Endividamento, juros altos e guerra dos EUA freiam crescimento das vendas para o Dia das Mães

Projeção de faturamento chega a R$ 14 bi, crescimento de 1,5% na segunda data mais importante do varejo brasileiro
A estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) para o volume de vendas do comércio voltado para o Dia das Mães aponta que o montante vai atingir R$ 14,47 bilhões em 2026. Caso confirmada a projeção, o setor apresentaria avanço de 1,5% em relação ao faturamento observado na mesma data do ano passado. A pesquisa foi divulgada nesta quarta-feira (6).
No entanto, mesmo diante de condições favoráveis do mercado de trabalho e da desaceleração da inflação, outros fatores travam o que poderia ser um maior crescimento do volume de vendas para a data. Essa diminuição se dá pelo contínuo encarecimento do crédito, pelo avanço significativo do endividamento das famílias (ambos puxados pela alta Selic de 2025, que começou a ser reduzida em março, mas ainda não atingiu o índice necessário para a retomada do consumo em melhores patamares) e pelo cenário internacional de incertezas políticas e econômicas geradas pela guerra dos Estados Unidos com o Irã.
“O Dia das Mães é considerado o Natal do primeiro semestre do varejo brasileiro e a segunda data comemorativa mais relevante do calendário do comércio nacional, o que gera grande expectativa do setor”, afirma o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.
O dirigente, porém, mantém cautela. “Embora o setor apresente um avanço quando comparado com 2025 e a previsão de mais de 25 mil trabalhadores temporários, é preciso observar com cuidado o ritmo de crescimento do varejo nos próximos meses. A alta do combustível, com os reajustes que ela traz, e a revisão das projeções de menor queda para a taxa Selic trarão cautela em todos os setores da economia”, analisa Tadros
Vestuário e cosméticos puxarão as vendas
Os setores relacionados à moda (vestuário, calçados e acessórios), juntamente com farmácias, perfumarias e lojas de cosméticos respondem, novamente, por mais da metade da fatia das vendas. A previsão de faturamento dos setores em 2026, quando somadas, é de R$ 8,94 bilhões.
Por outro lado, a sazonalidade não se restringe apenas às vagas de trabalho abertas para a data, com previsão de contratação de mais de 25 mil trabalhadores temporários. Segmentos historicamente dependentes das condições de crédito, como os bens duráveis (móveis e eletrodomésticos, utilidades domésticas, informática e comunicação), deverão experimentar retrações nas vendas em comparação com a mesma data do ano passado.
“A deterioração das condições de crédito elevou os índices de inadimplência e endividamento, o que explica por que ramos dependentes de algum tipo de financiamento devem registrar retração de 4,4% nas vendas na comparação entre a atual edição do Dia das Mães e a última”, destaca o economista-chefe da CNC, Fábio Bentes.
“Atualmente, a taxa média de juros de 62% ao ano se encontra no maior patamar desde 2017 para esta época do ano o que, somado às incertezas de uma melhoria nas condições financeiras da população, acaba inibindo um investimento maior em contratações e, por assim dizer, o desempenho do varejo na data”, explica Bentes.
Endividamento freia impulso nas compras
Em março deste ano, o percentual de famílias que relataram ter dívidas a vencer chegou a 80,4%, superando o resultado do mesmo mês do ano passado (77,1%) e renovando o maior endividamento da série histórica, iniciada em 2010. De forma semelhante, o percentual de famílias com contas em atraso (29,6%) está acima do registrado no mesmo período do ano passado (28,6%). “Com menos recursos disponíveis para gastos não essenciais, o comércio sofre”, complementa Fabio Bentes.








