Supermercados enfrentam nova pressão sobre margens mesmo com alívio parcial nos preços

Supermercados enfrentam nova pressão sobre margens mesmo com alívio parcial nos preços

Recorde no varejo não elimina pressão sobre margens em um setor que agora lida com consumidor mais racional, crédito caro e operação mais complexa

Mesmo quando alguns preços de alimentos mostram desaceleração em relação aos picos recentes, o varejo supermercadista brasileiro está longe de respirar aliviado. Dados do IBGE mostram que o grupo Alimentação e bebidas subiu 0,82% em abril, mantendo pressão sobre o orçamento das famílias. Em paralelo, a Pesquisa Mensal do Comércio do próprio instituto aponta que o varejo nacional avançou 0,5% em março e atingiu novo recorde da série histórica, indicando que atividade econômica e rentabilidade nem sempre caminham na mesma direção. O resultado é um consumidor mais seletivo, menos previsível e mais sensível a qualquer oscilação de preço, justamente em um setor conhecido por operar com margens historicamente apertadas.

Para Márcio Goulart, especialista em gestão de supermercados e porta-voz da Meta Contabilidade, a natureza da pressão mudou. Se nos últimos anos o foco estava no repasse da inflação e no aumento do custo da cesta básica, agora o desafio está em manter rentabilidade em um ambiente de consumo mais racionalizado, juros elevados, exigência crescente por eficiência operacional e maior complexidade tributária.

“Existe uma leitura equivocada de que, se alguns preços começam a aliviar, automaticamente a operação melhora. Não funciona assim. O consumidor continua pressionado financeiramente, compra com mais cautela, reduz volume, troca marcas e distribui as compras ao longo do mês. Enquanto isso, a operação segue convivendo com custos financeiros altos, exigências fiscais complexas e necessidade de resposta rápida. A conta ficou mais sofisticada”, afirma Goulart.

O movimento representa uma inflexão importante para o setor. Durante os períodos de inflação mais intensa, o varejo alimentar lidava com a dificuldade de absorver aumentos de custos e calibrar os repasses sem afastar o consumidor. Agora, parte do desafio está na desaceleração de determinados itens sem que isso represente recuperação automática do consumo ou da margem.

O desempenho recente do varejo ajuda a mostrar essa contradição. Embora o comércio siga demonstrando resiliência, crescimento de atividade não necessariamente se traduz em ganho proporcional de margem, especialmente em segmentos de alta competitividade e forte sensibilidade a preço, como o supermercadista.

Novo comportamento de consumo desafia a previsibilidade

Uma das transformações mais relevantes está no comportamento das famílias. Com orçamento doméstico ainda pressionado e um ambiente de crédito mais restritivo, a ida ao supermercado deixou de seguir padrões mais lineares.

Na prática, cresce o comportamento de compras fragmentadas, com consumidores optando por visitas mais frequentes e tickets menores, aproveitamento de promoções pontuais, substituição de marcas tradicionais por opções mais acessíveis e migração estratégica entre canais como supermercados de bairro, atacarejo e varejo digital.

Para Goulart, essa mudança exige um novo nível de inteligência operacional. “A previsibilidade caiu. O consumidor compara mais, reage mais rápido a preço e busca alternativas com muito menos fidelidade do que em ciclos anteriores. O supermercadista que continua tomando decisão com base apenas em histórico de vendas ou percepção empírica corre risco real de errar precificação, estoque e planejamento.”

A pressão ganha força porque, diferentemente de outros segmentos, o varejo alimentar depende de giro constante, controle fino de abastecimento e margens reduzidas, o que torna qualquer distorção operacional mais sensível.

Juros altos mudam a lógica do consumo

O ambiente macroeconômico amplia essa complexidade. Com a taxa Selic em 14,75% ao ano, o custo do dinheiro continua pressionando empresas e consumidores, limitando a capacidade de consumo e reduzindo espaço para decisões menos planejadas.

Mesmo consumidores empregados ou com renda estável passaram a reorganizar hábitos de compra diante do custo do dinheiro. O impacto não aparece apenas no consumo de bens duráveis. Ele se espalha para decisões cotidianas, inclusive alimentação.

“Quando o crédito fica caro, o orçamento doméstico muda de prioridade. O supermercado passa a disputar espaço com parcelas, renegociação de dívidas, custos financeiros e outras obrigações fixas. Isso altera comportamento, frequência de compra e sensibilidade a preço. Quem opera no setor precisa entender que a concorrência não é apenas com outro supermercado. É com a realidade financeira do consumidor”, explica.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que redes que mantêm volume de vendas ainda podem enfrentar deterioração de rentabilidade se não houver ajustes estruturais.

Problema nem sempre está na venda

Na avaliação do especialista, um dos erros mais recorrentes no setor está em interpretar faturamento como sinônimo de saúde operacional.

“Supermercado pode aumentar venda e, ainda assim, perder dinheiro. Isso acontece quando a margem está mal calibrada, quando existem rupturas frequentes, desperdício, compras mal negociadas, crédito tributário subaproveitado ou despesas operacionais crescendo sem controle. O varejo alimentar exige gestão extremamente técnica porque pequenas falhas se multiplicam rapidamente.”

Entre os pontos mais críticos, ele cita:

  1. erros de precificação;
  2. falta de integração entre fiscal, financeiro e operação;
  3. baixa visibilidade sobre rentabilidade real por categoria;
  4. estoques desalinhados com a demanda;
  5. desperdício operacional;
  6. gestão reativa diante de oscilações de consumo.

Segundo Goulart, a sofisticação da gestão deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser requisito básico.

Reforma tributária adiciona nova camada de pressão

Ao mesmo tempo em que o setor tenta se adaptar ao novo comportamento do consumidor, uma transformação estrutural avança no ambiente regulatório.

Com a regulamentação operacional da CBS e do IBS ganhando corpo, supermercadistas acompanham com cautela os impactos sobre precificação, aproveitamento de créditos fiscais, fluxo de caixa e estrutura contábil.

Embora a simplificação tributária seja apresentada como objetivo central da reforma, a fase de transição deve exigir revisão profunda de processos internos.

“O varejo alimentar trabalha com volume alto, margens apertadas e sensibilidade extrema a preço. Qualquer erro de parametrização tributária, falha de interpretação ou atraso na adaptação pode gerar distorções relevantes. Essa discussão não pertence apenas ao jurídico ou ao contador. Ela precisa estar na mesa da gestão estratégica”, afirma o especialista.

A preocupação é que empresas sem preparação técnica acabem absorvendo perdas operacionais justamente em um momento em que a capacidade de repasse ao consumidor continua limitada.

Varejo alimentar entrou em uma nova fase

Na visão de Goulart, o setor atravessa uma mudança mais profunda do que uma oscilação conjuntural.

“O supermercadista brasileiro sempre foi resiliente, mas o ambiente mudou. Hoje, vender bem não basta. É preciso entender a margem real, comportamento do consumidor, impacto tributário, custo financeiro e eficiência operacional ao mesmo tempo. Quem não desenvolver essa capacidade pode até manter movimento nas lojas, mas perder competitividade silenciosamente.”

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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