Por dentro da diminuição da nota de crédito brasileira pela S&P

Gilmar Mendes Lourenço.

Ao sacramentar nova piora na avaliação financeira do Brasil, a agência internacional de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) corroborou a sinalização de possibilidade de calote da dívida soberana e o diagnóstico de escolha arriscada do País para aplicação de excedentes por parte dos entes corporativos de fora. Apesar da precificação de uma nota menor, realizada pelos mercados, a decisão pode atrapalhar o encaixe do País na zona de conforto da recuperação da economia mundial e a consolidação da estabilidade macroeconômica doméstica, amparada no controle da inflação, queda dos juros e reação do mercado de ocupações.

Mais precisamente, o rebaixamento da nota de crédito brasileira, por aquela entidade, do conceito BB para BB-, deixa a nação ainda mais distante da reconquista do grau de investimento, uma espécie de passaporte para o acesso de empresas privadas e estatais, por aqui atuantes, às linhas de crédito abundantes e baratas, disponíveis no mercado financeiro externo, e a captura de recursos de investidores institucionais, em escala planetária.

Frise-se que a S&P foi a primeira companhia de rating, entre as três mais importantes (Fitch e Moody´s são as outras duas) a conceder o selo de bom pagador ao Brasil, em 2008, e retirá-lo, em fins de 2015, por ocasião da flagrante deterioração das finanças públicas, constatada durante a administração da presidente Dilma Rousseff.

De forma bastante polida, até para não ofuscar os reconhecidos resultados positivos, produzidos pela economia nacional no já mencionado terreno do controle da inflação e da diminuição dos juros, com discretos desdobramentos no reerguimento do ciclo de negócios e do mercado de trabalho, a S&P imputou a redução da nota à morosidade na concretização do esforço de reequilíbrio das contas públicas e à postergação dos trâmites de aprovação da reforma da previdência para fevereiro de 2018.

Decerto a avaliação negativa deriva essencialmente da continuidade do crônico descalabro na gestão fiscal do governo, amargando déficit primário, nominal e dívida líquida e bruta (união, INSS, executivos estaduais e municipais) de 2,3% do produto interno bruto (PIB), 8,5% do PIB, 51,1% do PIB e 74,4% do PIB, respectivamente, bastante acima da linha média dos países emergentes. Ressalte-se que, pelos critérios de mensuração utilizados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o endividamento bruto estaria em 82,0% do PIB.

Porém a influência mais relevante corresponde ao fato de que, mesmo tendo recebido uma herança fiscal desconfortável, a administração Temer agravou as restrições de fluxo de caixa ao superestimar a subida das receitas públicas, conceder generosos e generalizados reajustes salariais aos servidores federais e não avançar, de forma significativa, no programa de privatizações, concessões e parcerias público-privadas.

A propósito desse último ponto, estudo da consultoria Roland Berger estima potencial de ingresso de até R$ 500,0 bilhões, nos cofres do executivo federal e estados, em caso de venda de participações em 168 companhias públicas e 109 subsidiárias. Cerca de 71,0% das cifras correspondem a ativos pertencentes à União e 29,0% às instâncias subnacionais.

Adicionalmente, após o escândalo surgido com a delação da JBS, a agenda reformista foi trocada pela priorização do salvamento do mandato presidencial, expressa em renúncias fiscais, barganha de votos e agrados aos parlamentares, pauperização do redesenho do aparato previdenciário – cujo orçamento representa quase 14,0% do PIB, com rombo de mais de R$ 250,0 bilhões, ante 6,0% do PIB e 4,5% do PIB endereçado à educação e saúde, respectivamente – e aceno de abrandamento da regra constitucional que impede a cobertura de dispêndios correntes por meio da contratação de novas dívidas o que, na prática, configura tentativa de legitimação de pedaladas fiscais.

Ademais, o predomínio da ausência de perspectivas de reversão do caos fiscal, em curto e médio prazo, repousa no acréscimo de novas cenas ao roteiro do espetáculo de instabilidade política e institucional, estrelado por um governo que, desde o seu nascedouro, não governa – é governado pelo legislativo e judiciário e respectivos interesses corporativos representados – e do protagonismo de posições e discursos extremados, e pouco consistentes, nas preferências eleitorais captadas, até aqui, pelos institutos de pesquisa, ensejando a conformação da falsa impressão de inviabilidade de saídas não traumáticas.

É prudente admitir que a inversão da marcha ascendente do desequilíbrio fiscal passa pela impulsão da arrecadação tributária, baseada na retomada sustentada dos níveis de atividade, e repressão do gasto público, ancorado na aplicação do teto estipulado pela constituição e na implementação das modificações institucionais. Do contrário, o perigo de recidiva recessiva estará sempre presente.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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