Velhas e novas tensões globais

Gilmar Mendes Lourenço.
Os esforços de estruturação das incertezas associadas às prospecções de futuros desejáveis, prováveis e pessimistas deverão incorporar as significativas modificações em curso no ambiente geopolítico e comercial global, abarcando componentes conjunturais e estruturais, intimamente ligados.
Pela ótica de curto e médio prazo emerge a influência da resistência inflacionária, a despeito da contínua e drástica elevação dos juros primários, praticada por bancos centrais (BCs) das principais nações avançadas e emergentes, que revela duas ordens de dificuldades.
De um lado ressalta a comprovação da absoluta ineficácia da austeridade monetária na reversão de pressões de preços brotadas de choques de oferta e, de outro, a demonstração do começo do batimento das estacas de novo pânico financeiro, atestada pela quebra do Silicon Valley Bank e outros dois bancos regionais dos Estados Unidos (EUA).
De pronto, desencadearam-se operações de socorro oficial visando a neutralização do efeito contágio e ondas de estragos sistêmicos atreladas à insegurança com a insuficiência de liquidez privada, ocasionada essencialmente por exagerados aportes em papéis públicos.
Nesse caso configura-se, mais uma vez, a paradoxal ajuda do “nocivo e famigerado” estado ao eficiente capitalismo liberal de risco, desta feita hospedado no Vale do Silício, coberta por meio do fundo garantidor de crédito (US$ 125 bilhões) e empréstimos disponibilizados pelo Tesouro (US$ 25 bilhões), via Federal Reserve (Fed), BC dos EUA, de forma análoga ao adotado, com retardo, em 2008, por ocasião da crise do subprime.
Se for considerado também o amparo de US$ 54 bilhões, oferecido pelo BC suíço ao banco Credit Suisse – em apuros há mais de dois anos por transações suspeitas de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal nos EUA e França e, mais recentemente, por ausência de controle interno sobre relatórios contábeis -, as providências de proteção representam a aplicação de “remédios socialistas ao tratamento dos ricos”, conforme afirmação do senador americano, Bernard (Bernie) Sanders, ex-candidato à presidência do país.
Apesar das aparências de perigo de sinistro, o Conselho do BC europeu (BCE) deliberou pelo aprofundamento da ortodoxia monetária ao subir a taxa de refinanciamento de 3% ao ano para 3,5% a.a., a depósitos de 2,5% a.a. para 3% a.a., e a de empréstimos marginais de 3,25% a.a. para 3,75% a.a., alegando tendência de inflação elevada e manutenção do clima de incertezas.
Retomando a escalada inflacionária, parcela expressiva do pico da curva de preços apresenta correlação direta com os distúrbios experimentados pelas mais importantes cadeias globais de suprimento de matérias primas, peças, partes, componentes e produtos acabados.
Os desarranjos começaram com a pandemia de Covid-19, em 2020, arrefeceram em paralelo ao avanço da vacinação das pessoas, ainda que heterogêneo espacialmente, e recobraram o “modo desordem” a partir da eclosão e longa duração do conflito entre Rússia e Ocidente em território ucraniano, coadjuvado pelo desequilíbrio dos mercados e disparada das cotações das commodities metálicas, alimentares e, sobretudo, energéticas.
Portanto, parece razoável admitir, ao menos para efeito de testes no empenho de feitura de modelos prospectivos, a premissa de conformação de circunstâncias planetárias de perversa convivência entre menores taxas de expansão econômica e preservação de encorpado pedaço inflacionário imune ao emprego de pesado arsenal monetário.
No front dos aspectos subjacentes às tendências e montagem de táticas defensivas e ofensivas de prolongada maturação dos agentes econômicos, destaca-se os desdobramentos da reconfiguração geopolítica e o enfraquecimento das posturas e mecanismos liberais.
Recorde-se que o aparato liberal foi plantado no princípio da guerra fria, travada entre EUA e União Soviética, especificamente na Conferência de Bretton Woods, com a criação do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), atualmente Organização Mundial do Comércio (OMC), e das entidades multilaterais de crédito: Banco Mundial (BIRD) e Fundo Monetário Internacional (FMI).
