Setor de calçados discute cenários da economia para 2015

 Hélio Henkin: existem indicativos importantes de redução no dinamismo dos mercados.
Hélio Henkin: existem indicativos importantes de redução no dinamismo dos mercados.

A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) promoveu, na noite desta quarta-feira (5), o Workshop Análise de Cenários 2015. O evento, que aconteceu na sede da entidade, em Novo Hamburgo/RS, contou com apresentações dos cenários para macroeconomia, mercado internacional e varejo de calçados. A primeira palestra foi do economista e diretor da Faculdade de Ciência Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Hélio Henkin, que teceu uma análise das perspectivas da macroeconomia para 2015. “Com o pleito definido, o cenário fica mais fácil de ser analisado do que há meses atrás, porém ainda existe uma dúvida muito importante e decisiva de quem assumirá o Ministério da Fazenda”, disse.

Para o economista, apesar da projeção de aceleração do PIB mundial para 2015, com crescimento revisado de 3,6% para 4% pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), existem também indicativos importantes de redução no dinamismo dos mercados. “O possível aumento na taxa de juros dos Estados Unidos pode ter efeito importante na liquidez do mercado, o que pode afetar o crescimento do PIB mundial”, destacou. Ele citou, ainda, alguns países que devem crescer mais do que a média no próximo ano. Entre os desenvolvidos, destaque para Estados Unidos, Reino Unido e Canadá. Já entre os países em desenvolvimento, China, Índia, Colômbia, Emirados Árabes, Chile e Peru devem crescer acima da média mundial. Já os crescimentos mais baixos devem acontecer na Zona do Euro, Japão, Argentina, Brasil, Rússia e África do Sul.

Por outro lado, o economista apontou um horizonte que pode ser mais positivo, já que a economia mundial se encaminha para um ciclo de possível reaceleração. Para o Brasil, o crescimento em 2015 deve ser de 2%, conforme o FMI. Para Henkin, o Brasil tem desafios importantes, mas pode crescer especialmente com as perspectivas de gastos públicos elevados, o que estimula a economia, exportações em alta puxadas pelo crescimento mundial e também pela possível desvalorização cambial. Já entre as perspectivas mais negativas, está a limitação do crescimento baseado no consumo e transferência de renda que, conforme o economista, será um “grande desafio para as equipes de marketing das empresas brasileiras”. “O consumo não deve continuar sendo a locomotiva do crescimento, o que deve tornar a concorrência mais acirrada”, projetou.

Embora o Brasil adote um política de câmbio flutuante, segundo Henkin, é preciso identificar a faixa da moeda americana frente ao real para traçar as estratégias de exportações. O economista ressaltou que existem fatores de alta, como a perspectiva de elevação da taxa de juros nos Estados Unidos, a redução do investimento estrangeiro no Brasil, a redução do superávit comercial e a taxa de inflação em elevação. Já entre os fatores que podem conter a valorização da moeda americana está o uso de reservas de operações cambiais por parte do Banco Central do Brasil. “Acredito que os fatores de alta estejam sobrepujando os de contenção. No próximo ano a variação deve ser entre R$ 2,30 e R$ 2,50”, disse.

Para o setor calçadista, as projeções de terminar 2014 com US$ 1,06 bilhão em exportações e US$ 580 milhões em importações, demonstram uma tendência de melhora na balança comercial do setor, o que deve continuar em 2015.

Henkin destacou que o ano de 2014 foi de queda nos indicadores, desde o varejo até a exportação de calçados, o que afetou severamente os níveis de produção do segmento. Segundo ele, ao longo do ano os preços para o produtor aumentaram mais do que os preços para o consumidor, o que demonstra que o aumento foi absorvido pelo setor produtivo. Já para o próximo ano, o economista ressaltou uma possível reaceleração do mercado calçadista, bem como de toda a economia brasileira. “Será um ano de ajustes e acredito que a equipe econômica tenha ciência do que precisa ser feito para gerar uma reaceleração no mercado”, concluiu Henkin.

Na sequência aconteceu a palestra do gerente executivo de Inteligência Comercial e Estratégia de Mercado da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Marcos Lélis, que falou sobre as oportunidades e ameaças do comércio internacional para o Brasil. Primeiramente, Lélis ressaltou que a dependência dos calçadistas dos mercados norte-americanos e argentino está em declínio, o que pode ser positivo, já que ambos diminuíram suas importações. “Desde 2007, tanto os Estados Unidos como a Argentina vêm diminuindo suas compras de calçados brasileiros, o primeiro com 20% de queda média anual e o segundo com 5,5% de queda anual. Como quase metade das exportações brasileiras de calçados tinham como destinos esses dois países, eles acabaram puxando os indicadores para baixo. Os outros países, por outro lado, aumentaram as compras de calçados do Brasil”, disse.

Para Lélis, além de diminuir a dependência, pulverizando as exportações especialmente para mercados potenciais, como Colômbia, Chile, Peru, China, Rússia, entre outros, o calçadista deve apostar na concorrência por valor agregado e marca, fugindo da concorrência no preço, onde os asiáticos são imbatíveis.

Lélis demonstrou, em gráficos, que as exportações de calçados de couro vêm caindo, ao passo que a de chinelos e injetados aumenta nos últimos anos. “Em 2008, a fatia das exportações de calçados de couro era de 69%, ano passado ficou em 47%. Já a fatia dos chinelos aumentou de 11% para 22%. Vocês sabem por quê? Marca! Tem uma marca que vende chinelos a mais de 25 euros na Europa”, provocou.

Para 2015, o executivo projetou um cenário de melhora, com “tombo menor do que em 2014”. Prevendo que, neste ano, as exportações de calçados caiam 2,2% em receita com relação ao ano passado, Lélis prevê uma queda menor, de 1,7% em 2015. “Pode ser até que a queda estanque, pois existe uma tendência de reaceleração. Acredito que o pior já passou, mas os calçadistas precisam, além de apostar em produtos com maior valor agregado e manter o nosso mercado forte aqui na América do Sul, passar a olhar outros mercados potenciais”, aconselhou Lélis.

Tendências para o varejo brasileiro de calçados foi o tema da palestra de Gustavo Campos, pesquisador e diretor da Focal Pesquisas. Provocativo, Campos disse que as empresas precisam “aprender a caçar” e que para isso, é preciso “estar com fome”. “Parece que o cenário tem que piorar mais para as empresas melhorarem”. Para o pesquisador, é preciso que o empresário saia da zona de conforto. “O próximo ano será de ajustes e vai ser preciso melhorar a cada dia”, destacou.

Por outro lado, ele apresentou alguns indicadores que podem ser encarados como positivos para o varejo, como a queda no nível de endividamento. Em setembro, o endividamento era de 63,1% dos consumidores, número que caiu para 60,2% em outubro. Já a fatia de pessoas que disseram não ter condições de pagar caiu de 5,9%, em setembro, para 5,4% em outubro. “Existem ajustes de nível governamental que precisarão ser feitos, mas existem ajustes em nível de indivíduos que já vêm acontecendo”, disse Campos.

Para o pesquisador, a indústria deve apostar no varejo multiformato e customizado, mantendo suas marcas relevantes. “Criar conexões emocionais é fundamental”, acrescentou, usando como exemplo o grande sucesso contemporâneo dos produtos artesanais. “O nosso calçado é artesanal, fazemos quase tudo à mão, mas precisamos contar essa história. Outro ponto é a nostalgia, que dá segurança e cria um laço emocional importante”, listou, citando apenas alguns dos desafios empresariais para o próximo período, que será de ajustes econômicos, mas que deve ser também de mudanças culturais no âmbito das empresas.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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