuo de -5,3%, em 2020.
Decerto que para o reerguimento desse grupo emerge a exacerbação das expectativas favoráveis associadas à vitória do Democrata Joe Biden no pleito presidencial norte-americano e a conquista de maioria pelo seu partido nas duas casas parlamentares dos EUA, o que oportuniza a conformação de um horizonte de multiplicação de injeção de expressivos aportes de incentivos fiscais e monetários destinados às famílias e empresas.
Na verdade, enquanto não houver rigoroso controle da propagação da epidemia, os tesouros nacionais devem anunciar pacotes bilionários de estímulos e as autoridades monetárias devem manter os juros reais negativos por um prologando período de tempo buscando assegurar a sobrevivência dos agentes sociais.
Já o espaço geográfico latino americano deve sofrer impulsão de 3,7%, contra encolhimento de -6,9%, em 2020, sustentado pela evolução da Argentina (4,9%), México (3,7%) e, em menor medida, Brasil (3,0%). É preciso considerar que Argentina e México observaram retrações mais drásticas que a brasileira, em 2020, sendo -10,6%, -9,0% e -4,5%, respectivamente, inferidos pela agência multilateral.
A recessão só não foi mais profunda no Brasil graças à combinação entre o eterno poder competitivo do agronegócio, turbinado pela valorização do dólar e otimização das cotações das commodities, em resposta à disparada da demanda chinesa, e a aplicação de um conjunto de providências organizadas e autorizadas no âmbito do Congresso Nacional, em face da balbúrdia instalada no poder executivo desde o começo da gestão, em janeiro de 2019.
Os deslizes governamentais podem ser evidenciados pela ausência de diagnóstico adequado das mazelas econômicas e sociais do país, planejamento improvisado e desinteresse na efetivação de negociações maduras com o legislativo, voltadas ao encaminhamento e debate dos projetos prioritários.
Mais especificamente, constituíram elementos cruciais para o abrandamento do ardor depressivo, derivado da entrada e alastramento do Sars-Cov-2 no território nacional, a aprovação legislativa de elementos anticíclicos. Dentre eles sobressai o pagamento do auxílio emergencial à população vulnerável e a transferência de haveres federais compensatórios à diminuição de arrecadação e do adiamento da quitação do serviço da dívida dos estados.
Também houve a autorização do orçamento extraordinário, ou de guerra, para a cobertura das demandas provocadas pelo avanço exponencial da patologia, da flexibilização dos contratos de trabalho e do direcionamento de crédito subsidiado aos segmentos mais afetados.
Se forem confirmados os cálculos do Banco, a base econômica nacional deverá operar, em fins de 2021, ainda bastante abaixo dos patamares alcançados no intervalo de estagnação, constatado entre 2017 e 2019, após ter saído da maior e mais longa recessão da história, verificada entre abril de 2014 e dezembro de 2016, quando o PIB retrocedeu -8,5%.
A primeira vista, as inferências feitas pelo Banco Mundial parecem sinalizar a reativação em formato V. No entanto, convém especular que o esforço de futurologia de curto prazo empreendido pela instituição tenha subestimado a vertente contracionista subjacente á escalada da 2ª onda de contágios, internações e óbitos provocados pela Covid-19, ocorrido no fim de 2020 e neste princípio de 2021 e, em consequência, a necessidade de reforço da imposição de normas de distanciamento social e, inclusive, a decretação de rigorosas quarentenas em vários países.
Em caminho semelhante, na direção do alcance do cenário desejável, é razoável admitir que o componente qualitativo das prospecções do Banco contemple, em um ambiente de ainda enorme ociosidade dos fatores de produção, a maximização dos desdobramentos virtuosos da imunização de enorme contingente populacional sobre os níveis de atividade, notadamente na segunda metade do ano.
Nessa perspectiva, chama a atenção a não manifestação explicita da instituição acerca do emprego de expedientes voltados à reversão da pronunciada acentuação da desigualdade social, verificada em 2020, causada pela crise sanitária. Indiscutivelmente, o surto pandêmico comprimiu, em maior proporção, a massa de rendimentos dos integrantes do piso da pirâmide social, por meio da drástica elevação do desemprego e diminuição da renda líquida disponível.
A urgente correção dessa anomalia estrutural requer a defesa e implantação de encorpadas ações de transferências diretas de renda aos mais pobres. Em não sendo isso feito, abre-se flancos para a precipitação das costumeiras posturas políticas populistas, destituídas, na maioria das ocasiões, de compromissos efetivos com a significativa redução e eliminação das condições de penúria da fração mais fragilizada do tecido social.
No caso brasileiro, o quadro torna-se mais preocupante e adverso em razão das inseguranças no front sanitário, oportunizadas pela postura irresponsável do chefe de estado que, em frequentes manifestações e ações, vem minimizando a dimensão e as implicações da crise, o que é fortalecido pela subserviência e incompetência da cúpula da saúde, que tem tropeçado nas próprias pernas e fracassado nas sucessivas tentativas de organização de um programa consistente de vacinação.
Não por acidente, a negligência com o conjunto de problemas gerados pela pandemia e a posição passiva, na mais otimista das interpretações, com a devastação em curso na floresta amazônica foram eventos destacados no capítulo dedicado ao Brasil no Relatório Mundial 2021 da ONG Human Right Watch, divulgado em 13.01.2021.
Em idêntico sentido, afloram as inquietações no campo econômico, motivadas pelo fim do apoio emergencial e falta de empenho e sensibilidade oficial na formulação e execução de um programa assistencial perene e mais abrangente, em situação de desemprego e subemprego extremamente altos.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, ex-presidente do IPARDES.








