Alteração do ICMS dos combustíveis: gasolina na fogueira

É praticamente generalizado no ambiente político e de negócios do país o diagnóstico de que, mesmo com encaminhamento da superação das agruras da crise sanitária, os efeitos do recrudescimento das mazelas econômicas e sociais representadas pela inflação, desemprego e miséria, e a estagnação dos níveis de atividade devem ser mortais para o projeto de reeleição do atual chefe do poder executivo brasileiro.

Especificamente em relação à espiral inflacionária, o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para famílias com renda mensal entre 01 e 40 salários mínimos (SM), exibiu variação de 10,25%, em doze meses encerrados em setembro de 2021, contra 3,14%, em igual período de 2020.

Tal resultado posiciona o indicador ainda mais distante do centro e do teto da meta de inflação, fixados pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 3,75% e 5,25%, respectivamente, para 2021, o que tornará inevitável, na ausência de firme empenho de ajuste fiscal, ancorado em reformas institucionais, a adoção de novas rodadas de elevação dos juros primários, por parte da autoridade monetária, com desdobramentos desfavoráveis no custo de rolagem da dívida pública, produção, mercado de trabalho, consumo e investimentos.

O mais grave é que o flagelo inflacionário tende a corroer de forma dramática a capacidade de compra da camada pobre da população, aspecto atestado pela subida de 10,78% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), no mesmo intervalo de tempo, também medido pelo IBGE, cobrindo famílias com rendimentos mensais entre um e cinco salários mínimos.

O empuxe inflacionário doméstico foi determinado por combustíveis (42,02%), gás de cozinha (33,04%), energia elétrica (28,82%) e alimentos (12,54%), em consequência da combinação entre adversidades externas e incontáveis tropeços na condução da política macroeconômica nacional.

Dentre os fatores exógenos, sobressai a impulsão das cotações globais das commodities alimentares, minerais e metálicas, carregada pela contínua expansão da demanda chinesa desde abril do ano passado, as dificuldades de reorganização do funcionamento das principais cadeias internacionais de suprimento, com a reabertura disforme das economias, propiciada pelas diferentes velocidades do processo de vacinação, e as pressões da demanda de energia com a chegada do inverno no hemisfério norte.

Tanto é assim que os preços do barril do petróleo, também afetados por algumas permanentes tensões de natureza geopolítica, suplantaram os US$ 80, contra menos de US$ 40, em outubro de 2020, o que equivale à majoração superior a 100%.

Em paralelo, o Índice de Commodities – Brasil (IC-Br), estimado pelo Banco Central e o Commodity Research Bureau, experimentou aumento de 42,65%, puxado por energia (petróleo brent, gás natural e carvão, 89,88%) e com altas igualmente expressivas em metais (alumínio, minério de ferro, cobre, estanho, zinco, chumbo, níquel, ouro e prata, 39,20%) e agropecuária (carne de boi, algodão, óleo de soja, trigo, açúcar, milho, café, arroz, carne de porco, suco de laranja e cacau, 31,65%).

No entanto, conforme insinuado anteriormente, os embaraços externos justificam apenas um pedaço da insistente aceleração dos indicadores de preços no Brasil. A outra perna responsável pelo despertar do dragão, adormecido desde o lançamento do Plano Real, em julho de 1994, repousa na fragilidade da gestão econômica, se é que ela existe, do governo brasileiro.

Essa lacuna ou anomalia tem sido alargada pelo alvoroço político provocado pelo presidente da república e suas cercanias, principalmente depois da identificação de drástica queda de popularidade, imputada primordialmente, ao deficiente gerenciamento dos impactos da pandemia de Covid-19, e, por extensão, do abalo do projeto de recondução à cadeira de mandatário da nação, em 2022.

Dentre as consequências nefastas das incursões, na melhor das hipóteses improvisadas, da equipe do Palácio do Planalto e da esplanada dos ministérios, emerge a escalada do dólar, que valorizou 33% no mercado nacional desde o começo de 2020, o que interferiu diretamente nos custos dos produtos e insumos importados, repassados aos consumidores intermediários e finais.

Sem contar a ausência de uma estratégica nacional de segurança alimentar, amparada na formação de estoques reguladores, inviabilizada com o enfraquecimento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o descaso com as mensagens técnicas acerca da iminência da crise hídrica – a não ser a recente consulta do ministério das Minas e Energia a entidade esotérica Fundação Cacique Cobra Coral, detentora do “poder de controle” sobre o clima – e a desastrada condução da política de combustíveis.

A respeito desse último ponto, depois de infrutíferas tentativas de interferência na política da Petrobras, sustentada na precificação dos derivados do petróleo com base na curva de preços internacionais e no comportamento do dólar, e desprezo à proposta de adoção de uma espécie de banda de oscilação da carga tributária incidente sobre os valores de mercado dos combustíveis, as instâncias federais elegeram o ICMS como vilão e solução de curto prazo para o imbróglio do desconforto inflacionário.

Mais que isso, a Câmara dos Deputados, sob o comando direto do presidente da Casa, Arthur Lira – cacique do Centrão, um bloco de siglas clientelistas, destituído de ideologia, ideias e programa de nação -, aprovou projeto de Lei que modifica o cálculo do gravame estadual. Em vez de a aplicação da alíquota ser realizada com base nos preços médios praticados nos últimos quinze dias, o novo cálculo levará em consideração a média dos dois anos anteriores.

É dispensável ser um atento observador do cotidiano econômico para constatar tratar-se de providência de cunho essencialmente político-eleitoreiro e, o que é pior, inconstitucional e tecnicamente equivocada, que pode vir a agravar o problema que suspostamente se deseja equacionar, ao debilitar ainda mais a âncora fiscal da estabilidade de preços.

A despeito de constituir um dos principais itens de arrecadação dos estados, com alíquotas que variam entre 25% e 34%, a participação média do ICMS no preço final dos combustíveis caiu de 28% para 27,5%, entre 2015 e 2020, enquanto o peso dos tributos federais (Pis/Pasep, Cofins e Cide) saltou de 9% para 11,3%.

Ao mesmo tempo em que deve propiciar alívio temporário, ou redução estimada em 7% nos preços dos combustíveis na bomba, a medida deve ocasionar perda de arrecadação dos entes subnacionais, inferida entre R$ 7 e R$ 10 bilhões, até o final do ano, pela Federação Brasileira de Associações de Fiscais de Tributos Estaduais, o que provocará acentuação dos desequilíbrios de caixa e forçará a necessidade de solicitação de operações de socorro financeiro por parte da União.

Como ainda depende de exame e votação pelo Senado da República, instância responsável pela preservação do equilíbrio federativo, a matéria tende a ser derrubada. Em sendo isso feito, algumas portas poderão ser abertas para a discussão de providências que venham ensejar saídas estruturais para o problema.

Uma delas compreenderia esforços regulatórios na direção da eliminação dos abusos praticados pelo oligopólio da distribuição de combustíveis, dominado por um reduzido número de grandes empresas estrangeiras e nacionais, que, ao exercerem a função de fixadores de preços, perseguem o aumento das suas margens de rentabilidade, independentemente do comportamento do mercado.

Ao elegerem o ICMS como principal entrave à queda dos preços dos combustíveis e negligenciarem a espinhosa tarefa de examinar criteriosamente a operação da estrutura de mercado e formação de preços no concentrado elo da distribuição, governo e parlamento brasileiros demonstram preferirem a alternativa de acrescentar gasolina ao incêndio.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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