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Desgarrada da inflação e desconfortável subida de juros no Brasil

Os indicadores de variação de preços, relativos ao mês de março de 2021, mensurados a partir de levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmaram o movimento de rápida aceleração da inflação no país e incitaram a proliferação de diagnósticos e apostas acerca do caráter inevitável da intensificação de saltos dos juros, endossados inclusive por pronunciamentos do presidente do Banco Central (BC).

De fato, o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), que afere a dimensão inflacionária média de um conjunto de bens e serviços consumidos por famílias com renda mensal entre um e quarenta salários mínimos, referência do regime de metas de inflação, definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), subiu 0,93%, em março de 2021, sendo a maior marca mensal desde março de 2015, quando foi de 1,32%.

Ao atingir 6,1% em doze meses, o indicador furou o teto do objetivo fixado pelo CMN, se for considerado que as regras estipulam, para o ano fechado, um centro de 3,75%, com margem de tolerância de 1,5% para mais ou para menos, o que permitiria recuo até 2,25% (piso) e avanço até 5,25% (teto).

O último episódio de superação da meta deu-se em novembro de 2016, quando o IPCA registrou 7%, versus meta de 6,5%. A meta para é de 3,5% e 3,25%, respectivamente, para 2022 e 2023.

Nesse particular, o protocolo do sistema de metas sugeriria ao Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, elevar a taxa básica de juros da nação, conhecida como Selic, na reunião que acontecerá no começo de maio de 2021. Conforme sinalização emitida pelo presidente da autoridade monetária, a Selic deverá pular dos atuais 2,75% ao ano, vigentes desde março de 2021, para 3,5% a.a.

Contudo, se a instância deliberativa examinar o elenco de motivações, ou os componentes da atual espiral inflacionária brasileira, com redobrada cautela, apreenderá a natureza inoportuna do prosseguimento da onda de impulsão da Selic, iniciada em março de 2021. Isso porque o medicamento amargo dos juros deve ser prescrito somente em quadros de doença inflacionária provocados por elementos de demanda do organismo econômico.

A rigor, a situação de inflação de demanda é delineada quando há acréscimo real de salários, superior ao da produtividade agregada, e/ou substancial ampliação da alocação de crédito privado e/ou descontrole do déficit público.

Não é difícil captar que a solitária pressão emergiria do peso incremental das necessidades de financiamento do setor público, em consequência, essencialmente, do aporte de recursos destinados à cobertura das despesas diretamente ligadas ao abrandamento dos efeitos da pandemia de Covid-19, garantidas pelo Congresso Nacional até 31 de dezembro de 2020, expediente que só não foi renovado por barbeiragens do executivo e do legislativo.

Já, o equilíbrio estrutural das finanças públicas governamentais só será conquistado por meio de uma sintonia fina entre o governo o parlamento para a tramitação, discussão e a aprovação das propaladas reformas estruturais, capazes de abrandar e até evitar danos causados por gestões menos atentas à responsabilidade fiscal. 

Por essa ordem de interpretação, é oportuno insistir que a parcela dominante da escalada da inflação no Brasil possui origens exógenas, expressas na extraordinária majoração das cotações mundiais das commodities minerais, metálicas e agrícolas, imputada à firme recuperação da economia chinesa, desde o 2º trimestre de 2020.

Há também a influência da conjugação entre valorização do dólar em escala global e enfraquecimento do real, este associado à exacerbação das incertezas dos agentes atuantes no Brasil quanto ao comportamento do combate ao vírus, ao tamanho e ritmo da imunização e magnitude do amparo oficial às famílias vulneráveis e às empresas em dificuldades, no ambiente doméstico.

Em outros termos, a patologia inflacionária nacional decorre de um típico choque de oferta – com duração subordinada ao tempo de superação da pandemia e o subsequente restabelecimento da normalidade dos fluxos de produção e transações – que simplesmente se recusa a responder a tratamentos baseados na elevação de juros.

Essa argumentação pode ser facilmente comprovada ao passar a pente fino o IPCA, o que possibilita a constatação de variações estratosféricas nos preços de cereais, leguminosas e oleaginosas (53,8%), óleos e gorduras (52,7%), carnes (31%) e combustíveis (23,3%).

No que se refere a combustíveis, há a interferência direta da política de reajustes adotada Petrobras que, ao subordinar a formação de preços à mistura entre a cotação do barril do óleo no front internacional e o comportamento da taxa de câmbio – em vez do emprego de uma banda de acomodação das flutuações externas cíclicas, ancorada em modificações na carga tributária incidente sobre a comercialização final dos derivados -, serve para multiplicar os fatores de perturbação e embicar a curva de inflação.

Não bastasse o deslize conceitual implícito na preferência pelo empuxe da Selic para deter a inflação de custos ou oferta, salta aos olhos sua absoluta inadequação à condição de knock down dos patamares de atividade e emprego no Brasil, sintetizada no brusco declínio da indústria, amargado em fevereiro de 2021. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) identificou recuo do faturamento real -3,3%, rendimento médio real (-1,8%), utilização da capacidade instalada (-0,7%) e horas trabalhadas na produção (-0,5%), neste mês em comparação com janeiro.

Para piorar, ao se observar o aumento de 6,94%, em um ano até março de 2021, do índice nacional de preços ao consumidor (INPC), também do IBGE, calculado para o intervalo de rendimento familiar mensal entre um e cinco salários mínimos, comprova-se a maior perversidade do fenômeno inflacionário para os estratos mais desprotegidos da pirâmide social.

Nesse contexto, a defesa da lógica de ascensão dos juros, prevalecente nos meios financeiros, atende apenas aos pleitos dos rentistas responsáveis pela rolagem dos papéis do governo, ocupados no esforço de viabilizar a reprodução, em curto prazo, da recente subida dos rendimentos dos títulos da dívida brasileira de longo termo, atrelada à rápida ampliação dos riscos de insolvência da esfera pública brasileira.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do IpardesÍ

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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