Perda de altitude do voo de galinha: entendendo o PIB de 2025

Gilmar Mendes Lourenço.
Em aderência aos cálculos do Banco Central (BC), o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,3%, em 2025, segundo estimativas preliminares realizadas pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), versus avanço de 3,3% da economia global, aferido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Em termos mundiais, o número sintetiza apreciável rearrumação dos fluxos de produção e, sobretudo, de intercâmbio comercial, em resposta a insana estratégia ultra-protecionista, desencadeada no princípio do segundo mandato do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump.
Na verdade, enquanto os mercados emergentes registraram acréscimo de 4,4%, em 2025, catapultados por Índia (7,3%) e China (5,0%), o PIB das nações avançadas subiu apenas 1,7%, influenciado, para baixo, pela variação de 1,4%, da Zona do Euro e de 1,1%, do Japão.
Cumpre sublinhar que a ampliação aparentemente satisfatória do PIB americano, de 2,1%, carrega um resíduo estatístico consideravelmente elástico, apurado entre janeiro e março de 2025, por conta da interferência da postura antecipatória assumida pelos agentes econômicos ante a previsibilidade do tarifaço, decretado em abril de 2025.
Já, pelo ângulo nacional, o resultado apurado simplesmente confirma o diagnóstico bastante difundido, no ano passado, acerca da discreta desaceleração da velocidade de recuperação dos níveis de atividade, experimentada desde o segundo semestre de 2022, fruto de ameaças exógenas, com destaque para as tensões geopolíticas, as guerras inacabáveis e o vírus trumpista, e internas, com ênfase para a macroeconomia amparada em juros exorbitantes e as turbulências de natureza política e institucional.
O desempenho positivo foi determinado fundamentalmente por um novo boom da agropecuária (11,7%), oportunizado pela supersafra de grãos, preponderantemente milho e soja, dado que indústria, comércio e, em menor medida, serviços, com elevações de 1,4%, 1,1% e 1,8%, respectivamente, começaram a acusar o efeito-renda desfavorável derivado de dificuldades de rearranjos do segmento exportador aos choques de oferta planetários, liderados pelo enfraquecimento do dólar, e o caráter depressivo da política monetária.
Só a título de ilustração quantitativa, enquanto a indústria de transformação, o verdadeiro coração do organismo fabril, recuou -0,2%, e eletricidade, água e gás decresceu -0.4%, a classe extrativa pulou 8,6% e os intermediários financeiros exibiram variação de 2,9%.
Com isso, a participação das atividades de transformação no PIB caiu de 14,1% para 13,5% e o peso da categoria bancária saltou de 7,4% para 8,5%, entre 2024 e 2025, suplantando com larga margem o da agropecuária (7,1%), denotando pronunciada apropriação financeira de parcela expressiva da renda gerada pelo universo produtivo.
Afora a longeva capacidade do agronegócio, com colaboração decisiva da esfera pública, tanto na retaguarda tecnológica quanto na disponibilização de abundante crédito subsidiado, a esmagadora maioria das atividades produtivas não conseguem disfarçar a precariedade competitiva quando expostas à intensificação de disputa com atores de fora.
Essa velha e crônica anomalia decorre da exacerbada dependência funcional de expressivo montante de renúncias tributárias e creditícias governamentais, que explica, sobremaneira, a praticamente estagnação da produtividade ao longo das últimas três décadas.
A esse respeito, inferências da Organização Internacional do Trabalho (OIT) propiciam elencar a produtividade laboral brasileira, aferida em US$ 21,20 por hora trabalhada, na rabeira de um painel de 18 nações, ricas e em desenvolvimento, periodicamente acompanhadas, representando 23% da dinamarquesa, 25,9% da americana, 26,3% da alemã, e 26,4% da francesa, que formam o top 4. Sem contar que, nesse ranking, o Brasil figura, na América Latina, atrás das economias chilena, argentina e mexicana.
Pela ótica da demanda agregada, as alavancas foram exportações (6,2%), formação bruta de capital fixo (2,9%), sendo que compras governamentais e consumo das famílias avançaram 2,1% e 1,3%, respectivamente, havendo ainda incremento de 4,5% das importações. A taxa de investimento foi de 16,8% do PIB, quase que repetindo o patamar de 2024 (16,9% do PIB).
