Enganosa recuperação industrial e anemia do emprego no Brasil

A variação de 7% da produção industrial brasileira no mês de maio de 2020, em relação a abril, aferida por pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), brecou uma sequência de duas performances sofríveis (-9,2%, em março, e -18,8%, em abril) e incitou alguns analistas mais otimistas a sentenciarem que os maiores danos da crise econômica, precipitada pelo Novo Coronavírus, seriam eventos pretéritos e identificaram chances de ocorrência de rápida reversão do ambiente recessivo.

Apesar do enorme desejo coletivo de obtenção de vitórias na saúde e nos níveis de atividade, propiciadas pelo controle da evolução do surto, enquanto não se descobrem vacinas ou remédios, e a retomada dos negócios, é necessária redobrada cautela nas avaliações triunfalistas, de modo que eventuais atropelos pela realidade não venham ocasionar aprofundamento da instabilidade e exacerbação das expectativas negativas.

 De fato, a expansão industrial verificada em maio deve ser saudada, porém com a ressalva a base de comparação bastante deprimida, por conta das aplicações de quarentenas generalizadas pelo país, que determinaram a quase paralisação das linhas de produção e canis de distribuição e comercialização.

Logo, a apuração positiva de maio reflete essencialmente o abrandamento e/ou a suspensão das medidas de isolamento e distanciamento social, absolutamente dissociados do alcance de resultados consistentes quanto à estabilização e inversão da trajetória de avanço de casos de contaminação e mortes por Covid-19 que, por seu turno, requerem êxito no processo de confinamento, cuidados pessoais satisfatórios e testagem em massa da população, aspectos ausentes no Brasil, por inúmeros motivos.

Dentre as causas da deterioração sanitária nacional destaca-se a postura de permanente negação do problema pelas autoridades palacianas, lideradas pelo chefe de estado, a falta de planejamento e coordenação geral, por parte do governo federal, e a correspondente articulação fina com as instâncias subnacionais, e a priorização do atendimento aos interesses econômicos, muitos dos quais subjacentes às demandas políticas, em detrimento daqueles atrelados a preservação das condições de vida das pessoas.

Uma observação atenta das estatísticas de produção industrial permite perceber queda de -21,9%, em maio de 2020, em cotejo com o mesmo de 2019, sendo o sétimo recuo consecutivo, de -11,2%, em cinco meses, e -5,4%, em doze meses. Especificamente no que diz respeito ao indicador acumulado entre janeiro e maio, houve acentuado decréscimo em todas as categorias de uso, com ênfase para bens de consumo duráveis (-37,1%), afetado drasticamente pelo encolhimento do emprego, salários e crédito, e de capital (-21%), abalado pela retração da confiança dos agentes. O desempenho ruim atingiu 22 dos 26 ramos, 63 dos 79 grupos e 75,8% dos 805 produtos acompanhados.

Não bastasse o retrato ainda dramático, exibido pelo setor fabril, é oportuno compreender que, ao acertar em cheio o mercado de ocupações, os fatores de perturbação se desdobraram de imediato em direção às atividades de comércio e serviços, responsáveis por quase ¾ do produto interno bruto (PIB) da nação e altamente sensíveis ao comportamento das variáveis emprego e rendimentos.

Por essa ótica de apreciação, os dados mostram-se terrivelmente assustadores. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), sistematizado pela Secretaria de Trabalho, do Ministério da Economia, houve fechamento líquido de -1.399.805 vagas com carteira assinada, entre março e maio de 2020, o que serviu para anular 97,9% da geração líquida de postos líquidos entre janeiro e 2018 e fevereiro de 2020 (1.429.320), que, por sinal, representaram restauração de apenas 49,3% das admissões líquidas amargadas durante a recessão de 2015 a 2017 (-2.895.779).

Ao considerar a dinâmica laboral completa, incluindo as posições formais, autônomas e não registradas, o quadro apresenta-se ainda mais grave. Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação subiu de 11,6% para 12,9% da força de trabalho (FT), entre fevereiro e maio de 2020, em médias móveis trimestrais, somando 12,7 milhões de pessoas desempregadas a procura de trabalho.

Já, a taxa composta de subutilização (desocupados, subocupados por insuficiência de horas trabalhadas e força potencial, que constitui a parcela da população disponível para o trabalho que não está buscando emprego) saltou de 23,5% para 27,5% da FT, em igual intervalo, totalizando 30,4 milhões de pessoas e representando recorde da série histórica que teve início em 2012.

O aspecto mais gritante, porém, compreendeu a eliminação de 5,567 milhões de postos informais (englobando trabalhadores não registrados, domésticos e autônomos e empregadores sem CNPJ) em um único trimestre. Ademais, o rendimento médio mensal dos trabalhadores por conta própria (R$ 1.391) equivalia a 60,2% daquele percebido pelos empregados formais do setor privado (R$ 2.309).

Nesse contexto, se for levado em conta que a sonhada retomada será sustentada primordialmente na utilização da apreciável capacidade ociosa – acumulada no transcorrer da mais intensa e longa regressão da história republicana, experimentada entre abril de 2014 e dezembro de 2016, seguida de mais de três anos de estagnação – e na perseguição da multiplicação de ganhos de produtividade, a recomposição da massa de renda proveniente de salários (contingente ocupado e remunerações) deverá constituir o maior desafio das políticas públicas depois da pandemia.

A esse respeito, urge não ignorar que, a despeito das principais mensagens expressas em estudo efetuado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ressaltando a natureza inevitável da multiplicação de investimentos em inovação para o abrandamento dos impactos da Sars-CoV-2, a mola propulsora da economia brasileira repousa no consumo das famílias, que responde por 64,9% do PIB.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, foi diretor presidente do IPARDES entre 2011 e 2014.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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