Inação do presidente e ereção do candidato
Os resultados das pesquisas de intenção de voto à cadeira de presidente da república do Brasil, realizadas pelos principais institutos nesta 1ª metade do mês de setembro de 2022, revelam elevada probabilidade de a disputa se estender ao 2º turno e ser travada entre as duas candidaturas favoritas, do ex-presidente Lula e do atual chefe de governo, Jair Bolsonaro.
As estatísticas das sondagens opinativas mostram estabilidade nas preferências da população pelos dois postulantes que ocupam a dianteira das assinalações, com oscilações dentro da margem de erro dos inquéritos, sendo que 77% das manifestações atestam escolha antecipadamente cristalizada.
Há poucas dúvidas de que os dois melhores colocados teriam chegado ao teto das indicações de desejo de voto, com Lula na faixa entre 44% e 46%, e Bolsonaro entre 31 e 34%. Igualmente colocam-se como mais rejeitados, designados como aqueles que o eleitor não chancelaria de jeito nenhum, tendo Bolsonaro com acachapantes 51% e Lula com 39%.
Na verdade, o transbordamento da polarização para a 2ª etapa conformou-se a partir da sobrevida da denominada 3ª via, espelhada em Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (Coligação Brasil para Todos), coincidindo com a deflagração da propaganda gratuita de rádio e televisão e o episódio do debate promovido pela Band, no final do mês de agosto de 2022.
Se não propiciaram a plena percepção, por parcela da sociedade ainda indecisa, da existência de outras vertentes opcionais àquelas preenchidas por fervorosos seguidores dos líderes, os eventos recentes ampliaram o campo de observação dos diagnósticos dos problemas e respectivas propostas de providências para equacionamento.
Enquanto Ciro vem insistindo, com bastante propriedade e a costumeira eloquência, desde 2018, no interesse de resolução da crise de endividamento de famílias, empresas e Estado, Tebet assumiu com veemência a defesa de uma reforma tributária que venha reduzir substancialmente a incidência indireta, que, ao penalizar os mais pobres, aprofunda a desigualdade na apropriação do produto social.
Nessas condições, por um lado, os membros do QG de Lula, portador de um programa que preconiza a ressurreição de medidas populistas empregadas no passado, algumas com apreciável impacto de desequilíbrio fiscal e desarranjo macroeconômico, já incorporaram a ideia de não desfecho da peleja, em 1º turno.
Não sem antes apostar razoável número de fichas na roda da fortuna, até 02 de outubro, numa espécie de última cartada, simbolizada na busca de arregimentação do chamado sufrágio útil, por meio do convencimento de migração dos simpatizantes de Ciro e Tebet, à medida que forem desaparecendo, até a véspera do pleito as chances reais de ambos pularem para o 2º turno.
De outro extremo, o staff de Bolsonaro aceitou a possibilidade da 2ª contenda e empenha-se, até aqui sem qualquer indício de sucesso, na tarefa de garimpagem de eleitores do piso da pirâmide social, notadamente aqueles assistidos com o Auxílio Brasil, reduto histórico do lulopetismo.
Porém, a despeito do lançamento das denominadas bondades eleitorais Bolsonaro não conseguiu seduzir a população vulnerável – 28% de simpatia, contra 56% de Lula, entre o alvo do auxílio, e 26% versus 54%, na faixa de renda mensal de até dois salários mínimos, que responde por metade da massa de eleitores -, em razão dos quase quatro anos de ausência de governo e de formulação, apresentação e discussão coletiva de um projeto de expansão econômica de longa maturação.
Essa empreitada deveria ser acompanhada de inúmeras iniciativas de intervenções estruturais de inclusão e acionamento do elevador da mobilidade social, negociadas por meio da ampliação da densidade de participação decisória de diferentes grupos com objetivos convergentes e conflitantes.
Na falta disso, as pessoas em condições de penúria prosseguem com a geladeira vazia, quando ainda contam com a disponibilidade do equipamento de consumo, por conta dos ainda elevados níveis de desemprego, informalidade, juros, endividamento e inadimplência.
Sem contar que o poder de compra do Auxílio Brasil, situa-se 17,5% abaixo da cifra do Auxílio Emergencial, de acordo com o índice nacional de preços ao consumidor (INPC), alocado a partir de abril de 2020, com suspensão, no 1º trimestre de 2021, imputada a avaliações precipitadas e equivocadas do ministério da Economia.
É prudente destacar que o atual cenário de deflação deriva da utilização de mecanismos de controle artificiais, sintetizados em renúncias fiscais federais e subnacionais, aplicadas para combustíveis, energia elétrica e telecomunicações, que beneficiam fundamentalmente o consumo das categorias de renda média e alta.
