Discurso de Lira: recado ou ameaça?
O ríspido e preciso pronunciamento do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, proferido a seus pares, em 24 de março de 2021, acerca do acionamento do sinal amarelo e prescrição de remédios legislativos não protocolares, “alguns fatais”, para enfrentamento da deterioração geométrica da crítica situação sanitária brasileira, foi endereçado prioritariamente à cúpula do Palácio do Planalto.
Ao demonstrar visível desconforto com a sucessão de erros primários cometidos fora do ambiente do Congresso Nacional, particularmente a ausência de planejamento e gestão da pandemia de Covid-19, em seus múltiplos aspectos, que carecem de urgente reparação e não repetição, o comandante da Casa verbalizou mensagem direta do Centrão ao chefe de estado, acompanhada de embalagem com carimbo de enquadramento.
A atitude se tornou ainda mais importante depois que o “fiel da balança” do parlamento, que aceitou a celebração de uma aliança com um presidente avesso à operação em regime de coalizão, manifestou simpatia ao diagnóstico e proposições contidas na Carta lançada pelo mercado, em 21 de março de 2021, preparada por um grupo de banqueiros e economistas, céticos com a incompetência e omissão do governo Bolsonaro, especificamente no gerenciamento do caos na saúde.
No mesmo dia 24, o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, foi torpedeado em sessão do Senado, por meio de duras observações críticas sobre a natureza ideológica de extrema direita, aplicada na condução da pasta, marcada por retrógrada postura isolacionista do Brasil em relação ao restante do mundo.
Um complicador adicional foi a identificação de uma imagem de um gesto aparentemente obsceno, feito pelo assessor Filipe Martins, que acompanhava o ministro, durante a exposição do presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco. Trata-se de um movimento das mãos, normalmente utilizado por defensores da supremacia racial, formado pelas letras W e P (em inglês, força branca). A ação é conhecida como “apito de cachorro”, uma política decodificada não compreensível facilmente pela maioria dos mortais.
Essa deliberada ocupação do espaço de pária no planeta vem prejudicando crucialmente a aquisição de imunizantes e insumos, em um estágio de completo descontrole da escalada da mazela em território nacional, em autêntica emenda da 1ª onda com a 2ª e com a 3ª e, o que é pior, com forte probabilidade de produção em escala de variantes locais.
Sem qualquer cerimônia ou preocupação com o emprego de polidez discursiva, parte apreciável daquele colégio destacaram, de forma bastante objetiva e veemente, a necessidade de substituição do comando do ministério, sob pena de comprometimento da trajetória do processo de vacinação.
Na manhã seguinte, dia 25.03, o titular da pasta dirigiu-se, por determinação de Bolsonaro, ao gabinete do presidente da Câmara, no afã de expor justificativas por eventuais erros e relatar os esforços e contatos empreendidos para aceleração das compras externas de vacinas e matérias primas.
Aparentemente, a iniciativa não logrou êxito e, em seguida, Lira foi convidado para uma conversa, pelo mandatário do Executivo que, ao final do encontro, fez questão de forçar um encontro casual com membros da imprensa e afirmar ter “problema zero” com o chefe do Legislativo.
No entanto, no geral, o recado de Lira e seus desdobramentos também podem ser interpretados como uma espécie de ameaça, levantada pelo bloco parlamentar de amparo ao governo que, mesmo com a conquista da direção das duas casas, Câmara e Senado, foi preterido por ocasião da troca do General Eduardo Pazuello pelo Médico cardiologista, Marcelo Queiroga, como titular do ministério da Saúde.
Nesse contexto, parece oportuno lembrar o episódio de impeachment e cassação do mandato da então presidente Dilma Rousseff, em 2016, imputado ao cometimento de crime de responsabilidade, expresso nas famosas pedaladas fiscais, a exemplo de seus dois antecessores.
De fato, a despeito do uso de recursos oriundos dos bancos públicos para a cobertura de gastos da União com programas de transferência de renda e a aprovação de crédito suplementar sem aprovação do Congresso, o impedimento aconteceu simplesmente pelo fato de Dilma ter negado apoio ao presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, em processo que tramitava na Comissão de Ética da Casa.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes








