Fatura da pandemia na segunda maior economia do planeta
O conteúdo pesado da 1ª parcela da fatura do aparecimento, propagação e combate do Novo Coronavírus foi acusado pela nação que representa a raiz da pandemia. De acordo com o National Bureau of Statistics of China (NBS), Escritório Nacional de Estatísticas, o produto interno bruto (PIB) da China amargou declínio de -6,8%, no primeiro trimestre de 2020, em relação ao mesmo período de 2019, após 28 anos de acréscimo ininterrupto.
Quando a base de cotejo muda para o intervalo de tempo compreendido entre outubro e dezembro de 2019, a queda chega a -10%. Por um exame setorial, percebe-se decréscimo acentuado e amplo: -3,2%, na agricultura e mineração, -9,6%, na indústria, e -5,2%, no comércio e serviços.
Decerto que tal evento traduziu apreciável abalo na 2ª maior economia do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos (EUA), verdadeira locomotiva do boom global verificado desde o começo da década de 2000 e interrompido entre o 3º trimestre de 2008 e o 1º semestre de 2009, em razão dos efeitos da falência do segmento hipotecário de 2ª linha dos Estados Unidos (EUA), denominado subprime.
Mais que isso, a sinopse quantitativa do princípio de 2020 denota brutal inversão de tendência e sinais dos níveis de atividade do país que, mesmo em ritmo de desaceleração, por conta da guerra comercial travada com os EUA desde 2018, cresceu 6,1%, em 2019, e deveria repetir esse desempenho em 2020, conforme projeções realizadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), no começo do atual exercício.
No entanto, depois da eclosão da tragédia houve imposição, por parte do regime ditatorial chinês, de providências extremas de isolamento social, com fechamento de plantas industriais, estabelecimentos comerciais, unidades de educação, estradas e aeroportos. Também aconteceu a definição de quarentenas que atingiram cerca de 60 milhões de pessoas na província de Hubei.
Nessas circunstâncias, a entidade multilateral de crédito revisou para baixo as previsões e estimou, no mês de abril, expansão de apenas 1,2% do PIB nacional para 2020, a menor em quarenta anos, o que abona a exacerbação das incertezas acerca dos rumos da produção e transações em âmbito mundial.
Um exame menos pessimista proporciona apreender que a situação de caos extremo teria atingido o pico em fins de fevereiro e começo de março de 2020. Isso porque, desde a descoberta da natureza epidêmica de Covid-19, o governo chinês deflagrou, de forma generalizada, a disponibilização de vultosas somas de incentivos monetários e multiplicou as tradicionais inversões em infraestrutura, avaliadas em 13% do PIB, por ano, contra 1,5% do PIB, no Brasil, por exemplo.
Isso significaria argumentar que o brutal declínio trimestral estaria encobrindo a reativação, ainda que discreta e localizada, acontecida em março, em decorrência da derrubada gradual da proibição à movimentação de pessoas. Tanto é assim que a produção industrial caiu -1,1%, em março de 2020, em confronto com março de 2019, depois de despencar -13,5% no primeiro bimestre.
Enquanto isso, as vendas no varejo recuaram -15,8% em março, em prosseguimento à marcha de contração esboçada em janeiro e fevereiro (-20,5%), e os investimentos em ativos fixos diminuíram -16,1%, no trimestre, contra encolhimento de -24,5%, no acumulado nos dois primeiros meses do ano.
No fundo, parece que o pacote anticíclico acionado pelas autoridades da potência asiática estaria voltado ao abrandamento dos efeitos iniciais da instabilidade econômica ocasionada pelo SARS-Cov-2, sintetizados no desligamento da absorção doméstica, acoplado à imediata reação oficial à rápida evolução do vírus. Acrescente-se o extraordinário aumento na fabricação de itens médico-hospitalares, imputado à impulsão da demanda externa por equipamentos de proteção individual, respiradores e kits de testes para a doença.
Sem dúvida, trata-se de discreta retomada que pode servir de anteparo à conjuntura depressiva vivenciada principalmente pelos mercados emergentes, fortemente dependentes de exportações de matérias primas agropecuárias, minerais e metálicas, demandadas predominantemente pelo mercado chinês, via recuperação e sustentação dos preços internacionais daqueles produtos.
Porém, convém adotar redobrada cautela nas apostas de retorno breve à normalidade, em um contexto de emergência de um 2º estágio de danos, fruto dos desdobramentos temporalmente defasados da doença nos demais espaços geográficos continentais, e respectivos estados nacionais, que sugerem redução da procura global bens de consumo, partes e peças de fabricação chinesa.
Outro óbice repousa nas inseguranças quanto ao curso de variáveis estruturais, afetado pela possibilidade de ocorrência de redesenho da geopolítica e regressão do processo de globalização, em médio e longo termo, ancorada no reforço do nacionalismo e protecionismo, na insuficiente resposta concatenada dos formuladores de políticas públicas e em escolhas estratégicas de racionalização de parcela relevante dos elos das cadeias de valor dominadas por companhias da América do Norte e Europa.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.








