Lenta vacinação e interrupção da retomada econômica do Brasil
Quase um ano depois do registro do 1º caso de contaminação pelo novo coronavírus no Brasil, soa simplesmente frustrante e desolador a constatação de que o país constitui uma das principais referências globais de feitura de movimentos desastrosos na adoção dos mecanismos indispensáveis às tentativas de controle da disparada de infecções, hospitalizações e mortes e na preparação e definição de procedimentos e execução do programa de imunização.
Na verdade, uma linha de interpretação, argumentação e ação desprovida de qualquer fundamentação científica, levantada, aplicada e irradiada pela cúpula governamental, em sentido análogo às atitudes irresponsáveis do ex-presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, comprova a surpreendente ausência de compreensão adequada do potencial destrutivo do vírus, em múltiplas áreas.
Não bastasse esse déficit de entendimento da natureza e complexidade da situação, tolerável apenas no princípio, por ocasião do ainda generalizado desconhecimento do assunto no planeta, emergiu o estímulo explícito das autoridades de Brasília à potencialização de comportamentos de rejeição da existência do distúrbio sanitário ou, ao menos, o emprego da retórica de minimização de suas consequências negativas, capitaneados e/ou reforçados por frações da sociedade pouco, ou ainda não, afetadas diretamente, integradas e incitadas por milícias digitais formadas por devotos do presidente da república.
Essas anomalias podem ser representadas por uma espécie de “balaio frágil”, que comportou as inúmeras implicações do rechace da gravidade da enfermidade, pelo chefe do estado, sobretudo a abdicação do exercício de planejamento e coordenação geral, na montagem de um arsenal de iniciativas consistentes e aderentes ao comportamento ascendente e, na melhor das hipóteses, pendular da patologia, enquanto a descoberta, aprovação e disponibilização dos imunizantes não aconteciam.
Na área de atuação do Ministério da Saúde, o sacrifício de gestões técnicas e pulverizadas, em consonância com a estruturada espalhada do Sistema Único de Saúde (SUS), e a preferência por condutas centralizadas, burocráticas e subservientes às vontades do rei – cujo papel é representado pelo capitão-mor do palácio do planalto -, inviabilizou a feitura e/ou eficácia de lições elementares, retiradas da experiência internacional recente, com ênfase para a testagem em massa da população e o estímulo e monitoramento de quarentenas localizadas, levando em conta, nas circunstâncias brasileiras, dimensão, heterogeneidade e peculiaridades do espaço geográfico nacional.
O resultado patético e prático dessa orientação pouco convencional do gerenciamento da turbulência engendrada pelo Sars-CoV-2, em contraste com o ocorrido no resto do mundo, pode ser sintetizado no episódio de engate da 1ª na 2ª onda do surto, totalizando, em meados de fevereiro de 2021, média móvel acima de mil óbitos por dia, acrescida da circulação das novas cepas, dotadas de maior poder de transmissão.
O estado dramático se reproduziu nas frequentes situações de colapso experimentadas por estruturas de saúde, em distintos pontos do território nacional, englobando déficits de materiais, remédios, equipamentos de proteção individual, respiradores, unidades de terapia intensiva e cilindros de oxigênio.
Em igual sentido, sobressai a intransigente defesa, propaganda e determinação de produção em escala e prescrição de medicamentos para tratamento da doença, em estágio precoce, destituídos de comprovação científica, a adesão tardia ao consórcio internacional de vacinas, o desprezo às iniciativas domésticas de desenvolvimento e fabricação de imunizantes, o vexame do enrosco e retardo das importações de fármacos da China e Índia, dentre outras aberrações.
Enquanto na saúde as incursões foram desencontradas e sofríveis, a perseguição de alívio dos estragos econômicos revelou-se repleta de improvisações e idas e vindas.
Mais precisamente, diante da passividade, preguiça e ignorância do poder executivo federal, o parlamento esboçou e autorizou a utilização de um elenco de ferramentas que favoreceram a reunião de haveres paralelos ao orçamento tradicional, imprescindíveis à proteção da renda da população vulnerável, do fluxo de caixa do governo federal e dos estados e do capital de giro de micro e pequenas empresas, destinado à cobertura da flexibilização da folha de salários e dos negócios, ainda que comprimidos pela recessão.
Não fosse a promoção de sucessivos cortes nas taxas de juros básicas do país, por parte da autoridade monetária, baseada na hipótese do caráter conjuntural da espiral inflacionária, e o empuxe da ajuda institucional ensejada pelo Congresso Nacional, a contração dos níveis de atividade, em 2020, teria sido bastante superior aos -4%, aferido pelo índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br).
O grande erro foi o desmanche precipitado da instrumentação anticíclica, ancorado na equivocada aposta de verificação da conjugação entre retomada econômica em V – interrompida desde o final de 2020, com o desempenho negativo de comércio e serviços – e rápida velocidade de resposta da estratégia de vacinação, em meio à exacerbação das expectativas pessimistas dos atores sociais e corrosão da credibilidade do governo que, aliás, havia melhorado com a implantação das providências emergenciais.
O que se vê é um mero ensaio de imunização da população, notabilizado pela escassez de vacinas e imposição de tática amparada em critérios propositadamente genéricos e bizarros, reféns da força das corporações, que permitem contemplar médicos veterinários, profissionais de educação física, psicólogos, terapeutas e balconistas de farmácias, no grupo prioritário para atendimento, em detrimento de idosos com mais de 80 anos, professores e população indígena, sendo esta preterida no estado do Piaui.
Estima-se o requerimento de 136 milhões de doses para a cobertura imunológica, até o final de maio de 2021, do grupo populacional que responde por cerca de 90% dos óbitos causados pela patologia, o que equivale a 38% do contingente acima de 18 anos, contra oferta potencial de 32 milhões de doses para tal empreitada, ou menos de ¼ das necessidades.
Na órbita das deliberações econômicas, o staff do ministro Paulo Guedes encontra-se completamente perdido, sem a obtenção da aprovação pelo legislativo da peça orçamentária para 2021 e impelido a viabilizar a combinação entre retorno do benefício emergencial aos trabalhadores informais e o não estouro do teto de gastos primários da união, em condições de flagrante desconexão entre a lógica liberal e a necessidade premente de abrandamento e/ou eliminação de choques de oferta e demanda exógenos ao sistema econômico.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, ex-presidente do IPARDES.








