PIB de 2021: decolagem da galinha

É preciso cautela nas comemorações dos resultados positivos do PIB brasileiro em 2021. Isso porque, na melhor das hipóteses, os números podem ser traduzidos como uma espécie de decolagem da galinha e com defasagem temporal superior a seis meses, em relação ao resto do mundo, derivada das barbaridades predominantes por aqui.

Com a expansão de 4,6% em 2021, depois da retração de -3,9%, amargada em 2020, por conta do terremoto na saúde, a economia brasileira alcançou patamar apenas 0,5% superior ao registrado antes da pandemia, e regressou à situação de estagnação cíclica observada desde 2017, de acordo com estimativas preliminares do IBGE.

Por uma ótica setorial, o acréscimo dos níveis de atividade foi liderado por serviços e indústria, com variações de 4,7% e 4,5%, respectivamente, contra encolhimento de -4,3% e -3,4%, em 2020. O PIB da agropecuária caiu -0,2%, devido às frustrações climáticas, versus incremento de 3,8%, em 2020, quando abrandou o ardor recessivo causado pela Covid-19.

O carro chefe da indústria foi a construção civil, que subiu 9,7%, ante queda de -6,3%, em 2020, e os serviços foram puxados por informação e comunicação (12,3%), transportes (11,4%), outros serviços (7,6%) e comércio (5,5%).

Pelo prisma da equação da demanda agregada, o PIB foi impulsionado pela formação bruta de capital fixo (17,2%), o que elevou a taxa de investimento para 19,2% – fortemente influenciada pela construção civil que não representa necessariamente elevação da capacidade produtiva do aparelho econômico -, contra 16,6%, em 2020, exportações (5,8%), consumo das famílias (3,6%) e gastos governamentais (2,0%), sendo que o quantum das importações exibiu aumento de 12,4%.

Uma apreciação sumária permite constatar que não se trata de recuperação em formato de V, profetizada pelo ministério da Economia e seus mensageiros dos mercados. Na melhor das hipóteses, houve reação em W, dado que o PIB recuou -0,3% e -0,1%, no 2º e 3º trimestre, e cresceu 0,5%, no 4º trimestre, o que denota escape da recessão técnica.

Na verdade, o desempenho favorável deriva da combinação virtuosa entre reativação da economia global, desde o final de 2020 – a China exprimiu encaixe ascendente já em março de 2020 -, a disparada dos preços das commodities, o avanço da vacinação contra o patógeno e o reforço do fluxo de renda das famílias, decorrente do pagamento do auxílio emergencial.

Ressalte-se que o retorno do repasse da assistência transitória à população desprovida de renda durante o surto de Sars-CoV-2 aconteceu com quatro meses de atraso, em razão de avaliações oficiais equivocadas de proximidade do encerramento do desastre sanitário e de ocorrência de firme revigoramento da economia, no final de 2020, curiosamente em paralelo ao aparecimento e avanço da cepa de Manaus.

Ademais, apesar da trajetória cadente dos rendimentos das famílias e da elevação da informalidade, dos juros e da inflação – que, por sinal, beneficiou as contas públicas devido à indexação das receitas e represamento das despesas correntes ao teto de gastos (IPCA do ano anterior, ainda reduzido), o governo desembolsou o equivalente a 19,1% do PIB, o menor patamar em sete anos, contra 20,5%, em 2020.

Paradoxalmente o nível de dispêndios públicos apurado em 2021 revela-se praticamente igual ao de 2016 (20,4% do PIB), coincidente com o ápice da maior contração econômica da república, que resultou no impeachment da comandante do poder executivo.

Logo, um exame atento do conteúdo estatístico disponibilizado pelo IBGE desautoriza comemorações e discursos triunfalistas. Ao contrário, um mergulho atento no mar de dados apresentados revela, dentre outras apreensões, que a indústria de transformação – determinante da formação de etapas de aceleração econômica sustentada, em função de seus efeitos multiplicadores dinâmicos para frente e para trás – ainda responde por 11,3% do PIB, ante 11,2%, em 2020, os menores níveis da série histórica, evidenciando o prosseguimento do quadro de desidratação do setor.

A reativação da produção e dos negócios em bases sólidas requer a formulação e execução de uma agenda de reformas institucionais que favoreça, ao mesmo tempo, a inserção competitiva do Brasil na fronteira internacional e pronunciada ampliação da inclusão social.

Deverão ser priorizados investimentos em educação e inovação e iniciativas permanentes de transferência de renda aos integrantes do piso da pirâmide, alargado no decorrer de dois anos de convivência com os efeitos dramáticos do vírus, com estabilidade inflacionária e responsabilidade fiscal. Porém, esse é assunto para o novo governo.

Sem contar os inevitáveis desdobramentos domésticos da inflexão do comércio global, associada às sanções econômicas impostas à Rússia, pelas nações do Europa e Estados Unidos, pelo desrespeito à integridade do estado ucraniano e invasão criminosa do seu território.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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