Saúde mental no trabalho ganha centralidade diante do avanço do adoecimento psicológico entre profissionais

Saúde mental no trabalho ganha centralidade diante do avanço do adoecimento psicológico entre profissionais

Discussões sobre segurança psicológica, cultura organizacional e economia criativa ganham espaço

O aumento expressivo dos casos de estresse, ansiedade e afastamentos por transtornos mentais têm reposicionado a saúde mental como um dos principais desafios do ambiente corporativo contemporâneo. O crescimento acelerado de licenças médicas associadas ao sofrimento psíquico revela que uma parcela significativa dos profissionais convive com pressão constante, queda de engajamento e sensação de esgotamento emocional no trabalho, muitas vezes sem que esses sinais sejam reconhecidos a tempo pelas organizações.

Esse cenário é reforçado por levantamento divulgado em 2025 pela Mental Health First Aid England, segundo o qual nove em cada dez profissionais relatam altos níveis de estresse ou pressão no trabalho, enquanto cerca de um em cada cinco já precisou se afastar por questões ligadas à saúde mental, como estresse e ansiedade.

Embora frequentemente associados apenas ao desempenho profissional, esses sinais costumam ter origens mais amplas e se manifestam de forma sutil no cotidiano laboral. Alterações de comportamento, retraimento repentino, perda de sentido e mudanças no nível de participação são indicadores que tendem a ser naturalizados, o que dificulta intervenções precoces. Para o psicólogo Pedro Sampaio, esse é um dos pontos críticos do debate atual. “Muitas vezes, uma tristeza persistente ou uma ansiedade intensa são interpretadas como algo normal do dia a dia, quando na verdade expressam um sofrimento psíquico que encontra no trabalho um espaço de manifestação”, explica.

Segundo o especialista, compreender a saúde mental no trabalho exige ir além da infraestrutura ou de benefícios pontuais, passando pela forma como as relações são construídas dentro das organizações. Nesse contexto, ganha relevância o conceito de segurança psicológica, consolidado a partir de pesquisas internacionais sobre engajamento e desempenho, como o Projeto Aristóteles, desenvolvido pelo Google para identificar os fatores que tornam equipes mais eficazes.

O estudo apontou que ambientes nos quais as pessoas se sentem seguras para se expressar, errar e colaborar apresentam melhores resultados, maior engajamento e mais bem-estar no trabalho.

“A segurança psicológica está ligada à sensação de pertencimento e à liberdade para se expressar sem medo de julgamento. Ambientes assim tendem a sustentar níveis mais altos de produtividade e saúde emocional”, afirma Sampaio.

Esse entendimento tem levado empresas, lideranças e ecossistemas de inovação a revisitar suas práticas e culturas organizacionais. Espaços de trabalho compartilhados, comunidades criativas e ambientes colaborativos passam a ser reconhecidos como territórios estratégicos para a promoção de vínculos mais saudáveis, troca de experiências e construção de redes de apoio. Em Belo Horizonte, o P7 Criativo integra esse movimento a partir de uma estrutura baseada em coworkings mais horizontalizados, espaços de convivência e uma agenda contínua de eventos para residentes, articulando o fator humano como eixo do trabalho criativo e reconhecendo que o avanço da economia criativa depende de equilíbrio emocional e condições mentais favoráveis à criação.

Para Márcia Andrade, gestora de comunidade do P7 Criativo, a saúde mental precisa ser entendida como parte estrutural da experiência profissional. “No mês do Janeiro Branco, promovemos mais uma edição do P7 Day dedicada ao cuidado com a saúde mental e convidamos os residentes do coworking a participarem vestidos de roupas brancas, criando um espaço de escuta e troca sobre o tema com o psicólogo Pedro Sampaio. Quando falamos de criatividade, inovação e colaboração, estamos falando também de pessoas que precisam se sentir acolhidas, escutadas e seguras para se relacionar. Ambientes que estimulam a convivência, diálogo e troca cotidiana contribuem diretamente para relações de trabalho mais saudáveis”, observa.

Papel das lideranças

A discussão também envolve o papel das lideranças na construção desse cenário. Modelos excessivamente verticalizados, com baixa escuta e pouca abertura ao diálogo, tendem a intensificar o sofrimento emocional, enquanto abordagens mais horizontais favorecem confiança, autonomia e engajamento. “Pensar saúde mental no trabalho é refletir sobre cultura organizacional, sobre como o erro é tratado e sobre o espaço real que as pessoas têm para se expressar”, destaca Pedro Sampaio.

Na avaliação de Gustavo Macena, presidente executivo do P7 Criativo, essa agenda deixou de ser secundária e passou a impactar diretamente a sustentabilidade das organizações.

“Não existe inovação consistente sem pessoas bem. Discutir saúde mental é discutir produtividade, permanência de talentos e qualidade das relações profissionais. É um tema decisivo para qualquer ecossistema que queira crescer de forma responsável”, afirma.

À medida que os indicadores de estresse e adoecimento mental se tornam mais evidentes, o debate sobre saúde mental no trabalho avança da esfera individual para o centro das estratégias organizacionais. A consolidação de ambientes que promovem segurança psicológica, diálogo e pertencimento passa a ser reconhecida não apenas como cuidado, mas como condição essencial para desempenho, inovação e desenvolvimento sustentável no mundo do trabalho.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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