Economia global em época de “Trump 2.0, o demolidor”

Economia global em época de “Trump 2.0, o demolidor”
Gilmar Mendes Lourenço.

As estimativas de crescimento do produto interno bruto (PIB) global referentes ao ano de 2025 e as projeções para o biênio 2026-2027, efetuadas pelo Banco Mundial e disponibilizadas em janeiro deste ano, mostram-se um pouco menos encorpadas do que aquelas elaboradas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), em outubro de 2025.

Enquanto o Fundo previa expansão média de 3,3% da principal grandeza macroeconômica, no triênio compreendido entre 2025 e 2027, o Banco aferiu incremento de 2,7%, em 2025, a despeito dos reflexos do desencadeamento da agenda protecionista do governo de Donald Trump, e avalia avanço de 2,7% a.a., nos dois exercícios subsequentes.

De acordo com a agência, as economias dos estados avançados cresceram 1,7%, em 2025, puxadas pelos Estados Unidos (EUA), que experimentaram surpreendente ampliação de 2,1%, e devem registrar aumento de 1,6%, em 2026 e 2027, ao passo que as nações emergentes mantiveram e sustentarão performance acima de 4%, impulsionadas por China e Índia, esta última com taxas anuais próximas de 7%.

Malgrado as diferenças temporais dos trabalhos de coleta, tratamento e consistência dos dados e informações e produção dos indicadores, com sutis discrepâncias metodológicas, as apurações do Banco corroboram a trajetória de consistente recuperação da economia mundial, já identificada pelos técnicos do FMI, depois da inflexão provocada pela pandemia de Covid-19, em 2020, sendo a maior observada desde a saída dos estágios recessivos derivados dos choques do petróleo de 1973 e 1979.

Cumpre reparar que o estupendo empuxe da economia norte-americana, em 2025, não constitui resposta positiva à orientação macroeconômica de Trump, se o uso desse tipo de denominação não representar um verdadeiro insulto aos princípios mais elementares da teoria econômica.

Na verdade, o extraordinário fôlego do PIB americano em cotejo com a expectativa de variação inferior a 1,5%, não significa a confirmação do mote trumpista de transformação da economia do país em “grande novamente” e pode ser imputado ao movimento de acumulação planejada de estoques pelas firmas, como postura antecipatória e defensiva ao tarifaço, o que propiciou a neutralização de parte dos desdobramentos da guerra comercial.

Descontados os impactos da postura imprevisível de Trump, numa espécie de “morde e assopra”, marcado pela eliminação ou sensível diminuição da sobretaxação em comparação aos níveis inicialmente anunciados, parece pertinente inferir que os males da inclinação de maior fechamento dos EUA às importações serão sentidos neste 2026, quando a alavanca do ciclo de estoques desaparecer, sem contar com o permanente perigo de imposição intempestiva de sanções adicionais. Tanto que a evolução do PIB, prospectada pelo Banco, é de 2,2% neste ano.

Porém, é preciso advertir também que os negócios internacionais descobriram e/ou desenvolveram, rapidamente por sinal, modos de sobrevivência aos malefícios ocasionados pelo “jeito Trump de ser e de viver”, mediante incontáveis negociações focadas no redirecionamento dos fluxos comerciais pelas distintas cadeias produtivas transnacionais, seguindo o tradicional estilo do ditado popular: “no andar da carroça as melancias se ajeitam”.

Outro componente determinante da continuidade do embalo global, não por causa de Trump, mas apesar dele, repousa na maturação do substancial volume de inversões nos segmentos portadores de futuro, assentados na quarta revolução industrial, em especial os mega projetos em inteligência artificial (IA).

No campeonato pela vanguarda na concepção, desenvolvimento, apropriação e difusão desse novo modus operandi, supostamente dotado de capacidade e/ou potencial, para alterar radicalmente os estilos de gestão e os métodos de produção, tanto os elencos de primeira divisão, capitaneados pelos gigantes da tecnologia, quanto as companhias de segunda linha, tem se empenhado na execução de apreciáveis investimentos para adensamento das respectivas fatias de mercado, preservação de posições e/ou até mesmo o escape do atropelo por outros competidores.

Nesse particular emerge pronunciada restrição assentada na ausência de percepção adequada, ou mesmo cálculos mais sólidos, acerca da magnitude e tempo de retorno econômico das experiências com IA, a ponto da verificação de multiplicação de inquietações quanto às chances de estouro de uma bolha acionária.

