A enganosa recuperação da atividade industrial

A variação positiva dos indicadores industriais no mês de abril de 2019, em relação a março, identificada em pesquisas realizadas pela Confederação Nacional da Indústria e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), bastante celebrada nas hostes oficiais e nos meios especializados, deve ser interpretada com redobrada cautela.

Essa advertência soa oportuna especialmente neste momento dramático vivido pela sociedade brasileira, marcado pela multiplicação dos anseios e esperanças na direção da urgente formação de um clima propício à retomada dos negócios, investimentos e, sobretudo, emprego.

De acordo com a CNI, todas as variáveis acompanhadas no inquérito mensal da entidade exibiram crescimento em abril, notadamente faturamento real (3,3%) e rendimento médio real dos trabalhadores (0,9%). No entanto, quando o cotejo é realizado com abril de 2018, observa-se queda de 3,1% no faturamento e 2,4% na renda. No primeiro quadrimestre do ano, houve recuo de 4,3% e 2,6%, respectivamente para aqueles quesitos.

Já, conforme o IBGE, a produção fabril nacional subiu 0,3% em abril de 2019 frente a março. Porém, no confronto com o mesmo mês do ano anterior e no acumulado entre janeiro e abril, constata-se diminuição de 3,9% e 2,7% respectivamente. Com isso, o setor estaria 17,3% abaixo da situação recorde atingida em maio de 2011.

Aliás, nessa última referência comparativa, aconteceu decréscimo em todas as categorias de uso, sendo -3,1% para bens de capital (máquinas e equipamentos) e intermediários (insumos e matérias primas), -2,2% para bens duráveis (automóveis eletrodomésticos e móveis) e -1,3% para semiduráveis e não duráveis (alimentos, bebidas, remédios, roupas, calçados, etc.).

Rigorosamente, a ocorrência das festividades de carnaval no mês de março de 2019, episódio pouco comum no calendário, ao reduzir o número de dias úteis serviu para deprimir a base de cálculo e criar a perigosa e falsa sensação de encerramento dos tempos de depressão econômica e ocorrência de um ponto de inflexão no sentido da formação de condições pró-recuperação dos níveis de atividade.

Até porque, a acentuada contração acusada nos demais exercícios comparativos atesta a fragilização do investimento público e privado e do consumo das famílias, consequência de eventos concretos como persistência de elevados patamares de desocupação dos fatores de produção (mão de obra e ativo fixo) e endividamento e inadimplência dos agentes, escassez e encarecimento do crédito para consumo, giro e inversões, e, principalmente, deflagração de nova fase de deterioração da confiança.

Esse último aspecto está diretamente associado à ausência, ou ao menos a não explicitação e discussão, de uma estratégia macroeconômica consistente, por parte da gestão Bolsonaro, capaz de induzir o retorno do giro da roda de transações e, por extensão, a instauração de um clima favorável à tramitação, no congresso nacional, das reformas estruturais imprescindíveis ao resgate da solvência do setor público e dos ganhos de produtividade da microeconomia, em médio longo prazo.

Enquanto isso não acontece e, o que é pior, em paralelo à intensificação das dificuldades à obtenção de coesão interna do executivo e articulação com o legislativo, incluindo a montagem de sólida estrutura de apoio e negociação do bloco de modificações institucionais (tributária, patrimonial, previdenciária, fiscal, administrativa e do judiciário), os atores sociais permanecem em absoluto compasso de espera, priorizando escolhas centradas no adiamento de planos e projetos expansivos.

Tanto é assim que a cesta de índices de confiança (empresários e consumidores), mensurada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Confederação Nacional do Comércio (CNC) e CNI, depois ter experimentado rota ascendente no final de 2018 e começo de 2019, voltou a expressar desânimo e retrocedeu ao degrau anterior ao desfecho do polarizado pleito presidencial do ano passado.

O retorno do ceticismo pode ser imputado, primordialmente, à perversa combinação entre apatia econômica e desordem política, protagonizada por governantes dotados de pífia experiência, acossados por lideranças parlamentares impregnadas da doença do presidencialismo de cooptação, com a qualificada participação de instâncias judiciárias sedentas por intervenções amparadas em deliberações monocráticas, dirigidas à maximização da insegurança institucional.

Foi o caso da recente postura do ministro Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), estabelecendo veto à venda – sem autorização do congresso nacional e exaustivamente negociada com o Tribunal de Contas da União (TCU) -, por US$ 8,0 bilhões, da Transportadora Associada de Gás (TAG), pertencente à Petrobrás, para o grupo Belga Engie, já atuante na área de energia no Brasil.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *