Por que a reforma da Previdência se tornou a reforma da discórdia?

Por que a reforma da Previdência se tornou a reforma da discórdia?

Há tempos o mercado vem precificando uma reforma da Previdência para o nosso regime público. Podemos dizer que desde Fernando Henrique, passando por Lula e Dilma e, mais recentemente, por Michel Temer, esse assunto esteve em pauta em algum momento durante os seus mandatos.

Porém, por mais debatido que foi, o tema não chegou a evoluir, hora por descuido da base, hora por ser muito impopular para determinado momento, ou hora ainda por ter baixa adesão da opinião pública. Desculpas não faltaram ao longo desses anos, o que nos levou ao atual abismo fiscal que estamos vivendo.

Embora já explanados de maneira exaustiva, os números desse cenário é que nos recordam do senso de urgência do assunto. O rombo fiscal causado pela Previdência em 2018 chegou a mais de 290 bilhões de reais, somando o INSS e RPPS (Regimes Próprios dos Servidores Públicos da União), o que significa um déficit 8% maior do que o registrado em 2017, finalizando o pior resultado da série histórica no Brasil.

Junto a esse panorama, soma-se ainda a tendência de piora desses dados ano após ano. Segundo o próprio governo, o déficit primário do ano passado foi de 120 bilhões de reais, quinto ano consecutivo desse resultado ruim. Assim, como um País que busca estabilidade fiscal, é evidente que não conseguimos mais seguir da mesma forma e, justamente por isso, a reforma da Previdência é tão essencial para esse novo ciclo político que se iniciou após as eleições.

No entanto, mesmo diante de números tão claros, por que a aprovação da reforma é tão difícil? Por que a votação no Congresso a na Câmara parecem tão distantes?

Na segunda quinzena do mês de março tivemos uma forte demonstração de como a política e as disputas de poderes influenciam na volatilidade do mercado financeiro. Até o dia 20/03 o Ibovespa estava acumulando uma alta de 2,57% e, na mesma semana, após declarações divergentes do governo, de partidários e, principalmente, de Rodrigo Maia, chegamos no dia 22/03 com uma perda acumulada de – 1,93%, ou seja, uma variação de mais de 4,5% em apenas dois dias.

Isso demonstra como nós brasileiros estamos suscetíveis a essa disparidade de ideias em relação a economia futura do País. Nessa turbulenta semana de oscilação, por exemplo, a governabilidade do atual presidente foi testada e, infelizmente para ele e para aqueles que o apoiam, ficou evidente que o homem com o poder atualmente no Brasil chama-se Rodrigo Maia. O presidente da Câmara ameaçou sair da articulação da reforma da Previdência e deixar que o presidente e seus ministros tomassem o rumo dessa negociação com a casa legislativa. Além disso, ainda tivemos a declaração do ministro da economia, dizendo que pode deixar o governo se entender que seus esforços não são de mais valia para o Brasil. Resultado: volatilidade, oscilação e susto no mercado.

A habilidade de estancar a crise política foi posta à prova nos dias seguintes aos episódios. Houveram conversas envolvendo o presidente Jair Bolsonaro, Rodrigo Maia, Onix Lorenzoni, o próprio Paulo Guedes e até Sérgio Moro, e dessas conversas todas vieram anúncios de paz, de conflitos resolvidos, páginas viradas e fotos estampadas nos jornais, com o claro intuito de demonstrar que as divergências haviam ficado para trás e que de agora em diante haveria uma sinergia maior para que a reforma fosse melhor trabalhada e, consequentemente, aprovada.

Aliás foi designado que o próprio Paulo Guedes tomaria a frente da articulação política para a aprovação da PEC e que Rodrigo Maia lhe daria apoio. Com isso, quase que de imediato tivemos uma recuperação do mercado e a bolsa fechou março com um negativo de apenas – 0,18%.

Por outro lado, creio que ainda não temos o cenário perfeito para que a reforma ande sem mais problemas. Isso porque esses últimos acontecimentos deixaram a mostra a falta de sinergia entre os poderes e nos mostraram o quão frágil é, e pode ser ainda mais, essa democracia que estamos vivenciando no início desse novo governo. O Brasil tem um regime presidencialista e precisa de apoio nas casas que compõem o poder legislativo para que o País caminhe.

De uma maneira geral, o ambiente político já esteve mais calmo, mas nada que assuste e acabe afastando a possibilidade da reforma ser aprovada de alguma maneira. O que esperamos é que venham novas articulações, novas conversas, extensas negociações e tudo o que já vimos funcionar tantas outras vezes nesse mundo obscuro chamado política para resolver o entrave que nos encontramos.

O que precisa ser feito agora não é voltar a velha política, como dizem de maneira generalizada, e nem taxar que a política é negativa, seja ela nova, velha, antiga ou ultrapassada. O Brasil precisa de uma reforma nova para que possamos ter um horizonte promissor e aproveitarmos da melhor maneira possível a nossa velhice.

O artigo foi escrito por Rodrigo Franchini (foto), que é head de produtos da Monte Bravo, empresa de assessoria de investimentos que figura entre as três principais do país.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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