Estrangeiros atualizam olhar para a Bolsa brasileira

Entre os fatores que levaram o Ibovespa ao recorde histórico de 140 mil pontos, destaca-se potencial mudança de avaliação do investidor estrangeiro em relação aos nossos ativos
O recorde histórico que o Ibovespa alcançou – ao bater 140 mil pontos no intraday de 19 de maio – reflete a forte entrada de recursos estrangeiros na B3: as compras líquidas somavam R$ 9,8 bilhões até 16 de maio. Esse fluxo reflete não só uma mudança na dinâmica da alocação global, mas pode sinalizar uma alteração na maneira como os estrangeiros avaliam os ativos brasileiros.
Enquanto parte desse movimento se explica pelas incertezas sobre o futuro da economia dos Estados Unidos – o que faz com que os investidores busquem diversificar o portfólio em países emergentes – outro pilar de motivação de alocação no Brasil é a qualidade dos fundamentos das empresas somado ao preço descontado das ações.
Negócios tradicionais em foco
O espaço abrangente que os investidores deram nos portfólios – o que inclui grandes fundos de investimento – às empresas de tecnologia nos últimos anos diminui gradativamente, especialmente depois de questionamentos sobre o desenvolvimento de iniciativas ligadas à inteligência artificial. E isso abre espaço nas carteiras para a presença de longo prazo de ativos de companhias brasileiras que operam em setores tradicionais: como mineração, óleo e gás e finanças.
“Depois do boom que elevou gradativamente o preço das ações das 7 maiores empresas de tecnologia do mundo – Microsoft, Apple, Nvidia, Alphabet (Google), Amazon, Meta (Facebook) e Tesla – os investidores podem estar reavaliando estratégias e preferindo manter parte dos portfólios dedicados a companhias de setores tradicionais, com perspectivas mais estáveis”, diz Filipe Ferreira, diretor de Negócios da Comdinheiro/Nelogica.
Nesse contexto, na avaliação de Ferreira, os estrangeiros testam o potencial do mercado de ações no Brasil ao acelerar a compra, especialmente de papéis com maior relevância no Ibovespa – como Vale (VALE4), Petrobras (PETR3) e Itaú (ITUB4).
Um fator que incentiva esse movimento é o preço “barato” dos ativos, uma vez que as empresas que compõem o Ibovespa têm Preço/Lucro (P/L) médio de 7,29x projetado para os próximos 12 meses. Como comparação, o PL projetado das 7 maiores empresas dos EUA é de 30x. Vale destacar que o PL baixo pode indicar que a empresa está sendo negociada abaixo do seu valor real, com potencial de crescimento.
Gigantes de tecnologia em xeque?
Outro ponto que motiva os estrangeiros a entrarem na nossa Bolsa é a sustentabilidade dos negócios ao longo do tempo. Na visão de Ferreira, a presença de empresas tradicionais nos portfólios – como VALE3 e PETR4 – pode significar maior segurança para estratégias de longo prazo.
“Hoje, as empresas com maior valor de mercado do mundo têm a tecnologia como base do negócio. Trata-se de uma premissa que pode elevar a volatilidade dos ativos e trazer incertezas no longo prazo”, pontua Ferreira.
O executivo propõe um exercício de abstração: ao considerar que as empresas de tecnologia têm de atualizar a sua atuação periodicamente para acompanhar as mudanças de mercado, o risco cresce de forma substancial.
O Google, por exemplo, pode perder gradativamente a sua relevância. “Quem garante que daqui a 10 anos não vamos buscar referências de restaurantes ou pesquisar sobre questões de saúde em alguma inteligência artificial que não esteja ligada à companhia? Essas gigantes da tecnologia precisarão de muito investimento para se manterem relevantes no longo prazo”, destaca Ferreira.
Em comparação, tudo indica que as empresas de maior relevância no mercado doméstico devem precisar de menos transições na próxima década. “Tudo indica que a demanda por minério de ferro deve seguir aquecida ao longo da próxima década. Afinal, essa é a matéria-prima de base para a construção civil. E nós temos a Vale, a maior produtora da commodity no mundo. Já o Itaú, que valia R$ 20 bilhões nos anos 2000, hoje lucra R$ 40 bilhões em um ano. Estamos falando de negócios sólidos que tendem a avançar nos próximos anos sem precisar de investimentos extravagantes”, diz.
Na avaliação do executivo, o investidor brasileiro tem à sua frente um momento único de oportunidade. “Ainda existe espaço para os investidores locais se posicionarem na Bolsa para colher os frutos desse ciclo que está se formando. Daqui a pouco, pode ser tarde para alocar com foco em embolsar o desconto dos papéis”, conclui Ferreira.








