Estatais federais: poço sem fundo de ineficiência

Gilmar Mendes Lourenço.
As companhias públicas controladas pela União amargaram prejuízo de R$ 4,16 bilhões, no primeiro bimestre de 2026, o maior da série histórica levantada pelo Banco Central (BC), desde 2002, suplantando em quase 50% a performance igualmente negativa verificada no mesmo período de 2025, e ficando apenas 18% abaixo do rombo de R$ 5,1 bilhões, apurado para todo o ano anterior.
Pela ótica da categorização, fazem parte do cálculo empresas importantes como Correios, Infraero, Serpro, Dataprev, Emgepron, Hemobrás e Casa da Moeda, e ficam de fora as três agências financeiras (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES) além da Petrobrás.
Trata-se, sem dúvida, do delineamento de um cenário de intensificação da tendência de deterioração das condições financeiras das empresas estatais federais, que, a julgar pela negação de aceite de sugestões consistentes acerca da inevitabilidade de privatizações daquelas cronicamente deficitárias, deve catapultar o endividamento global do setor público, que alcançou o patamar recorde de 79,2% do produto interno bruto (PIB), em fevereiro de 2026, conforme levantamento do BC.
O problema mais dramático e emblemático repousa nos Correios que somou déficit de R$ 6 bilhões, no acumulado entre os meses de janeiro e setembro de 2025, e segundo estimativas de profissionais especializados em finanças corporativas deve estourar o teto de R$ 9 bilhões, no exercício fechado.
Não por acaso, em dezembro de 2025, a entidade recorreu a um empréstimo de R$ 12 bilhões, obtido junto a um consórcio de instituições financeiras públicas e privadas, com chancela do Tesouro Nacional, destinado ao pagamento de passivos e a sustentação do fluxo de caixa.
Considerando a frustrante entrada de recursos com a comercialização de imóveis, cerca de R$ 11 milhões, ante previsão de R$ 1,5 bilhão até 2027, serão necessárias captações de mais R$ 8 bilhões de capitais de terceiros, em 2026, em idênticas condições ou, em outras palavras, avalizadas pela Coroa.
Até porque, mesmo abrandando a conjuntura desfavorável, a injeção de haveres não foi capaz de ensejar avanços em outras frentes de dificuldades. O Programa de Desligamento Voluntário, que objetivava enxugar mais de 12% do encorpado quadro de pessoal (10 mil de 80 mil), teve somente 3.075 adesões, o que enfraquece o desejo de drástica diminuição dos custos fixos. Sem contar o silêncio sepulcral quanto à revisão dos generosos planos de previdência e de saúde dos colaboradores.
O que se vê é absoluta ausência de iniciativas ousadas na direção da melhoria da produtividade, por meio do emprego de modelos contemporâneos de gestão, proliferação da utilização de procedimentos digitais, modernização da pulverizada rede de distribuição, dentre outros aprimoramentos.
O mais gritante, porém, é que a fragilização do desempenho financeiro das empresas sob o domínio do poder central, algumas das quais não faz sentido sequer a existência, em tempos de premência de implantação de arranjos flexíveis ditados pela quarta revolução industrial (processos digitais, robótica e inteligência artificial), coincide com a destruição ou afastamento de paradigmas de gerenciamento eminentemente técnicos.
Pior ainda, a administração amparada em critérios científicos deu lugar ao vergonhoso aparelhamento partidário, em linha com a premência de atendimento alargado de desejos políticos brotados da verdadeira metamorfose do presidencialismo de coalização, instaurado com a Constituição de 1988, em parlamentarismo de extorsão.
Nesse novo arcabouço republicano, governantes ocupados exclusivamente com as próximas eleições são tragados por um legislativo fortalecido – operante em blocos, sendo a serventia das agremiações partidárias restrita ao abocanhamento dos recursos dos fundos e correspondente distribuição aos escolhidos -, sedento pela crescente participação no rateio de cargos de primeiro e segundo escalão, incluindo a autêntica invasão dos redutos das estatais.
Com isso, conforma-se um círculo vicioso de preservação de empresas de eficiência na melhor das hipóteses discutível, acéfalas à tomada de atitudes modernizantes e encarregadas da feitura de coisas que a comunidade privada faria melhor, em matéria de qualidade, otimização de custos e dinâmica decisória de investimentos, como em projetos navais, hemoderivados, software e cédulas ou moedas.
Daí que a sobrevida desse painel depende crucialmente da proteção de articulações políticas promíscuas, que encampam o universo de caciques alheios a patrulhamentos ideológicos, bancada, em última instância, pelo contribuinte da maior carga de impostos, taxas e contribuições dentre as nações classificadas como de renda média.
Paradoxalmente, isso acontece em um momento de agravamento da vulnerabilidade das contas governamentais, explicado pela conjugação perversa entre expansão fiscal e juros estratosféricos cobrados pela turma da bufunfa acomodada na rolagem da dívida pública.
Em tempo. Vida longa ao BB, Caixa, BNDES e Petrobras, que, desde a aprovação da Lei das Estatais, em 2016, vem conseguindo resistir aos inúmeros desmandos políticos e restaurar gradativamente o comportamento gerencial de empresas públicas.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








