PIB do terceiro trimestre: estagnação cíclica do Brasil

A queda de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no 3º trimestre de 2021, em relação ao trimestre imediatamente anterior, a 2ª consecutiva, estimada pelo IBGE, corrobora a interrupção da tendência de recuperação dos níveis de atividade, esboçada desde o último quadrimestre de 2020. No 2º trimestre deste ano, o recuo do PIB foi de -0,4%.

Ao confirmar o quadro de estagnação cíclica, registrado a partir de abril de 2017, quando o país escapou da mais intensa e longa recessão da história, as estatísticas levantadas pelo organismo nacional derrubam a retórica triunfalista predominante na equipe do governo Bolsonaro, em especial no Ministério da Economia, baseada em fontes de dados bastante frágeis, como o novo Caged.

A rigor, o novo mergulho contracionista repousa em fontes de instabilidade externas e domésticas. No front internacional emerge a perda de ímpeto de expansão econômica, por conta de três fatores conjugados:

  1. a continuidade do desarranjo das cadeias globais de suprimentos de insumos, peças e componentes, provocada pelo avanço do surto de Sars-CoV-2 e, na sequência, pela acentuada disparidade geográfica do da velocidade da vacinação e do ímpeto da retomada dos negócios;
  2. o recrudescimento da inflação global, explicado pela disparada das cotações das commodities e as pressões de demanda, exercidas pela impulsão dos desequilíbrios orçamentários dos governos, motivado pela explosão de gastos com os reparos dos estragos provocados pela pandemia, e pela quase zeragem das taxas de juros; e
  3. a nova onda de casos de contágios por Covid-19, sobretudo na Europa, associada ao encalhe da vacinação, ocasionado pela rejeição à busca por imunizantes por grande parcela da população.

No ambiente brasileiro, o bloqueio da reativação econômica advém da combinação entre desdobramentos da inadequação e/ou insuficiência da orientação macroeconômica e perturbações de natureza essencialmente política.

Com respeito aos distúrbios atrelados à política econômica, ou à falta dela, há poucas dúvidas quanto às posturas e ações passivas, na melhor das avaliações, da equipe liderada por Paulo Guedes.

Ao abdicar da condução da pasta, em favor do exercício das funções de tesouraria da campanha à reeleição do presidente, tocada pelo fisiologismo e clientelismo legislativo do centrão, o ministro permitiu a radicalização da irresponsabilidade fiscal e, em consequência, a multiplicação das incertezas quanto á solvência das contas públicas, a disparada do dólar e da inflação.

O combate à espiral de preços vem dependendo de iniciativas solitárias da autoridade monetária que, por sinal, retardou o retorno da elevação dos juros primários, em razão do estado de apatia da economia e das limitações desse tipo de terapia em circunstâncias de evidente ausência de focos inflacionários pelo lado da demanda.

Mais do que isso, o empuxe inflacionário, somado à persistência do desemprego em patamares ainda estratosféricos, o 4º maior do planeta, endividamento e inadimplência recordes, e forte ampliação da informalidade e diminuição da renda proveniente do trabalho, explicam a condição de letargia econômica, praticamente neutralizando os efeitos positivos dos programas de transferência de renda e do pagamento do auxílio emergencial.

Pela órbita política, destaca-se a exacerbação dos componentes de insegurança, brotados dos ocupantes do Palácio do Planalto e da esplanada dos ministérios, vinculada especificamente ao déficit de capacidade de gestão, o desinteresse pelo cumprimento dos deveres elementares de governo, a priorização da reeleição, a reiteração de posições antidemocráticas e a celebração de alianças incestuosas com o legislativo, voltadas à garantia do mandato presidencial e à raspagem dos recursos orçamentários pelos predadores do Estado.

E que se danem os fundamentos da estabilidade e as reformas institucionais imprescindíveis à edificação e deflagração de uma etapa sustentada de recuperação. Nessa perspectiva, a convergência entre as vontades dos detentores do poder e os anseios da sociedade constitui mero acidente de percurso.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes. 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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