Brasil: a agenda emergencial e o longo prazo

É inquestionável a relevância da aprovação do projeto de emenda constitucional (PEC) 10/2020, que institui o Orçamento de Guerra, uma espécie de fluxo paralelo incremental de recursos públicos para atendimento das demandas emergenciais nas áreas de saúde, auxílio à população mais pobre, socorro às empresas e proteção ao mercado de trabalho, em razão dos enormes prejuízos provocados pelo Novo Coronavírus na matriz econômica e tecido social do país.

Porém, é consensual a avaliação da necessidade de montagem de um contemporâneo regime fiscal, bastante diferente da ortodoxia prevalecente até o final de 2019, capaz de assegurar componentes gerais de estímulo à recuperação consistente dos níveis de produção e negócios, sem o retorno da espiral de descontrole do endividamento governamental nas distintas esferas (união, estados e municípios), em sua maior proporção denominado em moeda nacional.

Convém ter presente a quase generalizada subestimativa da duração e dimensão da crise, por ocasião de sua eclosão, feita por representantes do governo e meios especializados, baseada na ocorrência de um limitado e transitório choque de oferta e demanda, em razão da interrupção do funcionamento de algumas cadeias produtivas atreladas às compras chinesas e outras subordinadas ao fornecimento de peças, partes e componentes oriundas da nação asiática.

Na prática, o que se viu por aqui foi a conformação de um processo de abalo mais profundo e prolongado, engendrado por imposições de distanciamento social, que se materializaram em paralisação de incontáveis linhas de produção, unidades comerciais e de serviços, sobretudo aquelas de natureza não essencial, que resultou em queda da utilização da capacidade produtiva, receitas das firmas, ocupação da mão de obra e massa de salários.

Se tal situação perdurar por período mais prolongado do que o verificado na China – por lá, o produto interno bruto (PIB) crescia 6% ao ano, até o princípio de 2020, a recessão concentrou-se no 1º bimestre e sinais de reativação passaram a ser emitidos em março, embora menos robustos e voltados essencialmente ao suprimento da procura doméstica reprimida durante o estágio da quarentena e dos pedidos de itens hospitalares de apoio à luta contra a doença no resto do mundo -, a força de retomada de um sistema econômico que evoluía cerca de 1% a.a. até o final de 2019, estará irremediavelmente comprometida.

Isso é especialmente verdadeiro se for considerado que parcela não desprezível das ações de enfrentamento aos efeitos da pandemia envolve a disponibilização de crédito, ainda que subsidiado, a famílias e empresas, o que deve, de forma implacável, induzir a multiplicação da cautela do setor privado (pessoas jurídicas e físicas) e ensejar frágil e morosa reação dos negócios ao longo do 2º semestre de 2020 e em 2021.

Em circunstâncias tão adversas, o executivo brasileiro terá que se despojar da letargia dominante nos princípios de rigoroso ajuste fiscal – suprimidos da pauta de prioridades em curto prazo, mas ainda impregnados no raciocínio e comportamento, mesmo que disfarçados, das peças chaves do Ministério da Economia, eternas sonhadoras da revolução liberal – e partir para a explicitação de posturas subversivas para o atual padrão de gestão, como a formulação, lançamento e execução, com quase um ano e meio de retardo, de um autêntico programa de desenvolvimento de longo prazo.

Este deverá repousar em propostas sólidas e factíveis de desobstrução dos gargalos infraestruturais, amparada em privatizações, concessões e parcerias público privadas (PPPs), vultosas inversões em educação, ciência, tecnologia e inovação, financiamento à reconversão dos encadeamentos produtivos ligados ao mercado interno, reinserção externa de ramos e empresas e fortalecimento das estratégias de inclusão social e geração de emprego.

Na que diz respeito à reconversão industrial, é prudente explorar dois momentos intimamente associados. O primeiro abrangeria a rápida obtenção de economias de escala na produção de elementos de proteção social – respiradores, máscaras, visores, aventais, dentre outros -, visando preferencialmente à garantia de operação dos hospitais e circulação e volta às atividades laborais das pessoas, com elevados níveis de segurança, em um ambiente de intermitência dos confinamentos, enquanto a ciência se encarrega da descoberta, testagem e comprovação da eficácia de remédios e vacinas.

O segundo instante abarcaria um mergulho prospectivo na trajetória global depois da pandemia, caracterizado pela premência de respostas perenes às crescentes, e cada vez mais complexas, exigências do sistema de saúde, por meio da ampliação quantitativa e qualitativa do capital básico direto e radicais modificações no cotidiano coletivo, como, a título de ilustração, a substituição de painéis de elevadores por sensores térmicos. 

A primeira vista, o estreitamento do espaço fiscal, provocado pelas incontáveis ações compensatórias aos impactos da instabilidade, que devem produzir salto no déficit e endividamento público, desautorizaria iniciativas mais audaciosas na direção da construção e implementação da pauta econômica estrutural, principalmente se se levar em conta a parada na tramitação legislativa das reformas institucionais, algo absolutamente conveniente para os agentes desejosos da perpetuação de ganhos derivados da maximização da disparidade na apropriação do produto social.

Por isso, o entendimento do caráter articulado e complementar das agendas emergencial e de longo prazo exige o acionamento de três motores em simultâneo. O primeiro compreende a feitura e exposição de projetos bancáveis pelas entidades financeiras internacionais, especificamente Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento, e do despojamento dos preconceitos quando à utilização das polpudas cifras representadas pelo estoque de reservas internacionais, em poder do Banco Central (BC).

Um exame cuidadoso das métricas do Fundo Monetário Internacional (FMI) sugere que cerca de 1/3 dos mais de US$ 360 bilhões dos haveres depositados junto à autoridade monetária poderia ser empregado na cobertura financeira de empreendimentos estratégicos na abertura da porta de saída da depressão, sem prejudicar o colchão de segurança para a destruição de eventuais movimentos especulativos e fuga de capitais.

A segunda força equivale aos aportes financeiros às empresas, fundamentado na presença e participação das entidades públicas (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES) e instâncias privadas, favorecidas pela recente atuação do BC, maximizada pela possibilidade de aquisição de papéis do Tesouro Nacional e bônus emitidos pelas empresas.

O terceiro vetor propulsivo reside na perseguição de mutação do marco institucional, subordinada a um brutal esforço de coordenação do prosseguimento das discussões das alterações de base, imprescindíveis ao resgate da solvência do estado e eficiência microeconômica.

Até porque, sem transformações no aparato tributário, minimizando a incidência indireta dos impostos e contribuições e alargando as alíquotas progressivas sobre renda e patrimônio, redução do tamanho e ineficiência do setor público (executivo, legislativo e judiciário), ampliação da concorrência interbancária e eliminação do viés patrimonialista do Estado, o país estará condenado ao retrocesso da incômoda condição de “renda média”.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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