Conservadorismo e subserviência: marcas da elite industrial no Brasil
É forçoso reconhecer que a indústria de transformação amargou contínua e profunda queda na formação do produto interno bruto (PIB) nacional nas últimas duas décadas em meia. Mais precisamente, o peso do setor fabril no agregado macroeconômico recuou de 27%, na média do quinquênio 1990-1994, para pouco mais de 11%, em 2020.
Em paralelo, constatou-se o regresso e consolidação do fenômeno que os economistas denominam de primarização da pauta de exportações, caracterizado pelo avanço da participação dos produtos básicos e semielaborados no valor total das vendas externas do país e declínio da importância relativa dos bens considerados manufaturados.
A íntima sintonia entre os dois eventos constituiu a principal característica do processo de desindustrialização, expresso na surpreendente e permanente diminuição da contribuição da manufatura no esforço produtivo brasileiro, em favor do alargamento da fatia ocupada pelos segmentos dos serviços, destituída do preenchimento de vários ramos componentes da matriz da 3ª revolução industrial e de arrojado ingresso no 4º estágio de mutação tecnológica, liderado pela digitalização e inteligência artificial.
Essa crônica disfunção repousa, de um lado, na acomodação do setor à superproteção à concorrência externa, conferida pelo aparelho de estado, particularmente durante os 50 anos de vigência do modelo de substituição de importações, entre o começo dos anos 1930 e o final da década de 1970.
De outro extremo, emerge a abrupta superexposição do parque fabril doméstico à competição global, em consequência de precipitadas condutas governamentais, na direção da abrupta derrubada de parte expressiva da carga de incentivos e subsídios e respectivo encaixe às regras fixadas pelo Consenso de Washington, à operação dos mercados emergentes, em fins dos anos 1980, centradas em instantânea liberalização comercial e financeira, desregulamentação e privatizações.
Adicionalmente, o emprego do populismo cambial, no transcorrer das gestões presidenciais de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, como mecanismo de controle da inflação, e o insuficiente avanço do bloco de reformas microeconômicas, capaz de restaurar a curva de ganhos de produtividade, completam o modelo explicativo da perene perda de embalo do complexo manufatureiro na maratona de incorporação e difusão de progresso técnico e agregação de valor.
No caso da alteração traduzida no retrocesso do perfil exportador, cumpre sublinhar a interferência decisiva exercida pelo extraordinário crescimento da economia chinesa, notadamente no transcorrer da década de 2000, que serviu para catapultar a demanda e os preços das commodities na fronteira internacional, o que favoreceu enormemente as exportações brasileiras de soja e minério de ferro.
Em continuidade, os desdobramentos inóspitos da maior recessão da história republicana, acontecida entre 2014 e 2016, quando o nível de atividade da indústria encolheu -17,1%, seguida da estagnação no biênio 2017-2018, e a insistente retórica pró-mercado, esboçada por Paulo Guedes, economista do mercado financeiro e avalista da plataforma do postulante a presidente da república, Jair Bolsonaro, seduziram as elites empresariais que encamparam a candidatura do capitão.
O vislumbre de chances potenciais de obtenção de vantagens associadas à operacionalização do discurso liberal, amparada em vultosa programação de modificações institucionais, antecipada pelo Posto Ipiranga de Bolsonaro, encantou os comandantes das corporações, hospedados na Confederação Nacional da Indústria (CNI) e respectivos braços regionais, levando-os a assumir publicamente o apoio irrestrito àquela candidatura conservadora.
Como, a rigor, nada de relevante aconteceu em três anos desde a instalação do novo governo – sendo dois deles tomados pelos impactos do sofrível gerenciamento sanitário e econômico da pandemia de Covid-19 -, exceto a maturação de alguns aprimoramentos plantados no governo de Michel Temer, a base industrial encontra-se semiparalisada ou em recessão técnica, denotada pela retração do PIB no 2º e 3º trimestre de 2021.
Nessas condições, em vez da renovação de reinvindicações legítimas e indispensáveis à recuperação dos patamares de produção, emprego e investimento industrial, dependentes de formulações e deliberações do governo federal, como a reforma tributária, os caciques industriais optaram pela manutenção das costumeiras atitudes subservientes, à espera de afagos e favores pontuais.
A conduta servil ficou patente com os efusivos aplausos de número nada desprezível de empresários, em duas manifestações do chefe de estado, no evento “Moderniza Brasil”, patrocinado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), cujo presidente, Paulo Skaf, pleiteia concorrer à vaga ao Senado, na chapa do provável candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, ministro da infraestrutura de Bolsonaro.
A primeira observação imprudente do chefe do executivo diz respeito à menção da “ripada”, ou mais, da demissão de diretores do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em razão da interdição, pela entidade, de uma obra da Havan, empresa pertencente ao amigo Luciano Hang, também conhecido como “papagaio ou véio da Havan”.
A segunda incursão verbal pouco delicada de Bolsonaro contemplou a justificativa direta da nomeação da jurista Morgana de Almeida Richa, para preenchimento de vaga de ministra no Tribunal Superior do Trabalho (TST) que “não vai dar trabalho para vocês”.
Convém sublinhar que, naquela oportunidade, o presidente se comunicava com um grupo de pessoas suficientemente abastecido de informações, além de esclarecido e qualificado. Porém, parece razoável admitir a hipótese de acentuado déficit de noção de realidade e formação humanista, histórica e legal dos atentos e entusiasmados espectadores.
Não por acaso, de acordo com pesquisa do Datafolha, efetuada entre 13 e 16 de dezembro, junto a 3.666 entrevistados, em 191 cidades, Bolsonaro ostenta 50% de aprovação nessa faixa do eleitorado que, por ações e omissões, deixariam entristecidos e envergonhados alguns pioneiros e figuras históricas da indústria nacional, como o Visconde de Mauá, o Conde Francisco Matarazzo e Antônio Ermírio de Moraes.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