A despeito dos impactos do adensamento dos programas públicos de proteção social, notadamente a alavancagem dos patamares recordes de emprego e massa de rendimentos, mesmo que de qualidade discutível devido à acentuada participação de relações de trabalho informais, os ramos mais voltados ao mercado interno passaram a sentir os golpes da persistente continuidade da austeridade monetária.
Em outras palavras, o ambiente de produção e transações não conseguiu escapar da fúria dos juros descomunais, cobrados pelas instituições financeiras de consumidores e empresas, facilitada pela diminuta concorrência bancária e viabilizada pela fixação e preservação da taxa Selic nas alturas pela autoridade monetária.
O pior é que a justificativa de utilização de doses cavalares de Selic, em nome do combate à inflação de demanda, não resiste à observação do arrefecimento da curva de reajustes de preços, ocasionado pelo impacto negativo de commodities alimentares e energéticas e da cotação do dólar.
No fundo, a prescrição dos juros, sugerida, ao menos na retórica, como mecanismo dirigido à reversão da explosão dos gastos públicos – para suprimento de demandas nobres, como as iniciativas inclusivas, e outras nem tanto, como aquelas destinadas a cobertura das emendas clientelistas dos parlamentares e os repetidos abusos do judiciário – atende somente aos anseios do rentismo na promoção do desalinhamento da matriz de preços relativos, em favor da secular concentração de renda.
Tanto que, com tal performance, o ritmo expansivo médio brasileiro declinou de 3,2% ao ano, entre 2022 e 2024 (1,4% a.a., durante o liberalismo de botequim de 2019-2022), contra 3,4% a.a., em escala global, para 3,0% a.a., entre 2023 e 2025, ante 3,3% a.a., para a economia internacional, o que consolida a coincidência dos movimentos de recuperação cíclica.
Contudo, parece prudente argumentar que, malgrado as imponderáveis e incontroláveis pressões importadas, engrossadas com os ataques aéreos conjuntos de EUA e Israel ao território do Irã, com fortes e esparramados ruídos sobre os demais estados do Oriente Médio, predominam limitações internas à sustentação intertemporal da presente etapa expansiva, preponderantemente a apressada deflagração renovada de embates políticos condicionados pela hiperpolarização.
Na ausência de oferta de opções moderadas ou de diálogos sérios no âmbito do centro democrático, focados na construção de acordos democráticos, sobrará a comunicação da idolatria aos mitos, ocupada com o cumprimento de objetivos meramente eleitorais e avessa à formulação, explicitação e discussão política de plataformas de longa maturação.
Portanto, sem negociações e entendimentos, de caráter plural, com menos contendas e mais acordos, mirando a edificação de diretrizes gerais e objetivos específicos de um programa de desenvolvimento contemporâneo, despojado de radicalismos ideológicos, a dinâmica econômica do país persistirá subordinada ao efêmero voo de galinha.
Em circunstâncias de flagrante fragilidade da onda de crescimento ininterrupto, acontecido nos últimos cinco anos, apoiada no modelo de estímulo ao consumo privado, com benesses públicas, e às exportações de comodities, mesmo com a visível abdicação de geração de maior valor agregado nas vendas externas, em detrimento da variável investimento, a perda de altitude do voo começa a incomodar policy makers, mercados e agentes políticos.
Em uma perspectiva progressista emerge a necessidade de preparação de propostas de soluções de questões estruturais que permitam o aprofundamento da diminuição das desigualdades na apropriação do produto social, e a inserção externa em fase com a revolução tecnológica ditada pela multiplicação da inteligência artificial, centro nevrálgico dos ganhos de eficiência.
Igualmente importante seria o desmanche de lambanças tributárias, a derrubada de reservas de mercado desnecessárias, o tratamento adequado do fechamento da janela demográfica, a transição energética, o enfrentamento das mudanças climáticas e da deterioração ambiental e a restauração da funcionalidade operacional e financeira do estado.
Em não sendo isso feito, a população brasileira estará inexoravelmente condenada ao crescente sofrimento e a agonia engendrados pela síndrome da renda média que, dentre outros malefícios, serve à perpetuação da concentração de renda e patrimônio em poder das elites, suficientemente representadas na defesa de bandeiras conservadoras voltadas à manutenção do status quo.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