O declínio das pressões inflacionárias, que desalinha a estrutura de preços relativos em benefício dos mais abastados, não chegou aos alimentos, que consomem mais de ¼ dos fluxos mensais de rendimentos das famílias mais humildes.
Outra barreira à viabilização do desejo de reeleição do presidente compreende a repulsa da fração feminina, que representa a maioria da população, inclusive votante, contemplada, sempre que oportuno, com insultos e expressões sedutoras inapropriadas e/ou deselegantes emanadas do comandante da nação.
Normalmente dirigidas a mulheres de grupos diversificados, comprovando o espírito democrático prevalecente na prática de abusos, as grosserias e agressões têm como alvo preferencial a classe de incômodas jornalistas, as opositoras e até as adversárias, brotadas do ciclo eleitoral.
O pior é que os acenos transmitem a forte impressão da necessidade de inclusão permanente de prova de masculinidade na agenda de temas relevantes a serem enunciados e tratados pelo candidato, como se não houvesse problemas suficientemente graves para interlocução com as massas.
Por essa perspectiva, a transformação da cerimônia cívica de comemoração do bicentenário da Independência do Brasil, destinada a todos os cidadãos do país, em evento de campanha eleitoral, quando no exercício do cargo, fruto da convocação e mobilização de fiéis e radicais devotos, representa exemplo patético das anomalias predominantes nas atitudes do governante de plantão, na perspectiva de destruição da identidade da nação.
Não por acaso, a estratégia âncora do grupo da reeleição resume-se ao resgate e intensificação da retórica do ódio, com requintes de autocracia declarada, amparada na “luta do bem contra o mal”, na caça desesperada do voto desprovido de ideologia.
Essa tática é oportunizada pelo telhado de vidro do ex-chefe de estado, explicitado pelos escândalos do Mensalão e Petrolão, apesar da anulação dos julgamentos e penas, por parte do poder judiciário, por restrições de natureza processual.
No entanto, apoiado em uma recuperação econômica efêmera, explicada por fatores pontuais, que podem desaparecer de forma tão rápida e surpreendente como surgiram, incluindo a confecção de uma bomba fiscal, ativada para explodir em 2023, Bolsonaro esforça-se para passar a mensagem de responsável principal do estágio de prosperidade vivido pela nação, que seria exemplo para o mundo.
Em contraste com as reiteradas demonstrações do oásis, identificável apenas nas hostes palacianas, divulgadoras de análises de informações “chapa branca”, emerge a argumentação de prorrogação do estado emergência, até dezembro de 2023, com a ampliação da demagógica instauração da ajuda emergencial para R$ 800.
Esse novo arranjo de promiscuidades prossegue destituído de qualquer compromisso com a restauração da responsabilidade fiscal, duramente abalada depois do sequestro do controle do orçamento pelo bloco parlamentar centrão, em 2021.
Em inescrupulosas e descomunais explorações às escondidas do aparelho de governo, com o robustecimento das emendas parlamentares, em contrapartida ao encolhimento de recursos destinados à saúde, segurança e educação, até merenda escolar, as políticas públicas se tornaram presa fácil do regresso exacerbado das condutas patrimonialistas, adotadas pela aliança hegemônica de poder, concentrada nas cúpulas da base aliada, não satisfeitas com o vergonhoso e vultoso fundo eleitoral.
Em resumo, a pouco mais de três semanas das eleições, ou quase dois meses, se acontecer 2º turno, mergulhado no fluxo de areia movediça da desfaçatez, avesso ao embate e diálogo democrático e apegado à intimidação, Bolsonaro exibe insuficiente capacidade de estabelecimento de conexão consistente com amplos grupos sociais, hospedados fora da zona de conforto da bolha dos 31% de adeptos incondicionais, que aprovam e avalizam sua gestão e virilidade, tanto nas redes sociais quanto nos cercadinhos da vida.
Se desejar recompor as forças e provocar uma reviravolta na reta final, o incumbente terá que exibir, aos segmentos arredios à sua candidatura (pobres, mulheres e nordestinos, dentre outros), poder de convencimento de que é bastante diferente daquilo que, por palavras, ações e omissões, demonstra diariamente.
Também terá que recuperar apreciável legião de eleitores de 2018, descontentes ou mesmo arrependidos, que abandonaram o barco e retiram o apoio ao governo, principalmente por causa das incontáveis atitudes arbitrárias e desumanas tomadas durante a pandemia de covid-19.
É licito admitir a pressuposição de que a sociedade apreendeu a denotar elementos nocivos ao país e anotar que a solução para a fome, que assola mais de 15% dos brasileiros, e a insegurança alimentar que aflige quase a metade do volume de habitantes, depende de ações que ultrapassam a ereção do presidente, tão festejada por seus acompanhantes e fãs.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








