Bolsonaro: reputação mais suja do que pau de galinheiro

Apesar de bastante antiga, aplicada rotineiramente nos tempos dos nossos bisavós e avós, a frase que confere o título ao artigo possui plena aderência ao estágio de verdadeiro inferno astral vivido pelo presidente da República, Jair Bolsonaro.

Na época de nossos antepassados, era bastante comum a montagem de abrigos de madeira, dotados de poleiros para descanso das aves, criadas soltas em terreiros dos lotes residenciais, sendo conhecidas como galinhas caipiras, que ali depositavam seus dejetos durante as noites.

O agravamento do comportamento agressivo de Bolsonaro, marcado por petardos desferidos contra a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da pandemia, em funcionamento no Senado, e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, inclusive, engendrou respostas diretas dos presidentes do Congresso e do TSE e imediata solicitação de conversa, por parte presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), não traduz apenas novas rodadas de destemperos deselegantes.

As atitudes grosseiras consubstanciam recados cifrados, convocatórios à manutenção do estado de alerta dos seguidores-raiz, hospedados predominantemente nas mídias digitais, praticantes de motociclismo e/ou visitantes frequentes de um cercadinho em Brasília, e que ainda respondem por pouco mais de 20% da população.

Trata-se de manifestações ofensivas do atual ocupante do Palácio do Planalto que enfeixam a acentuação de posições autoritárias e insinuações golpistas, expressas em veementes atos desrespeitosos a instituições democráticas que estariam a ameaçar o seu projeto de perpetuação no poder.

Nos episódios em tela, Bolsonaro rechaçou as chances de fornecimento de esclarecimentos a respeito do processo de aquisição da vacina indiana, solicitado pelo titular da referida Comissão, e desqualificou a conduta do presidente do TSE, contrário à proposta de implantação do voto impresso nas urnas eletrônicas para as eleições de 2022, em tramitação no legislativo, sob o vago argumento de risco de fraude.

A intensificação de ataques do presidente a diferentes atores representativos de esferas distintas de poder reflete um fenômeno mais complexo, sintetizado em uma autêntica situação de sinuca de bico em que se encontra o comandante da nação que, a rigor, vem colhendo os frutos das sementes ruins plantadas ao longo de dois anos e meio de gestão.

Isso pode ser comprovado pelos resultados negativos recordes apresentados pela mais recente pesquisa qualitativa, realizada pelo Datafolha entre os dias 07 e 08 de julho de 2021, junto a 2.074 pessoas acima de 16 anos de idade, em 146 municípios brasileiros.

A sondagem apurou que 51% e 56% dos consultados reprovam (rotulo ruim e péssimo), respectivamente, a conduta geral do governo e suas ações e inações no enfrentamento da crise sanitária, 70% acreditam na existência de corrupção na atual administração e 54% desejam a instauração de processo de impeachment do mandatário, pela Câmara dos Deputados.

Especificamente em relação aos atributos relacionados à imagem do chefe de Estado, 66% dos entrevistados o consideram autoritário, 62% o acham desprovido de preparo para conduzir a nação e 58% o julgam incompetente para o exercício do cargo. A predominância das qualificações pouco inteligente (57%), indeciso (57%) e desonesto (52%) encerra o quadro performático negativo.

Na mesma linha, o inquérito apurou enorme rejeição eleitoral ao postulante à reeleição, desde a posse, em 2019, diga-se de passagem. A investigação aponta que, diante da forte probabilidade de permanência da condição de passividade das correntes de Centro na construção de uma candidatura viável, o ciclo eleitoral será polarizado.

Até aqui, as opções colocadas fora do terreno mais radical vem esboçando precário debate acerca da imprescindível necessidade de aglutinação em torno de um nome consensual e, mais que isso, incapacidade de sensibilização dos grupos moderados à esquerda e à direita.

Em um cenário de alternativas entrincheiradas nos extremos, se o pleito acontecesse hoje, Bolsonaro teria 24% dos sufrágios, contra 46% do ex-presidente Lula, em 1º turno. Na 2ª pegada da disputa, Lula venceria com 58% dos votos contra 31% de Bolsonaro. 56% e 37% dos observados não votariam em Bolsonaro e Lula de jeito nenhum, respectivamente, configurando as duas maiores rejeições entre os candidatos.

Aliás, o pleiteante à reeleição seria derrotado no 2º turno por outros pretendentes. No embate com João Doria (PSDB), o placar seria 35% para Bolsonaro versus 46% para o governador de São Paulo. No embate com Ciro Gomes (PDT), os registros seriam 34% contra 50%.

Os dados detalhados do Datafolha revelam que o pronunciado desgaste do comandante da nação vem acontecendo em todas as regiões, faixas de renda, graus de instrução, sexo, idade e cor. A apreciação menos desfavorável foi constatada no Centro-Oeste e Norte e no estrato social com rendimentos mensais entre cinco e dez salários mínimos.

Ainda conforme o levantamento, do painel de informantes que engloba pessoas com renda familiar mensal inferior a dois salários mínimos, que equivale a 57% do total de eleitores, 60% apoiam o impedimento do presidente e 63% mencionaram não votar nele em nenhuma circunstância.

A fase de acentuado enfraquecimento da popularidade de Bolsonaro não constitui obra do acaso. O caos foi erguido tijolo a tijolo desde a posse. A diretriz programática residiu na não descida dos palanques eleitorais, factível com iniciativas de realização de sucessivos ataques aos derrotados.

O cumprimento da tarefa básica de governar foi simplesmente ignorado, o que não seria pouco, diante da estagnação econômica e fragilização do tecido social, a despeito da herança bendita do encaminhamento de ajuste fiscal e controle da inflação, deixada pela equipe de Michel Temer.

A obra destrutiva experimentou forte aceleração com o advento da pandemia de Covid-19 e, principalmente, a escolha oficial em combater nas fileiras do vírus, materializada na negação da gravidade da endemia e desprezo às recomendações científicas, às medidas restritivas e à compra de imunizantes.

Igualmente nociva foi a deliberação de engavetamento da empreitada de formulação de solução definitiva para o problema do aprofundamento da desigualdade social, capitaneada pela reformulação e ampliação do Programa Bolsa Família e revisão das ações de eficácia duvidosa.

É claro que a consolidação da recuperação da economia, associada ao bônus global, retratado particularmente na disparada da demanda e cotações das commodities, ao avanço da vacinação e à nova prorrogação do pagamento do benefício emergencial aos vulneráveis, poderá bloquear a tendência descendente do amparo popular ao presidente.

Porém, há menos de um ano e meio do certame eleitoral, o uso desesperado da verborragia, no afã de derrubar os obstáculos aos interesses do espaço dominado pelo governo de plantão, pode não ser mecanismo suficiente para eximi-lo da culpa por significativa fração da impulsão do desemprego e da informalidade, dos mortos por Sars-CoV-2 e pela multiplicação de suspeitas de corrupção.

Em síntese, o firme empenho de Bolsonaro na ressurreição dos derrotados em 2018, no descaso na preparação e implantação de arrojada orientação desenvolvimentista, amparada na busca de inversão do processo de ampliação da concentração de renda, e na batalha a favor do vírus, justifica a corrosão da aprovação popular ao presidente.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto acima), que é economista e ex-presidente do Ipardes.

(*) A opinião do articulista não necessariamente representa a linha editorial deste site de notícias. Os textos publicados são parte de nosso compromisso com a diversificação das fontes de informação. 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *