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Mil dias de (des) governo de Bolsonaro e o castelo de cartas

Ao completar mil dias de governo, o presidente da República do Brasil, Jair Bolsonaro, contabiliza o desmoronamento de sua popularidade ao estilo de um verdadeiro “castelo de cartas”.

O abalo deriva essencialmente da combinação entre a abdicação da tarefa de governar, praticamente desde o começo da gestão, a curiosa priorização da perseguição de obtenção de um 2º mandato e o retumbante fracasso no combate à evolução da pandemia de Covid-19 e seus desdobramentos econômicos e sociais.

Pelo menos é o que demonstram os dados levantados por todos os institutos de pesquisas atuantes no país. A mais recente sondagem, realizada pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria (IPEC), sucedânea do Ibope Inteligência, entre os dias 16 e 20 de setembro de 2021, junto a 2.002 pessoas, em 141 municípios do território nacional, apurou resultados extremamente desfavoráveis ao ocupante do Palácio do Planalto.

De acordo com a pesquisa, o conceito de grau ótimo e bom, conferido pela população à administração Bolsonaro, caiu de 28%, em fevereiro de 2021, para 24%, em junho, e para 22%, em setembro, o pior índice da série que teve início em 2019. Enquanto isso, a avaliação que reúne as notas ruim e péssimo disparou de 39%, em fevereiro, para 49%, em junho, e 53%, em setembro.

No que diz respeito ao modo de governar, a apreciação positiva desceu de 38%, para 30% e 28%, respectivamente, no mesmo período, e a desaprovação aumentou de 58% para 66% e 68%, respectivamente, também o maior patamar constatado na trajetória de mensuração.

Em semelhante sentido, a confiança no presidente recuou de 36%, em fevereiro, para 30%, em junho, e 28%, em setembro, em linha com o salto observado na descrença, de 61% para 68% e 69%, respectivamente.

Não por acidente, no cômputo das intenções de voto para a colocação na cadeira máxima da nação, por ocasião das eleições de 2022, o ex-presidente Lula, aparece com 49%, devidamente blindado por sucessivas decisões do judiciário e ainda carente de explicação convincente acerca do envolvimento de suas administrações nos escabrosos escândalos do Mensalão e Petrolão.

Já o atual mandatário prossegue estável em 23%, pagando o preço do conjunto da desastrosa obra, incluindo os arroubos autoritários contra a lógica democrática, e o permanente desinteresse de formulação, explicitação, discussão e execução de um programa de desenvolvimento nacional, focado nos pilares de restauração da solvência do Estado e da eficiência microeconômica e de radicalização da inclusão social.

Isso é particularmente importante quando se considera que, estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), sustentadas em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, apontam que mais de 46 milhões de brasileiras integram famílias destituídas de rendimentos provenientes do trabalho.

Ademais, estudo elaborado pelo Gallup World Poll, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em uma amostra de 40 países, constatou que a catástrofe do Sars-CoV-2 intensificou a heterogeneidade social brasileira, em contraste com o restante do mundo que, na média, exibiu melhora dos indicadores sociais.

O Brasil posicionou-se no pelotão superior em tempo sem aulas presenciais e precariedade do ensino à distância, notadamente nas escolas públicas, o que penalizou preponderantemente os estudantes de famílias pobres, com a reduzida disponibilização e/ou avaliação da maioria das tarefas essenciais durante o longo período de paralisação ou funcionamento parcial das atividades,

Parece interessante assinalar que, ao menos por ora, o roteiro do filme dos inquéritos qualitativos sugere a estabilização do quadro de polarização, prevalecente desde o embate de 2018, com substanciais chances de vitória em 1º turno do pleiteante de oposição.

Ressalte-se que a conquista de Bolsonaro, no evento de 2018, esteve assentada primordialmente em sua indiscutível capacidade de catalisação do descontentamento generalizado da sociedade com a destruição do monopólio de reserva ética e moral, exercido pela aliança hegemônica de poder no intervalo 2003-2016, a partir da eclosão dos episódios de assaltos ao orçamento, por meio da compra de apoio legislativo, e ao caixa das companhias estatais. Os movimentos de rua acontecidos entre 2013 e 2016 constituem notáveis exemplos daquele desencanto coletivo.

Convém reter que, desta feita, Lula fincou raízes nas preferências de quase metade do eleitorado, bastante desacorçoada com as incorrigíveis imperfeições apresentadas pela atual gestão e/ou saudosa dos tempos de acentuada mobilidade social, observados, sobretudo, entre 2003 e 2010.

A propensão de alteração do desenho da pirâmide social esteve ancorada, por absurdo, na pressuposição de infinita disponibilidade de haveres públicos, necessários para bancar a impulsão do consumo (público e privado), ainda que em detrimento do investimento.

De seu front, Bolsonaro reconhecidamente atingiu uma espécie de piso de esteio em pouco mais da quinta parte da população, mesmo com o desastre na condução da crise sanitária, o desarranjo macroeconômico, a falta de empenho na agenda ambiental, a impulsão do desemprego, informalidade e inflação e a iminente crise hídrica, aspectos sintetizados e sublinhados no discurso proferido na 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU).

O firme amparo recebido pelo chefe de governo, restrito a uma faixa entre 20% e 25% do eleitorado, resulta da sobrevivência do efeito multiplicador do conservadorismo, conduzido por ativistas das redes digitais e suficientemente impregnado nas elites brasileiras, capitaneadas por estratos da comunidade empresarial, reduto de densidade mais encorpada do presidente, anotando 47% de aprovação ao governo.

Contudo, a repetição do quadro “nós contra eles” também pode ser imputada ao marasmo reinante nas correntes de centro do espectro ideológico – engrossadas por frações nada desprezíveis da esquerda e direita -, mergulhadas na fogueira de arrogância e vaidades de seus principais representantes.

Mais do que isso, as alternativas não radicais tem se mostrado portadoras de surpreendente e apreciável falta de capacidade para estabelecimento de um diálogo maduro voltado à montagem de uma frente ampla e, por extensão, sedução daquela parcela de eleitores potenciais que, reiteradamente, tem manifestado enorme rejeição aos extremos, até aqui colocados.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

*A opinião do articulista não representa necessariamente a linha editorial deste site.

Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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