Lógica e cálculo eleitoral de Bolsonaro

Em cerimônia realizada em 22 de março de 2021, o presidente da República afirmou que o Brasil está celebrando “parcerias com outros países para produzir e exportar vacinas contra a Covid-19”. Nada mais emblemático da natureza perdida de alguém que não consegue sequer realizar uma transição rápida na condução meramente protocolar do Ministério da Saúde.

Na verdade, se qualquer um dos principais postulantes a cadeira mais importante do país, em 2018, estivesse hoje no lugar de Jair Bolsonaro, independentemente da vertente ideológica, o país seria destaque global na fabricação de vacinas contra o Novo Coronavírus e estaria a exibir um vistoso espetáculo de imunização das pessoas e adoção de estratégicas econômicas anticíclicas.

Esse pressuposto pode ser facilmente contrastado com o extenso volume de atos e palavras, para quem possui vocabulário tão limitado, disparado quase que diariamente pelo capitão, retirado do arsenal escondido dentro da fortaleza por ele ocupada, em Brasília, da qual praticamente declarou guerra à federação.

É assustador constatar que o comandante da nação não faz o menor esforço de, ao menos, disfarçar traços negativos marcantes de sua personalidade, dentre os quais sobressai inclinação autoritária, ausência de empatia e espirito de comunidade e terceirização de responsabilidades por fracassos.

Daí que, não surpreende a articulação organizada por governadores que, diante da evidente incapacidade operacional e financeira de lidar com os novos e complicados desafios da saúde, começam a acertar o anúncio de restrições e aquisições de vacinas em conjunto visando diminuir a velocidade de propagação da patologia.

É desnecessário ser um arguto observador da conjuntura sanitária, econômica e política brasileira para perceber que as afirmações do mandatário do país repousam, paradoxalmente, em princípios sólidos e coerentes, em estrita consonância com sua trajetória histórica de atuação.

Trata-se de ex-deputado federal de atuação inoperante, no transcorrer de quatro mandatos consecutivos, que aproveitou, de forma competente, a atmosfera de crise instaurada no país, a partir da eclosão da instabilidade econômica e social durante o governo Dilma Rousseff.

Na ocasião, o ambiente adverso foi alargado pelo surgimento de vários episódios de corrupção, levantados pela operação Lava Jato, a resistência da presidente em ceder espaços a algumas correntes de aliados fisiológicos, principalmente aquela liderada pelo então presidente da câmara dos deputados, Eduardo Cunha, as escorregadas fiscais, o impeachment e, na sequência, os sérios entraves ao êxito da gestão ortodoxa de Michel Temer.

Em tais circunstâncias, embalado por um discurso de negação das práticas políticas tradicionais, ingressando em um partido nanico e agindo como uma espécie de “salvador da pátria”, Bolsonaro logrou êxito na sedução das classes média e alta – detentoras de pronunciado grau de influência nas mídias digitais – que explicitavam sentimentos de desprezo e/ou marginalização por governos que privilegiaram a agenda de inclusão e mobilidade social, a despeito da apurada multiplicação da malversação de recursos públicos, via manipulações das peças orçamentárias e aparelhamento partidário das companhias estatais.

 Com a exposição e defesa de uma plataforma genérica e de extrema direita, liberal na economia e conservadora nos costumes, incluindo a ampliação da suposta possibilidade de defesa privada por meio da ampliação legal da posse e uso de armas de fogo, em paralelo ao enfraquecimento das correntes de centro-esquerda, sobretudo com o repúdio coletivo à legenda do Partido dos Trabalhadores e congêneres, Bolsonaro nadou de braçada e, depois da facada, por pouco não levou a contenda eleitoral em 1º turno.

Porém, 27 meses depois da posse, há uma perplexidade generalizada com a ausência de formulação de propostas consistentes e implantação de iniciativas públicas capazes de debelar os principais flagelos sociais do país, agravados, em enorme proporção, pela entrada e alastramento do Sars-CoV-2 no Brasil.

A abdicação de lançamento de um programa de reformas econômicas, a negação da dimensão e gravidade do surto pandêmico e o escape das ações de planejamento do controle da evolução da doença e da imunização da população, articuladas com estados e municípios, colocaram o governo Bolsonaro em uma autêntica sinuca de bico.