Isso seria mortal para as empresas de pequeno e médio porte, catapultadas por aportes de capitais de terceiros de custo elevado, em operações destituídas de transparência, a exemplo da abundância e multiplicação da concessão de créditos podres, autêntico estopim da crise do subprime, em 2008, nos EUA.

Por uma ótica estrutural, não dá para deixar de considerar, na formulação de premissas aos esforços de construção de futuros balizadores das decisões presentes, a dramática condição de maior regularidade de ocorrência de choques globais, incitados por contendas por hegemonia geopolítica predatória, travadas entre as grandes potências.

As disputas vêm sendo materializadas no indisfarçável enunciado da perversa vontade de alongamento das fronteiras de interferência, viabilizada pela ameaça de utilização de mecanismos econômicos, comerciais e bélicos, em uma espécie de resgate da “lei do mais forte”.

A rivalidade relevante, de caráter eminentemente autocrático, tolerante apenas com o diálogo protocolar, envolve, de um lado, a ressurreição do imperialismo americano, intimidatório e aberto, sob Trump, que mistura aprofundamento dos instrumentos de proteção comercial, repúdio ao multilateralismo e lançamento generalizado e localizado de embargos e tarifas de importação, e, de outro, o agravamento do autoritarismo político, a busca de revisão da esfera geoeconômica de influência e a negação veemente dos critérios subjacentes ao liberalismo, conduzido pela parceria formada por China e Rússia.

Por tudo isso, delineia-se um ambiente de contínua confrontação e menosprezo às fronteiras geográficas, abarcando estados avançados e promessas periféricas, a corrosão do papel de coordenação das instâncias multilaterais e o revigoramento do fechamento protecionista dos mercados nacionais, com consequências negativas para os canais de fornecimento de matérias primas, insumos e produtos acabados, segurança alimentar, promoção da transição da matriz energética e estabilidade dos sistemas financeiros em escala planetária.

Nessa perspectiva, soa prudente reconhecer a presença de demasiada fragmentação ou multipolaridade e menor cooperação e a maximização do descumprimento dos preceitos que paradoxalmente ampararam, com não poucos defeitos, diga-se de passagem, o arranjo internacional desde o pós-segunda guerra mundial e o Consenso de Washington.

A esse respeito, é interessante examinar as linhas conclusivas do Global Risks Report, ou Relatório de Riscos Globais, preparado pelo World Economic Forum (WEF) – entidade privada sem fins lucrativos localizada em Genebra (Suíça) – e destinado a subsidiar o encontro anual realizado no mês de janeiro, em Davos, do qual participaram expressões do meio político e da comunidade empresarial, além de intelectuais e profissionais de imprensa.

Trata-se de resultados produzidos a partir de entrevistas feitas junto a cerca de 11 mil executivos de corporações e outros 1.300 atores sociais, incluindo lideranças políticas e especialistas, espalhados em 116 nações, com o propósito de oferecer uma síntese das visões qualitativas do cenário global capaz de subsidiar as escolhas estratégicas públicas e privadas.

O documento final, de conteúdo essencialmente técnico, sugere interpretações nada confortáveis acerca do estado geral das diferentes variáveis explicativas dos movimentos do planeta em curto e médio prazo, denotando, pela primeira vez na história, a ocupação do topo da lista de ameaças críticas à estabilidade mundial, pelas perturbações de natureza geopolítica.

A preponderância dos problemas geopolíticos superou os temores dos conflitos bélicos e dos eventos climáticos extremos, sinalizando indiscutíveis avanços em direção não a mera transição, mas o desmanche institucional da ordem global, como apropriadamente destacou o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, na reunião em Davos.

Apenas a título de ilustração, o Conselho “seletivo” de Paz, criado e presidido por Donald Trump, por período vitalício e com poderes ilimitados, como parte do “Show de Horrores” do “insultador universal”, em linha com a exorbitante fragilidade e disfuncionalidade da Organização das Nações Unidas (ONU), legitima a força bruta e posiciona os EUA acima de qualquer acordo internacional.

O surgimento de uma rota marítima mais rápida, com o inexorável derretimento do Ártico, admitido até por negacionistas das mudanças climáticas, engendra a abertura de infinitas oportunidades econômicas, que justificariam a usurpação do território autônomo da Groenlândia da nação dinamarquesa.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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