Recessão industrial e exército do vírus no Brasil
Em meio à evolução descontrolada da pandemia do Novo Coronavírus no Brasil, com registro de recordes de infecções, internações e mortes, o que provocou exaustão da estrutura física do sistema de saúde e insuficiência de insumos e medicamentos, e à timidez e desorganização do processo de vacinação, alguns sinais de deterioração da situação econômica passaram à margem da percepção dos analistas e autoridades.
Um dos sintomas de fraqueza da economia nacional repousa no decréscimo de -0,7% da produção industrial no mês de fevereiro de 2021, frente a janeiro, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com isso, houve interrupção de nove meses consecutivos de expansão, quando o volume fabril experimentou variação acumulada de 41,9%.
Se esse resultado negativo for incorporado à mesa de avaliações e decisões servirá como sinal de alerta aos agentes econômicos e políticos por recolocar os riscos de desencadeamento de nova onda recessiva e, por extensão, aprofundar as mazelas conjunturais e estruturais subjacentes à desindustrialização instaurada desde a 1ª metade dos anos 1990, com a abertura comercial indiscriminada e a sobrevalorização cambial, acoplada ao plano real.
Na verdade, o comportamento tendencial da produção industrial representa o prato principal no cardápio de indicadores da evolução da economia do país, em decorrência dos inúmeros e expressivos efeitos multiplicadores para frente e para trás apresentados pelo setor.
A apuração dos dados desfavoráveis de fevereiro também desmonta a retórica plantada e comunicada, de forma persistente, pelo ministério da Fazenda, a respeito da ocorrência da retomada do ciclo dos níveis de atividade da nação em formato de V, que seria uma espécie de referência para o mundo de adoção de boas práticas econômicas pelo executivo federal brasileiro.
Na comparação com o mesmo mês de 2020, foi estimado incremento de 0,4%, o que representou o 6º crescimento seguido nessa referência de cotejo. Houve ainda avanço de 1,5%, no 1º bimestre do ano, e declínio de -4,2%, em doze meses encerrados em fevereiro de 2021.
A perda de embalo do segmento fabril revelou-se generalizada, afetando 03 das 04 categorias de uso e 14 dos 26 ramos acompanhados, puxada por bens de consumo duráveis (-4,6%), em especial veículos (-7,2%), que experimentou queda depois de nove meses ininterruptos de aumento, quando acumulou alta de 1.249,2%, desde maio de 2020.
Decerto que o extraordinário desempenho anterior a de fevereiro de 2021, exibido por veículos, refletiu o efeito estatístico da base de confronto comprimida, devido à completa paralisação das firmas em março, abril e parte de maio do ano passado, em razão da decretação de quarentenas, por vários governos estaduais e municipais, com o objetivo de conter e reverter o ritmo de contaminações e óbitos derivados do vírus, por meio de restrições à circulação de pessoas e busca de maior afastamento social.
Essa descontinuidade da ascensão industrial em fevereiro pode ser imputada à retração do consumo das famílias, por conta da subida do desemprego, queda da renda, encarecimento do crédito e, sobretudo, fim do pagamento do auxílio emergencial, em dezembro de 2020, e dos estímulos creditícios às micro e pequenas empresas.
Porém, é interessante observar que o delineamento de uma inflexão na curva positiva vem acontecendo desde o 2º semestre de 2020. Esse fenômeno, caracterizado por uma recuperação de “tiro curto”, pode ser confirmado pela redução da velocidade de ampliação desta variável, pelo critério de média móvel trimestral.
Tal procedimento permite inferir variação de 9,0%, em julho de 2020 – quando houve a brecada do curso cadente, começado em novembro de 2019 e agravado a partir de março de 2020, com a entrada do Sars-CoV-2 em território brasileiro -, 7,0%, em agosto, 4,8%, em setembro, 2,4%, em outubro, 1,6%, em novembro, 0,9%, em dezembro, e 0,7%, em janeiro, e 0,2%, em fevereiro de 2021.
O pior é que às incertezas ocasionadas pelos retumbantes fracassos nas tentativas de frear a escalada do patógeno e a precariedade da estratégia de imunização das pessoas, consequência da falta de empenho e planejamento passado e presente, principalmente quanto à contratação diversificada da compra de vacinas, somam-se as crônicas limitações impostas à operação da indústria brasileira, negligenciadas pelas instâncias governamentais, mesmo antes do desastre sanitário.
Mais que isso, o potencial destrutivo da Covid-19 encontrou terreno de batalha apropriado no país, facilitado por um governo que, em estado de flagrante desidratação, é liderado por alguém que, além de não reconhecer o esforço de produção de conhecimento científico e rechaçar o emprego das recomendações técnicas nas diversas batalhas da guerra contra a doença, escolheu alistar-se como combatente voluntário no exército comandado pelo vírus.
Nunca é demais lembrar que, por aqui, contabilizam-se quase 340 mil mortes vítimas da patologia, em menos de treze meses, e não poucos especialistas já projetam número de falecimentos superior aos 600 mil da Guerra Civil norte-americana, ou Guerra da Secessão, que teve duração de quatro anos (1861-1865).
A título de ilustração da tragédia, simulações feitas pelo Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington apontam que o Brasil poderá totalizar mais de 560 mil mortes derivadas do Sars-CoV-2, na virada do 1º para o 2º semestre de 2021.
Aos fervorosos defensores da postura de negação do caos, parece pertinente um pequeno afago ou reconhecimento: o presidente da República e seus asseclas constituem os maiores exemplos de distanciamento, dado que, por tudo o que fazem ou deixam de fazer, estão cada vez mais distantes das angústias e sofrimentos da sociedade brasileira.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço que é economista e ex-presidente do Ipardes.








