Bolsonaro versão 2021: as três sabotagens

Os defensores da argumentação de que o governo Bolsonaro nada fez em 2021, ou, na melhor das hipóteses, limitou-se à repetição da inoperante e desastrada atuação do biênio 2019-2020, estão redondamente enganados. Isso porque, no corrente ano, os inquilinos principais do Palácio do Planalto ocuparam-se do aprofundamento de três frentes de perturbações.

A primeira iniciativa repousou na intensificação da tarefa de obstrução da estratégia de combate à Covid-19, notadamente do plano nacional de imunização da população. Com o inestimável auxílio dos serviçais de 1ª linha a pasta da Saúde, Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga, o presidente protagonizou grotescos espetáculos de desqualificação da eficácia das vacinas no controle da pandemia, com destaque à rejeição do passaporte e postergação da aplicação de imunizantes em parte do contingente infantil.

Aliás, o ministro Queiroga tem se comportado “melhor do que encomenda”, ao transformar-se em um verdadeiro “Pazuello de jaleco”, com as incontáveis e sucessivas condutas de desapreço às recomendações da comunidade científica, com o amparo escancarado ou tácito do conservadorismo reinante na cúpula do Conselho Federal de Medicina e entes correlatos.

Convém explicitar aos menos duas das mais recentes trapalhadas e manifestações absurdas do titular da Saúde. No caso da negação do certificado de imunização, o ministro enalteceu uma frase do chefe de estado ligada à prevalência do interesse individual sobre o coletivo, em qualquer situação, ao mencionar que “é preferível a morte à supressão da liberdade”.

Na mesma balada cômica, não fosse trágica, emergiu a imposição de empecilhos inaceitáveis ao cumprimento de portaria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que determinou o desencadeamento da vacinação em crianças com mais de cinco anos de idade.

O empenho oficial para emperramento ou atraso no processo passou pela inédita instituição de “audiência pública”, sob a justificativa de que “a pressa é inimiga da perfeição”, em contraposição à lógica prevalecente principalmente em emergências e plantões das unidades hospitalares.

A segunda vertente de barbaridades englobou as tentativas de instalação do caos político e institucional, por meio de ofensivas totalitárias orquestradas por Bolsonaro, em linha com a corrosão de popularidade de seu governo, na direção do abalo ao funcionamento de instâncias democráticas avessas às atitudes da autocracia de plantão.

O ápice das condutas tresloucadas coincidiu com as comemorações do dia da independência quando o mandatário do país insuflou seguidores convocados por milícias digitais contra alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que, de um lado, avaliaram não pertinentes as dúvidas quanto à lisura da votação e apuração de votos por urnas eletrônicas e, de outro, aplicaram o texto legal a pessoas próximas do presidente, portadores de bandeiras aderentes a teses golpistas, como a interdição da justiça e intervenção militar nos moldes do golpe de 1964.

O terceiro eixo característico de ausência de compromisso com o futuro enfeixou a articulação promíscua entre Executivo e Congresso Nacional visando à viabilização da deflagração da farra do Orçamento – peça central de controle social das demandas propiciadas pela arrecadação tributária – indispensável à sobrevivência do projeto de reeleição.

Na prática, a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) dos Precatórios garantiu recursos à cobertura do Auxílio Brasil, programa eleitoreiro que substituiu o Bolsa Família e a ajuda emergencial, das suspeitas emendas dos parlamentares, abrigadas no chamado “orçamento secreto”, vinculadas essencialmente ao apoio legislativo do presidente, conduzido pelo bloco centrão, e do vultoso alargamento do fundo partidário.

Ao permitir o estouro do “teto de gastos”, criado pelo governo Temer, em 2016, como reparo aos estragos provocados à dinâmica da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), com as pedaladas da administração de Dilma Rousseff, o arranjo celebrado entre governo e parlamento constituiu a inscrição no texto Constitucional do caráter infinito da gastança e financiamento público.

A ciência política sugere que qualquer candidato a cargo majoritário no Brasil, detentor de apoio restrito à 5ª parte dos eleitores e rejeição superior a 50%, apontados por sondagens dos institutos de pesquisa, estará irremediavelmente condenado ao fracasso.

Em 2018, integrante do baixo clero da Câmara dos Deputados, por quatro legislaturas consecutivas, Bolsonaro surfou a onda anticorrupção produzida no apogeu da Lava Jato e aproveitou a condenação social dos costumes elitistas impregnados na velha politica, capitaneada pelos três governos do Partido dos Trabalhadores (PT), evidenciados pelos escândalos do Mensalão e do Petrolão.

Ao garantir sobrevida no cargo ao preço do “casamento na marra” com a banda podre do Congresso Nacional, por lá acomodada desde a Redemocratização do país, em 1985, o postulante à reeleição ficou desprovido de carona confiável.

A não ser que esteja imaginando chances de terceirização das responsabilidades pela multiplicação do endividamento público, juros, dólar, inflação, ociosidade, desemprego, miséria e desconfiança dos investidores e da contínua sabotagem ao gerenciamento da instabilidade sanitária, à democracia e à perseguição do equilíbrio fiscal.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

*A opinião do autor deste artigo não necessariamente representa a linha editorial deste site.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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