Da precipitada euforia à ressurreição dos oportunistas
Durou menos de uma semana a euforia quase que incontida da equipe econômica do governo, a partir da divulgação da variação de 4,6% do PIB brasileiro de 2021, estimada pelo IBGE, que recolocou a atividade do país 0,5% acima do patamar verificado antes da pandemia.
Para autoridades apáticas, insensíveis ou conformadas com a deterioração do aparelho de negócios e da conjuntura social, caracterizada por disparada da inflação, juros e informalidade, acentuada queda da renda proveniente do trabalho e elevado desemprego, a estatística discretamente positiva da principal grandeza macroeconômica do país surgiu como um grande trunfo a ser utilizado neste princípio do ano eleitoral.
De maneira absolutamente precipitada e equivocada, ignorando a trajetória trimestral do agregado, marcada por recuo no 2º e 3º trimestre do ano, o que representaria recessão técnica, o time do ministro Paulo Guedes insistiu na reapresentação do espetáculo de retomada em formato V, que, por sinal, conta com um número cada vez menor de adeptos e simpatizantes.
É fácil perceber que a observação da marcha do PIB em 2021 pelos experts da Economia aconteceu destituída do cumprimento dos requisitos mais elementares cobrado de qualquer principiante no esforço de interpretação da cesta básica de dados e informações.
Seria ocioso recordar que, mesmo sofrendo progressivos graus de tortura, os indicadores oriundos de investigações seguidoras de rigorosos critérios científicos jamais confessarão, mesmo que apenas para satisfazer anseios ou conveniências de natureza política, o que não conseguem expressar.
Parece que no manual interpretativo das variáveis explicativas das tendências de curto prazo do sistema econômico, empregado pelos técnicos oficiais, faltam as paginas que recomendam a necessidade de identificação de movimentos pendulares e criterioso cotejo com a realidade, que, em qualquer situação, deve prevalecer.
Se isso tivesse sido feito em substituição a condutas alienadas ou alucinadas, em vez de ter celebrado, o governo teria lamentado o crescimento magro do PIB, comparável à decolagem da galinha, e garimpado pistas para a correção de rumos da política econômica.
De qualquer forma, o exercício de 2021 faz parte de um passado de triste lembrança, denotando a continuidade da etapa de estagnação cíclica, iniciada em 2017, depois da superação da maior recessão econômica da história brasileira, engendrada por farta irresponsabilidade fiscal.
Entretanto, a abertura do calendário estatístico qualitativo e quantitativo de 2022 não poderia trazer piores presságios a um governo portador da conjugação de ao menos quatro apreciáveis defeitos. São eles: reduzida aprovação popular; submissão ao bloco legislativo clientelista e fisiológico; ausência de empenho ou mesmo intenção de arrumação da casa; e postulação à continuidade no comando da nação.
Não bastassem os efeitos do choque de oferta e de preços, acoplado aos desarranjos depressivos trazidos pela invasão russa ao território ucraniano, em especial a abrupta interrupção dos fluxos de comércio e financeiros, a produção industrial brasileira inaugurou o ano com desempenho ruim.
Conforme pesquisa do IBGE, a produção fabril decresceu -2,4 e -7,2%, em janeiro de 2022, em comparação com dezembro e janeiro de 2021, respectivamente, confirmando o limitado fôlego da fase de recomposição técnica de estoques do comércio e despejando um balde de água fria sobre as cabeças encarregadas da formulação de cenários otimistas.
Com esse resultado, o nível de atividade do setor é 3,5% inferior ao apurado em fevereiro de 2020, antes da eclosão do surto de Sars-CoV-2, por aqui, e posiciona-se 19,8% abaixo do recorde histórico, experimentado em maio de 2011.
O declínio foi amargado por 20 dos 26 ramos acompanhados, com destaque para as categorias ligadas ao consumo, em função da drástica queda da massa de rendimentos da população, com desocupação e trabalho informal elevados, da contração do poder aquisitivo das famílias, com a impulsão da inflação, e do endividamento e inadimplência recorde.
Em semelhante perspectiva, o volume de vendas do comércio varejista diminuiu -0,3% e -1,5%, em janeiro de 2022, em confronto com dezembro e janeiro de 2021, respectivamente, sendo que 07 dos 11 segmentos levantados exibiram recuo e a média móvel trimestral aumentou apenas 0,2%, o que corrobora o quadro de paralisia.
Esse panorama adverso tornou-se mais dramático com a estratégia de majoração dos juros, patrocinada pelo Copom do BC, em linha punitiva ao permanente desrespeito e à destruição da âncora fiscal da estabilização, com o estouro do Teto de Gastos.
O desmanche do pilar do ajuste fiscal, consequência da deliberada farra do orçamento, organizada e protagonizada por executivo e legislativo, deixou a instância monetária absolutamente isolada na tentativa de reverter a espiral anual de preços, dos atuais dois dígitos para ao menos o limite superior da meta de inflação, estipulado em 5%, para 2022, pelo CMN, o que se afigura pouco provável.
Como se vê, as engrenagens da máquina governamental carecem de minuciosa lubrificação. Urge dedicação que ultrapasse a postura mesquinha impregnada no projeto de reeleição e as descabidas discussões de assuntos menos prioritários ou não pertinentes.
Dentre os itens inadequados da pauta oficial figura a concessão de subsídios ao consumo de derivados do mineral da 2ª revolução industrial, que, a exceção do vale gás, destinado à população mais pobre, e do transporte de passageiros e de cargas, carrega enorme potencial de alargamento da desigualdade social.
Apesar das cenas de teatro ensaiadas em verdadeira cruzada nacional direcionada à contração dos impostos incidentes sobre combustíveis, urge considerar dois aspectos: os determinantes recentes da ascensão dos preços repousarem no alvoroço das cotações do petróleo no mercado internacional, no comportamento do câmbio e no poder de oligopólio prevalecente na distribuição; e a carga tributária brasileira sobre os combustíveis ser inferior à praticada na média dos países da OCDE, sendo 36,8% versus 52,6%, na gasolina, e 21% contra 47,3%, no diesel.
Igualmente inexplicável é a tentativa de “passagem da boiada” visando à exploração predatória de recursos naturais, sob a justificativa de diminuição da dependência externa na aquisição de fertilizantes imprescindíveis à produção agropecuária.
No caso do Brasil, em vez de propiciarem a multiplicação de oportunidades, como defendem os especialistas comportamentais do mundo corporativo, as crises incitam a ressurreição, notadamente em tempos de Quaresma, de oportunistas adormecidos.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