A cobrança da fatura da inação apareceu na forma de desvalorização do real, evasão de investimentos, desemprego recorde, subida dos juros e economia a caminho de nova recessão no 1º semestre, ainda mais severa que a de 2020, se a avassaladora onda pandêmica não for contida.

Quando consegue fugir do aperto, o presidente costuma sair batendo nos adversários, ou inimigos da pátria, e bradando na direção dos cerca de 1/3 da plateia de fervorosos seguidores que, de acordo com as principais sondagens de opinião, considera sua gestão ótima e boa. Mais que isso, induzidos por seu mito, os devotos refutam a capacidade devastadora do vírus e, em consequência, as precauções sanitárias e as recomendações de isolamento social, e creem no poder de coloca-lo no 2º turno no ciclo de 2022.

O clima raivoso foi magnificado a partir da deliberação monocrática do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que anulou os julgamentos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizados pela 13ª Vara da Justiça Federal em Curitiba, tornando-o elegível. Sintomaticamente, algumas pesquisas de opinião, abarcando o pleito de 2022, prospectam um campo de batalha entre Bolsonaro e Lula, em 2º turno, em condições de empate técnico.

Ainda que, segundo os mesmos inquéritos, mais de 40% dos entrevistados refutem a escolha de sufrágio da esbórnia atrelada aos dois postulantes, a sociometria sugere, ao menos por enquanto, o diagnóstico do caso como o “favoritismo dos extremos messiânicos e populistas”. Até porque, ambos jamais desceram dos palanques eleitorais da era digital.

O antigo prosseguiu em campanha, despejando um dogmatismo ultrapassado, mesmo durante os 580 dias em que permaneceu detido na sede da Polícia Federal, em Curitiba, sem poupar palavras para ressaltar as inegáveis conquistas da aliança hegemônica capitaneada pelas gestões do Partido dos Trabalhadores (PT) no campo social, notadamente entre 2003 e 2007, apoiadas em pilares fincados na Constituição de 1988 e/ou nos feitos do governo predecessor.

Em simultâneo, com comportamento semelhante ao do “diabo quando foge da cruz”, o ex-chefe da nação procura ignorar e/ou postergar a imprescindível prestação de esclarecimentos acerca do retumbante fracasso econômico, a partir de 2011, e das relações promíscuas com as bandas podres do parlamento (Mensalão) e do empresariado (Petrolâo).

A esse respeito, pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, em 15 e 16 de março de 2021, junto a 2.023 brasileiros, entrevistados por telefone, aponta que 57% deles avaliam justa a sentença aplicada pelo ex-Juiz Sérgio à Lula, na operação Lava Jato, em 2017, e 51% colocam-se contrários à decisão de Fachin de anular as sentenças e transferir o caso para a justiça do Distrito Federal.

Já, o atual faz pouco caso da emergência sanitária ao ignorar o sofrimento de milhares de pessoas e dedicar-se à tentativa de atropelar o contingente de vivos e uma montanha de mortos, que teimam em representar obstáculos aos seus interesses de perpetuação no poder.

Ademais, busca formas de proteção jurídica a membros da família, bastante comprometidos com rotinas pretéritas de malversação de haveres públicos e, sob o manto protetor de um legislativo mais cordato, desrespeita as elementares regras democráticas, a imagem e semelhança de seu ídolo, Donald Trump, derrotado nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

Nessa perspectiva, parece lícito ao menos aventar a hipótese de a sociedade brasileira desejar ser privada de atravessar mais quatro anos, a partir de 2023, desprovida de propostas insensatas e soluções mágicas, e dotada dos componentes mais elementares de interferência decisiva na construção de seu futuro,

No entanto, enquanto as oposições não radicais continuarem fragmentadas e vitimadas pela predominância de condutas personalistas, velhas e novas, persistirá chances de vitória dos mesmos hipócritas, disfarçados de soldados universais, em permanente prontidão para acionar o botão das práticas totalitárias, disfarçadas por afagos de bom mocismo.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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