A escolha de Bolsonaro e Lula
Os analistas políticos vêm se desdobrando na tentativa de decifrar as enigmáticas posições assumidas pelo atual presidente da República, Jair Bolsonaro, e o incumbente entre 2003 e 2010, Luiz Inácio Lula da Silva, a respeito da invasão russa ao território ucraniano.
No entanto, não é preciso um profundo mergulho de avaliação comportamental para constatar que, sob o manto da retórica de imparcialidade ou equilíbrio, as posturas pretéritas e as declarações recentes de ambos, ou de seus mensageiros, sugerem a realização de disfarçada escolha de idêntico lado.
A análise desse fenômeno se revela relevante por abarcar os inevitáveis desdobramentos das afirmações e ações de duas personalidades do ambiente político e institucional brasileiro, consideradas, pelos institutos de pesquisa, favoritas à disputa para ocupação da cadeira máxima da nação a partir de janeiro 2023.
As apostas na ocorrência de dura peleja entre as correntes diametralmente opostas no espectro ideológico ganham contornos mais definidos com as persistentes dificuldades de deslanche de postulações alternativas, oriundas das correntes do chamado centro democrático.
No front do atual comandante sobressaem as leituras engendradas pela inoportuna, no mais condescendente dos diagnósticos, viagem a Moscou, a menos de uma semana da isolada decisão do presidente Putin de deflagrar os ataques à Ucrânia.
Considerando a ausência de transparência na explicitação da agenda do presidente no Kremlin, enaltecendo apenas um passeio supervisionado por autoridades locais, por conta do troféu de não vacinado contra a Covid-19, o ambiente especializado encarregou-se de interpretar a estadia em dois sentidos.
A primeira rota compreende o caráter imprescindível do estreitamento de negociações com o governo daquele país, visando assegurar a continuidade do suprimento de fertilizantes, crucial à renovação de supersafras do agronegócio nacional, em caso de média duração dos embargos econômicos unilaterais impostos à Rússia a partir da eclosão do confronto.
A propósito disso, em 15.03.2022, o governo brasileiro não aderiu à aliança composta por 40 países, liderada por Estados Unidos (EUA) e União Europeia e coordenada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), para a acentuação das pressões econômicas e comerciais à Rússia. Em contrapartida, a diplomacia de Moscou não só não elencou o Brasil na lista de nações hostis como mencionou que este possui plena assimilação das ações do Kremlin na Ucrânia.
A segunda direção equivaleria à procura de assessoria especializada na indústria de manipulações cibernéticas centradas em eventos eleitorais, especificamente com o disparo de mensagens falsas. A presença do vereador carioca, Carlos Bolsonaro, filho do chefe de estado brasileiro, na comitiva, ocupando lugar privilegiado na mesa de reunião, sobrepujando a participação de ministros militares, serviria para corroborar a suspeita.
Há fortes sinais da interferência de meios digitais russos no plebiscito de 2016 que resultou na retirada do Reino Unido da União Europeia, no esforço de desestabilização da candidatura de Hillary Clinton à presidência dos EUA, também em 2016, e nas investidas nas eleições americanas de 2020.
Não por acaso, o 1º time da diplomacia brasileira tem se dedicado à realização de verdadeiras ginásticas verbais, focadas na ocultação da preferência de Bolsonaro por compor interesses comuns com a autocracia russa – que se notabiliza pelo descumprimento de procedimentos democráticos formais e informais -, inspirada nos movimentos de ultradireita disseminados em parte do planeta, também traduzidos no comportamento radical e pouco responsável do ex-presidente dos EUA, Donald Trump.
Na órbita do posicionamento dos mentores de Lula, documento veiculado pelas mídias digitais do Partido dos Trabalhadores (PT), no Senado, destacou apenas observações críticas á estratégia norte-americana e da Otan, aliança do ocidente criada durante a guerra fria, de ocupação do leste europeu, desde os anos 1990, por meio da incorporação das nações do antigo Pacto de Varsóvia e de outras limítrofes com o terreno russo.
