Eleições nos Estados Unidos: punição branda e rejeição forte
As eleições de metade de mandato nos Estados Unidos (EUA), conhecidas como midterms, realizadas neste começo de novembro de 2022, destinaram-se à renovação integral da câmara, troca de 35 dos 100 lugares do senado e escolha de dezenas de governadores e outros ocupantes de cargos subnacionais tidos como relevantes.
Seus resultados definitivos só poderão ser homologados depois da contagem do episódio de segundo turno, na Geórgia, que acontecerá em seis de dezembro deste ano, repetindo o enredo do embate de 2018, quando os democratas levaram a melhor.
Uma incursão analítica preliminar permite aferir que, ao contrário do que defendiam os experts em ciência política, ao profetizar uma avalanche republicana, os números demonstram apertada vantagem da sigla conservadora, especificamente na câmara dos deputados, espaço de atuação em que deve recuperar a hegemonia.
As apurações também atestam que os republicanos prosseguirão em condições de desvantagem no senado, por contabilizarem menor quantidade de cadeiras em relação à soma dos assentos conquistados por democratas e representantes dos partidos independentes.
Apesar de representar evento corriqueiro na vida da democracia daquele país, no meio do tempo presidencial, quando os eleitores costumam descarregar sufrágios na agremiação de oposição, a conjuntura atual de suave refluxo na performance democrata deriva da previsível trajetória cadente da popularidade do incumbente, Joe Biden.
A rigor, desde a Guerra da Secessão, nos anos 1860, dos 39 pleitos ao congresso empreendidos em metade de mandato, 36 foram vencidos por agremiações não integrantes do bloco de governo. Ademais, o presente revés é incomparavelmente menor do que os amargados por Bill Clinton (1994) e Barack Obama (2010).
Em tais enfrentamentos, os partidos de plantão costumam sofrer expressivas perdas de assentos de deputados, como em 2006 (com o republicano, George W. Bush), 2010 (com o democrata, Barack Obama), e 2018 (com o republicano Donald Trump). As exceções recentes à regra couberam à Clinton (1998), fruto do boom econômico das companhias das novas tecnologias, e Bush (2002), decorrente do significativo apelo ao espírito patriótico da população depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.
Mesmo assim, o rápido e acentuado avanço da rejeição à aliança de poder capitaneada por Biden pode ser imputado diretamente à deterioração do funcionamento do organismo econômico norte-americano, provocada pela escalada da inflação.
De fato, os estímulos fiscais e monetários disponibilizados a famílias e empresas, pelo governo e Banco Central dos EUA desde março de 2020, voltados à restauração dos níveis de demanda interna, contraídos pela natureza avassaladora da pandemia de covid-19, precipitaram consistente e permanente marcha de preservação e recomposição do consumo privado, multiplicada a partir da vacinação.
Tal fenômeno aconteceu em ambiente de reativação menos robusta dos volumes de oferta, prejudicada pelos descompassos registrados pelas principais cadeias globais de suprimentos, em face da heterogeneidade geográfica do comportamento do vírus e da ênfase na imunização das pessoas, e os choques impostos pela guerra da Ucrânia, em 2022, principalmente a ascensão das cotações das commodities.
Com isso, a espiral de preços, puxada por energia (petróleo e gás) e alimentos, atingiu patamares próximos aos constatados durante os tempos do 2º choque do petróleo, em setembro de 1979, que forçaram o presidente do Fed, Paul Volcker, a aplicar enorme dose de elevação dos juros básicos nos EUA.
O acompanhamento do expediente de extraordinária majoração dos juros, pelos demais bancos centrais das nações avançadas, especialmente da Europa, decretou, quase que instantaneamente, a eclosão da crise da dívida externa dos países do 3º mundo, na década de 1980.
Apenas a título de ilustração das peculiaridades do imbróglio macroeconômico experimentado pela maior economia do planeta, comemoram-se ativos atrelados à ocupação da mão de obra, que se encontra próxima do pleno emprego, com taxa de desocupação abaixo de 4% da força de trabalho, e aos níveis de atividade que crescem perto de 3% ao ano.
Enquanto isso, do lado do passivo, a inflação anual, depois de bater no teto de quase 9%, no começo do 2º semestre, declinou para os ainda preocupantes 7,7%, em outubro, em resposta à estratégia agressiva, embora atrasada, de subida dos juros, que atingiram a faixa entre 3,75% ao ano e 4% a.a., deflagrada pela autoridade monetária, o que vem afetando negativamente a corrente de rendimentos das categorias mais desprotegidas da pirâmide social, que costumeiramente perdem a corrida contra os preços.
Nesse particular, é prudente compreender que os desdobramentos depressivos do combate à desgarrada inflacionária configuram somente a ponta do iceberg explicativo da desaceleração cíclica da economia americana e mundial, observada desde o segundo semestre de 2018.
A contar daquele momento, evidenciaram-se fortes rearranjos de caráter geopolítico, expressos no desinteresse e/ou retumbante fracasso das negociações para estabelecimento de referências comerciais contemporâneas entre as duas principais potências, EUA e China.
O quadro assumiu contornos mais complexos com a eclosão do conflito bélico entre Rússia e ocidente, travado em território ucraniano, forçando a efetivação de tratativas e iniciativas de intensificação das relações entre China e Rússia, inclusive com o reordenamento de não poucos fluxos de comércio entre países.
No entanto, a característica bastante apertada da contenda eleitoral nos EUA permite considerar açodada a feitura de avaliações de delineamento de retorno do protagonismo da postura ideológica e conduta pragmática autoritárias, levantada pelo ex-mandatário Donald Trump, e das previsíveis apostas em armadilhas radicais nos campos da segurança, imigração e política externa, além do desrespeito às regras do jogo democrático.
Sem considerar os anteparos edificados com os malogros de Trump nas tentativas de arrebatar os governos da Pensilvânia, com a derrota do postulante que integrou a linha de frente do ingresso sem convite ao Capitólio, em seis de janeiro de 2021, e da Flórida, desbancado pelo candidato à reeleição, Ron DeSantis.
Ao ser contemplado com quase 60% dos votos válidos, o provável oponente moderado de Trump na luta pela vaga republicana à presidência, portador de credenciais de populista conservador e gestor eficiente, angariou as simpatias da elite do partido.
Só que, de acordo com o The New York Times, aproximadamente 220 trumpistas reacionários ocuparão vagas no Congresso e em secretarias e funções no judiciário em vários governos estaduais e poderão assumir papel crucial na certificação dos números eleitorais de 2024.
Em síntese, ao castigar os democratas pelo panorama econômico frustrante, precária gerência das fronteiras e ascensão da criminalidade, com penalização inferior a média histórica dos demais governantes, os americanos manifestaram reforço à rejeição ao extremismo, acoplado ao rolo compressor das propostas republicanas, suficientemente explicitada nas eleições de 2018 e 2020.
Mesmo que de maneira tácita, os eleitores parecem sugerir a minimização de atitudes focadas na polarização pretérita e valorização do funcionamento da democracia e, em consequência, do aparecimento de alternativas capazes de conferir maior previsibilidade ao horizonte político.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultyor e ex-presidente do Ipardes.








