2° Turno: cobertura X subsolo
Incontáveis incursões efetuadas nas mídias sociais, por ocasião da liberação dos resultados das eleições de 2022, pelo TSE, denotaram inescrupulosa discriminação dos eleitores do nordeste brasileiro, por conta da larga vantagem contabilizada pelo ex-presidente Lula nas apurações dos números naquela região.
Apesar dos meios de comunicação não terem conferido o merecido destaque ao evento positivo e aos desdobramentos condenáveis, há poucas dúvidas a respeito da transformação do segundo tempo do embate presidencial em um verdadeiro campo de batalha de ricos contra pobres.
Em primeiro lugar é interessante sublinhar que as estatísticas disponibilizadas confirmaram o cenário de radical polarização entre as duas candidaturas favoritas, catapultadas ao 2º turno, desenhado desde a definição de elegibilidade de Lula, pela Suprema Corte do país, em 2021, e também explicado pela absoluta falta de poder de organização e arranque da denominada terceira via que deveria englobar as correntes de centro do espectro político.
O protagonismo de Lula (48,4% dos votos válidos) derivou mais do carisma pessoal projetado junto às camadas mais humildes da população e da reaproximação de parcela da classe média, descontente e/ou arrependida da escolha feita em 2018, e menos das peculiaridades do planejamento e execução eficiente da campanha eleitoral e explicitação de diretrizes e propostas de governo coerentes e consistentes.
Aliás, a respeito desse último ponto, há um intencional vazio, a não ser a apresentação de ideias desatreladas dos fundamentos da estabilização macroeconômica, que deveriam ser reconhecidos como imprescindíveis ao erguimento dos alicerces da expansão econômica sustentada, acompanhada de inclusão e mobilidade social.
Já o atual chefe de estado e postulante à reeleição exibiu desempenho surpreendente, principalmente diante das projeções oferecidas pelas sondagens de intenções de voto dos institutos de pesquisa, absorvendo 43,2% dos sufrágios, líquidos das manifestações nulas e em branco, o que superou as expectativas mais otimistas do próprio staff do incumbente.
Essa desgarrada, imputada pelos especialistas à migração antecipada das preferências por Ciro Gomes e Simone Tebet ou a decisão envergonhada, também sofreu interferência da renovada propagação da retórica de desconstrução do Partido dos Trabalhadores (PT), e especialmente do seu líder, de memória bastante presente em fração não desprezível do eleitorado, especificamente os escândalos de corrupção hospedados nos episódios do Mensalão e Petrolão.
Até porque, a despeito do despejo de estatísticas oficiais triunfalistas, que sinalizam a combinação entre retomada econômica e declínio da inflação, que seria um exemplo para o restante do mundo, qualquer estudante principiante da economia consegue perceber a natureza extremamente frágil do suposto estágio virtuoso.
O revigoramento dos níveis de atividade assenta-se nos efeitos da eliminação das restrições adotadas durante a pandemia de Covid-19 e da ampliação dos gastos privados e públicos, viabilizados pela abertura das torneiras dos orçamentos dos governos, voltada ao atendimento de demandas eminentemente eleitoreiras, inclusive com a destruição do aparato institucional de preservação da responsabilidade fiscal, ao arrepio da Constituição.
A distorção mais grave residiu nos repetidos estouros do teto de dispêndios primários da União, que representam a preparação de uma bomba de distensão do desequilíbrio das finanças públicas, cuja explosão ou arrebento está programado para 2023.
No campo da inflação, predomina o controle artificial e populista dos reajustes de preços dos itens administrados (energia elétrica, combustíveis e serviços de telecomunicações), bastante comum nas gestões dos adversários, oportunizado pela queda do preço internacional do petróleo e das renúncias tributárias federais e estaduais, de caráter transitório.
É lícito esperar que os dois contendores desocupem os esconderijos no interior dos armários e elenquem, de maneira transparente, para negociação e contratação junto aos eleitores, os elementos constitutivos e propostas dos respectivos projetos de governo, que escapem do voluntarismo e/ou da ressurreição de teses mortas, com a designação dos atores sociais ganhadores e perdedores dos novos tempos.
Em segundo lugar convém identificar e qualificar outros dois componentes conjugados, brotados das engrenagens eletrônicas: a confirmação da opção ou guinada ideológica da sociedade à direita e a permanência de flagrantes desigualdades regionais e sociais na formação e repartição do produto econômico e no estabelecimento e consolidação de laços políticos.
Apesar de a vitória preliminar do candidato de centro-esquerda ter se aproximado da metade dos sufrágios, as pautas ditas conservadoras – amparadas na apropriação de temas ligados aos costumes, como proteção da família, religião, educação tradicional, posse e uso de armas, dentre outras bandeiras comuns das autocracias mais recentes – contidas no pacote situacionista, exibiram extraordinária desenvoltura nas refregas.
Isso é especialmente verdadeiro a ponto de oferecem, de antemão, ao atual mandatário, em caso de reeleição, um legislativo mais dócil e/ou extremamente simpático à tramitação de assuntos dotados de diminuta aderência à evolução da civilização.
Quanto ao aprofundamento das disparidades geográficas e funcionais, é recomendável a observação do desenho do mapa continental brasileiro, que evidencia o triunfo de Lula, em quatorze estados e, de Bolsonaro, em doze mais o Distrito Federal.
Mais do que isso, enquanto as conquistas do presidente abrangeram Sudeste, Sul e Centro Oeste, tido como uma espécie de eixo dinâmico dos negócios e da concentração de renda em poder das elites, traduzidas nas classes média e alta da pirâmide social, os êxitos de Lula foram obtidos no Norte e Nordeste, espaços com predomínio da população vulnerável e, em consequência, mais dependente das transferências oficiais diretas de renda e alvo preferencial das hostilidades e referências preconceituosas.
Não há qualquer margem para a escalação de times com posturas demasiadamente defensivas na 2ª etapa das eleições presidenciais. O jogo acomodará o duelo entre elites e classes populares ou ricos – portadores de capacidade de irradiação de múltiplas informações, inclusive falsas e destrutivas, oferecida pelo acesso e manejo privilegiado das redes digitais – e pobres, notadamente aqueles que recebem menos de dois salários mínimos por mês e constituem mais da metade das pessoas com direito a voto.
Considerando a forte probabilidade de preservação plena dos ativos angariados em 1º turno, Lula deverá se esforçar na celebração de alianças com as plataformas de centro, compradas pelos simpatizantes e adeptos de Tebet e Ciro, e Bolsonaro tenderá a prosseguir na apologia da ortodoxia nos costumes e na demagogia liberal que, embora tenha encantado os mercados no passado, sempre que deixou de ser mera peça discursiva deu com os “burros n´água”.
Sem contar o emprego de estratégias e táticas de desmonte de reputações em condições de fragilidade do oponente, o que representa terreno fértil devido à abundância de acidentes de percurso na trajetória pretérita e presente das candidaturas.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








