Falsa retomada econômica: o Bolsolão
Desde a instituição do expediente da reeleição a cargos executivos federais, estaduais e municipais, em 1997, a sociedade brasileira ainda não havia percebido tamanha e (in) conveniente mistura entre exercício do cargo e empreitada do candidato, como a que vem sendo protagonizada de maneira escancarada pelo atual chefe de estado.
De um lado, por necessidade, porque perdeu a contenda em 1º turno e precisa recuperar o terreno perdido até o evento final, em 30 de outubro, e, de outro, por puro oportunismo, o presidente, auxiliado pelos demais membros da cúpula do governo, denota credenciais de assombroso déficit de compreensão.
O chefe de governo revela-se inabilitado em entender o imperativo da separação das atribuições administrativas daquelas inerentes às incursões de postulante, inclusive quanto à utilização da máquina e, sobretudo, do erário público, encoberta pelas barbaridades, protegidas sob o manto do orçamento secreto, ou a recaptura do estado para fins privados, definida pelo jornalista Carlos Andreazza como Bolsolão.
Um das rasuras na atitude do Palácio do Planalto e correspondentes puxadinhos equivale à escandalosa e enganosa propaganda acerca da ocorrência de uma etapa de vigorosa retomada econômica, na contramão das adversidades enfrentadas pelo mundo avançado e emergente, ligada a eficiência da orientação do ministério da Economia, capitaneado por Paulo Guedes.
É inquestionável o abrandamento do cenário de terra arrasada pela pandemia e a existência de uma marcha de recuperação dos níveis de atividade, imputada à combinação entre substancial elevação dos gastos públicos, determinada por demandas eminentemente eleitoreiras, e de declínio da inflação, provocada por magias transitórias, apoiadas na queda das cotações internacionais do petróleo e em renúncias tributárias, federais e estaduais, sobre combustíveis, energia elétrica e serviços de telecomunicações.
Porém, as autoridades ignoram o caráter efêmero desse movimento, explicado quase que exclusivamente por fatores pontuais que podem desaparecer de maneira tão rápida e surpreendente como surgiram, principalmente o vetor ancorado na diminuição dos impostos federais e estaduais.
Os senhores do Planalto também esquecem que a natureza não autárquica da economia nacional, em tempos de operação em sintonia fina com os mercados provedores e consumidores globais, desaconselha aventuras baseadas no voluntarismo e improvisação. Aliás, a experiência histórica revela que sempre que a nação enveredou por trilhar rotas distintas das experimentadas no resto do planeta deu com os “burros n´água”.
A propósito da alardeada produtividade do time de Paulo Guedes, em face de incontáveis e retumbantes fracassos, o chairman da Economia já havia devolvido a alcunha de Posto Ipiranga, recebida ainda em 2018, quando teria encantado a elite empresarial, adesista de 1ª viagem, que acreditou nas promessas de estilo liberal, trocadas mais tarde por entrega de autêntica e barata demagogia.
Ainda assim, a conjugação entre o staff do executivo e a linha de frente da batalha eleitoral tem se dedicado à seleção e interpretação de indicadores positivos, normalmente carentes de rigorosos procedimentos científicos de coleta, sistematização, tratamento e derivação, conhecidos como “chapa branca”, passíveis de manipulações grotescas voltadas à satisfação das vontades dos inquilinos de plantão dos poderes constituídos.
Na verdade, seria absolutamente dispensável o emprego de estatísticas para a constatação do quadro de penúria vivido pelos agentes sociais do país, em consequência da precária gestão federal da pandemia e de múltiplos equívocos cometidos pelo governo, ao longo dos quase quatro de anos de mandato, notadamente a definição da irresponsabilidade como diretriz de estado, com a cumplicidade do parlamento.
Para tanto, bastaria, ao comando do país, ultrapassar o alcance dos cercadinhos, repletos de fervorosos e incondicionais apoiadores, montados em diferentes rincões do território nacional, e das motociatas, viabilizadas pela classe média e alta, e abrir as janelas e portas para enxergar o ardor depressivo das ruas e/ou a miséria das comunidades carentes.
Ao contrário do que vem buscando demonstrar, infrutiferamente, a publicidade oficial, o presidente jamais tencionou estabelecer vínculos fortes com a maioria do espectro populacional atingido pelo desemprego e informalidade, que, por sinal, o repudia veementemente, a não ser em casos de relações e interesses mercantis imediatos.
Trata-se de um segmento social que permanece à margem da poderosa legião de devotos residentes e/ou catapultados pelas mídias digitais, que, na mais condescendente das avaliações, não recusa o projeto de estado com pendor autocrático e radical e desestabilizador da funcionalidade do regime democrático, sugerido e conduzido por Bolsonaro, a ponto de lhe entregarem um cheque nominal assinado sem o preenchimento do valor.
Pior do que isso, ao desdenhar as aflições e angústias das pessoas mais humildes, particularmente das famílias diminuídas pelo surto de Covid-19 e manifestar simpatia ao repertório de práticas de ruptura institucional, em seus delírios conspiratórios, o presidente não mostra qualquer incômodo ou disfarce em aproximar-se da sinceridade do general João Baptista Figueiredo, expressa no final da década de 1970.
Em 1978, depois de o então presidente Ernesto Geisel, designá-lo futuro ocupante da cadeira presidencial, entre março de 1979 e março de 1985, a comunicação governamental deflagrou um trabalho de popularização do então chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI), que o denominaria “João do Povo”.
A tarefa malogrou em função da personalidade turrona do militar e, em agosto daquele ano, em cruzada rumo ao pleito indireto do colégio eleitoral, ao ser indagado em entrevista, focada em seu apreço por equinos, se gostava do cheiro do povo, o general sentenciou que “o cheirinho do cavalo é melhor”.
Para encerrar, urge assinalar que o sofisma da sublimada recuperação dos níveis de atividade pode ser ilustrado pela queda de –0,6% do volume de vendas do comércio varejista, no mês de agosto de 2022, em relação a julho, o que representou o 3º resultado negativo consecutivo, de acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE.
A média móvel trimestral encolheu -1,1% e o indicador acumulado entre janeiro e agosto de 2022 declinou -0,8% em comparação com o mesmo período de 2021. Com isso, o nível de comercialização do setor situa-se apenas 1,1% acima daquele observado em fevereiro de 2020, que antecedeu a entrada e avanço do vírus no país.
Como se vê, o segmento de varejo, núcleo do consumo das famílias, que representava 61% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, em 2021, está anêmico à espera de políticas e iniciativas de estado capazes de recolocá-lo no curso estrutural da inclusão e mobilidade social.
Por enquanto, a fase de bonança não passa de conversa fiada de liberal especializado em leitura de orelhas de livros, preguiçoso e incapaz de perceber as entranhas e complexidade do tecido social nacional.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








