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Vitória de Bolsonaro e saída do esconderijo

É quase generalizado o diagnóstico de que a sociedade brasileira escolheu, mais uma vez, alguém despreparado para a complexa tarefa de condução dos destinos políticos do país no exercício das funções de chefe de governo e Estado. Tal anomalia é reconhecida por parcela expressiva do próprio eleitorado do deputado federal e ex-capitão do exército Jair Bolsonaro.

Na verdade, ao protagonizar não poucas encrencas com certos adversários na câmara dos deputados – na busca de ocupação, de forma espetaculosa, dos flagrantes vazios constatados no debate dos assuntos de segurança e educação, na casa de leis – aquele que tempos depois se transformou em postulante ao cargo de mandatário nacional não economizou palavras ou gestos para demonstrar pouco apreço pelos ditames democráticos, defender a lógica da ditadura militar e da tortura e revelar posição preconceituosa contra mulheres, negros, homossexuais, índios, dentre outros atores sociais.

A justificativa para o aparente paradoxo resumido na vitória eleitoral de alguém desprovido de propostas sistematizadas, precisas e críveis repousa no aprofundamento do emprego de uma retórica raivosa, contrária ao comportamento adotado pelo ex-presidente Lula, seus prepostos e respectivas equipes, durante mais de treze anos de administração do executivo federal, capitaneada pelo partido dos trabalhadores (PT), que, sob a nuvem do alargamento dos programas oficiais de transferência de renda, esboçados e aplicados desde 1994, escondeu verdadeiros assaltos ao caixa das empresas estatais e às peças orçamentárias.

Depois de andar no vácuo das manifestações de insatisfação populares brotadas em 2013, que atingiram o ápice com a precipitação do impeachment da presidente Dilma e a surra eleitoral levada pelo PT no pleito municipal de 2016, Bolsonaro passou a defender, de forma veemente, a intenção de interrupção do projeto de ruína econômica e social conduzido por aquela aliança hegemônica de poder.

Para tanto, contou com a colaboração da deterioração da imagem da classe política junto à população, sintetizada no envolvimento direto no adensamento e multiplicação da corrupção, e, especificamente no enfraquecimento das agremiações de oposição tradicionais que, apesar de consideradas mais responsáveis, não lograram êxito na explicitação de plataformas claras e consistentes para a superação dos embaraços econômicos e políticos que atingem a nação.

Eleito com 57,8 milhões de votos dos brasileiros, contra os 47,0 milhões conquistados por seu oponente, Bolsonaro terá que render-se às evidências de diferença entre o conjunto de ingredientes subjacentes a uma campanha eleitoral – marcada, nesse caso, pela intensa utilização das redes sociais e o escape de debates que oportunizaram o conflito de ideias e o confronto de opiniões – e os elementos requeridos para a fixação de prioridades e execução de ações de governo, visando ao enfrentamento e superação da instabilidade política e econômica, ainda instalada por aqui.

Porém, a grande barreira para a saída da encruzilhada eleitoral e o seguimento das trilhas das iniciativas de tomada de decisões reside na ausência de um plano articulado, por parte do presidente eleito, e no caráter genérico e/ou impreciso das proposições levantadas durante o período de garimpagem de simpatizantes e, notadamente, votos.

O mais grave é que, em distintos momentos, o candidato foi forçado a desautorizar algumas colocações feitas por seus assessores mais próximos, especialmente nos terrenos tributário, privatizações e garantias sociais, precisamente quanto à ressurreição da CPMF, vendas de estatais estratégicas e questionamento da existência do décimo terceiro salário e terço de férias para os trabalhadores.

Logo, considerando que o eleitor exerceu o direito de preferência desprovido de adequado conhecimento acerca do que se poderia denominar uma “agenda mínima de governo”, em contraposição à natureza imperiosa de recomendações transparentes e viáveis, caberá às forças sociais conservadoras, que moldaram o episódio e determinaram os resultados da contenda, o abandono dos esconderijos e a realização de esforços para abrandamento dos riscos de ocorrência de incursões aventureiras.

De outra parte, as correntes de oposição deverão abandonar os campos de batalha e objetivos de “extinção dos inimigos” e produção de danos à nação e participar da discussão do elenco de pontos estratégicos para a sustentação de um novo estágio de crescimento econômico, com modernização produtiva e inclusão social.

Por essa perspectiva, a sobrevivência da sigla de maior densidade, o PT, cujo líder permanecerá preso, condenado por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, exigirá alteração radical do seu modus operandi, centrado na crônica priorização de interesses do partido em detrimento de posturas republicanas.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do IPARDES.

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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