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O mapa da retração industrial brasileira

A queda de 2,7% da produção industrial brasileira, observada no primeiro quadrimestre de 2019, em relação a igual período de 2018, estimada por pesquisa Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não representa fenômeno localizado setorial ou espacialmente.

O colapso mostrou-se generalizado e reproduz elementos sensitivos, expressos na nova onda de quebra de confiança dos agentes, por conta da multiplicação dos desarranjos do ambiente político e ausência de percepção acerca da existência de orientação macroeconômica consistente.
Ressaltam igualmente causas objetivas, sintetizadas na depressão da demanda doméstica, imputada aos elevados patamares de desemprego e subemprego e endividamento privado e público, e agravada pelas evidências de desaceleração do crescimento da economia global.

De fato, trata-se do retorno dos sinais de desindustrialização, bastante comuns por essas paragens desde a segunda metade dos anos 1990, ocasionados pelo abandono oficial do emprego de instrumentos capazes de garantir a operação do setor manufatureiro do país em fase com as profundas alterações de paradigma, implantadas em escala mundial, e da desistência de priorização do tripé formado por educação, inovação e produtividade. Tanto é assim que a participação da indústria de transformação na composição do produto interno bruto (PIB) nacional caiu de 17,4%, em 2005, para 11,3%, em 2018.

De acordo com aquela instituição, o decréscimo dos níveis de atividade, entre janeiro e abril de 2019, atingiu as quatro categorias de uso acompanhadas, especificamente bens de capital (-3,1%), intermediários (-3,1%), consumo duráveis (-2,2%) e não duráveis e semiduráveis (1,3%).

Já a abordagem regional permite identificar recuo disseminado dos patamares de produção, atingindo dez dos quatorze estados objeto da investigação. Os decréscimos mais acentuados foram amargados pelos parques fabris do Espírito Santo (-10,3%) e Pará (-7,8%). No primeiro caso, a performance negativa esteve associada às contrações constatadas em petróleo, minério de ferro e papel e celulose, e, no segundo, houve a influência direta da fragilização do complexo de mineração, devido às fortes restrições ambientais impostas depois do episódio de rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais.

Também foram apuradas apreciáveis reduções em Mato Grosso (-4,8%), Minas Gerais (-4,8%), Rio de Janeiro (-3,2%), Amazonas (-3,0%), Bahia (-2,9%), e São Paulo (-2,6%). O desempenho desfavorável de Mato Grosso foi ocasionado essencialmente por química, madeira, minerais não metálicos e alimentos, e o de Minas Gerais por extração mineral (efeitos da tragédia provocada pela companhia Vale, em Brumadinho), química, fumo, têxtil e alimentos.

O retrocesso do Rio de Janeiro abarcou nove dos quatorze segmentos observados, com ênfase para material de transporte, metalurgia, farmacêutico e petróleo, e o do Amazonas foi determinado por impressão e reprodução de gravações, e máquinas, aparelhos e materiais elétricos, equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos, produtos de borracha e de material plástico, e máquinas e equipamentos, traduzindo essencialmente o encolhimento do consumo de bens duráveis, carro chefe da matriz industrial da Zona Franca.

Na Bahia, nove de doze ramos diminuíram o volume de produção, com mais intensidade em química, celulose e papel, automóveis, equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos e petróleo.
No interior do complexo industrial paulista, doze das dezoito atividades acusaram declínio de quantidade produzida, em especial as cadeias automobilística, alimentar e papel e celulose.

As exceções à regra da marcha cadente couberam à Região Sul – reduto do agroenegócio mais competitivo da nação, cada vez mais inserido no front externo e menos suscetível às injunções governamentais – e ao estado do Ceará.

No Sul, emerge o comportamento substancialmente elevado dos parques paranaense e gaúcho, ambos experimentando incremento de 6,2%, ancorado em veículos automotores, reboques e carrocerias e produtos de metal, no Rio Grande do Sul, e produtos alimentícios, material de transporte, máquinas e equipamentos (notadamente para colheita da safra), e produtos de metal e máquinas, aparelhos e materiais elétricos, no Paraná.

A evolução de Santa Catarina foi de 3,0%, amparada no bloco metalmecânico (máquinas e equipamentos, materiais elétricos e produtos de metal), minerais não metálicos e complexo madeireiro-papeleiro. O avanço de 1,8% do Ceará esteve concentrado em metalurgia e produtos de metal, bebidas e máquinas, aparelhos e materiais elétricos.

Como se vê, delineia-se uma tendência declinante para a atividade industrial do país, em razão do encurtamento da demanda doméstica e externa e das incertezas maximizadas pelas perturbações políticas, apanhando praticamente todos os segmentos e a maioria das instâncias federadas. As situações consideradas virtuosas caracterizam-se pontuais, apoiadas, em grande parte, no vigor do agronegócio, e podem desaparecer se os embaraços macroeconômicos persistirem.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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