Na sequência, enquanto sites representativos de entidades de esquerda passaram a professar entusiasmada apologia às iniciativas da Rússia, a manifestação do Senado foi suprimida e substituída por nota oficial, preparada pelo partido, na qual ressalta a defesa do equacionamento pacífico do conflito e mediação por instâncias multilaterais.
Por essa ordem de desculpas protocolares, voltadas a encobrir simpatias à conduta russa, ancoradas no rearranjo de forças determinado pelo advento da geopolítica da multipolaridade, urge, por uma perspectiva histórica, levantar dois elementos de compreensão.
O primeiro componente corresponde ao pertencimento da Ucrânia à Rússia, por três séculos e nas sete décadas de existência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, extinta em 1991, depois da queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, em novembro de 1989.
O segundo eixo de esclarecimentos equivale à enorme disparidade étnica da extensão ucraniana, com a predominância de população de origem russa, a sudeste, e de inserção externa, com o legado de grupos aliados à Alemanha nazista, durante a II Guerra, a Oeste, o que serviu para traçar diversas potencialidades e oportunidades de confrontação.
Se a essas discrepâncias forem adicionadas as consequências do aprofundamento da integração energética e de transportes do continente europeu com a China e Rússia, mediante a implantação da malha ferroviária e a construção de gasoduto, incluindo a passagem pela Ucrânia, respectivamente, torna-se fácil apreender as ofensivas da Otan e, em especial, dos EUA, voltadas à neutralização do alargamento do domínio russo.
Não obstante, o regime liderado por Moscou não possui qualquer afinidade ideológica com os velhos princípios e práticas socialistas soviéticas. O sistema econômico russo caracteriza-se pelo capitalismo de estado, portador de acentuado grau de concentração de renda nas mãos de novas oligarquias protegidas pelo establishment.
Ademais, o histórico recente da administração russa reproduz contínuo e generalizado desrespeito aos direitos humanos, em múltiplas frentes, com ênfase no controle da liberdade de associação e de imprensa e perseguição a adversários políticos e dissidentes do regime, dentre outras anomalias.
Há também exemplos marcantes de incursões imperialistas destinadas deliberadamente a abalar e derrubar os alicerces da autonomia de povos vizinhos, como acontecido com a Geórgia, em 2008, e a anexação da Crimeia, integrante do espaço geográfico ucraniano, em 2014, candidatos ao ingresso na Otan e União Europeia.
Portanto, qualquer esforço de montagem de uma moldura analítica para a escalada russa sobre a Ucrânia não comporta exercícios nostálgicos ou saudosistas. Trata-se de vigorosa encrenca orientada primordialmente para a demarcação dos limites de uma possível nova ordem internacional.
A despeito do disparo de narrativas centradas na neutralidade, em contraste com as atitudes da esmagadora maioria de estadistas do mundo, os principais concorrentes no embate presidencial brasileiro de 2022 expõem compromissos com uma entidade de vocação demoníaca, desconectada das aspirações e aflições das populações atingidas, no episódio da guerra da Ucrânia.
Até porque, nenhum deles consegue ocultar o anacronismo prevalecente em suas propostas e soluções, essencialmente populistas, para a crise brasileira, baseadas na premissa de inexistência de limites à irresponsabilidade fiscal, imprescindível à cobertura das demandas financeiras dos detentores do poder e seus redutos nas corporações empresariais.
Nas circunstâncias atuais, o empenho de desnudamento da tática ainda escondida pelos dois atores pode revelar o cotejo, invariavelmente cínico, entre a vontade de prosseguimento da dedicação em favor do caos, nas diferentes esferas de atuação, e o retorno de velhas fórmulas que não deram certo. Trata-se de marchas improvisadas e acéfalas da explicitação de objetivos de subida da escada rumo ao futuro.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