No decênio de 1960, o economista alemão, Friedrich Hayek, rotulou e adequou as bases daquele arcabouço como doutrina neoliberal que, em 1989, em um encontro conhecido como Consenso de Washington, expressão cunhada pelo britânico, também economista, John Williamson, ganhou o status de nova referência das relações entre as nações ricas e os mercados emergentes.
Na verdade, as diretrizes anunciadas reuniam o novo aparato de submissão dos países em desenvolvimento aos ditames dos avançados, sob o manto protetor da chamada globalização dos mercados, beneficiada com a retomada da hegemonia norte-americana, ensejada pela queda do muro de Berlim, em 1989, e a extinção do império soviético, em 1991.
Nesse contexto, as empresas transnacionais buscavam a maximização das escalas produtivas, comerciais e financeiras, favorecidas pela terceira revolução industrial, ancorada na biotecnologia, mecânica de precisão, novos materiais, química fina e, principalmente, microeletrônica e tecnologias da informação.
A precipitação do desmanche dos ingredientes determinantes da mundialização aconteceu por conta da própria fadiga do paradigma, comprovada nos anos 1990 e reconhecida publicamente por seu principal pilar financeiro, o BIRD, no decênio de 2000, com base na proliferação de episódios nacionais de internacionalização passiva dos sistemas produtivo e financeiro e substancial deterioração do tecido social, marcada pelo alargamento da pobreza e da miséria.
Tanto é assim que a categoria qualificada de economistas progressistas, acompanhada de outros de perfil ortodoxo, passou a defender abertamente uma espécie de inversão da lógica globalizante, sendo que um deles, o professor turco, lotado na Universidade de Harvard, Dani Rodrik, cunhou a expressão “Dissenso de Washington”.
Em simultâneo, o protagonismo da China na década de 2000, notadamente depois do reconhecimento formal da condição de economia de mercado, mesmo com a prevalência da autocracia política, portadora de vantagens competitivas flagrantes em custo de produção, ganhos tecnológicos, vultosas injeções de crédito público subsidiado e manuseio explícito da taxa de câmbio, forçou a rearrumação dos preços relativos em escala mundial e acentuadas alterações nas correntes de comércio, em favor do gigante asiático.
Porém, os contornos mais definidos do desenho do fenômeno de desmonte ou acentuado arrefecimento da globalização passaram a ser produzidos na segunda metade do período de 2000, magnificados com a deflagração da guerra comercial entre EUA e China e do correspondente embate político entre os líderes Donald Trump e Xi Jinping.
Em um cenário de acirramento dos duelos comerciais, verificou-se a reafirmação da envergadura política e econômica chinesa, o que conduziu, inevitavelmente, à ampliação de eventos de fragilização de diversas incursões e acordos multilaterais e atuação quase que decorativa da OMC.
O elenco de incômodos sofre a adição da invasão da Ucrânia pela Rússia e a consequente imposição de sanções comerciais pelas nações do Ocidente, da agudização das tensões entre China e Taiwan e, especialmente, da perseguição de estabelecimento aderência instantânea entre os interesses e laços estratégicos de Moscou e Pequim.
A exacerbação dos fatores motivadores de desequilíbrios serviu de estímulo e/ou imposição à promoção de apreciáveis ajustes na globalização e sinalização da constituição de uma nova ordem econômica, voltada à conjugação entre o alcance de segurança no abastecimento de alimentos e energia e realocação descentralizada das cadeias produtivas e fortalecimento e consolidação de blocos regionais.
É fácil observar a disseminação de iniciativas conjuntas e isoladas destinadas à garantia do binômio segurança e poder e o ressurgimento de bandeiras nacionalistas e de proteção dos mercados domésticos, por meio de políticas industriais ativas com prioridade a áreas consideradas estratégicas.
Com semelhante relevância sobressai o regresso de incursões de populismo e intervencionismo protecionista, exemplificados na imposição de barreiras ao livre comércio e outras restrições causadas por imbróglios políticos, e a ampliação da concessão de subsídios, em meio à maior interferência das variáveis ambientais nas negociações de comércio.
Por essa ordem de interpretação, em dois artigos recentes, publicados no jornal O Estado de São Paulo, ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, tem argumentado acerca das chances de formação de novo quadro de antagonismo mundial, englobando os estados ocidentais da Europa e os EUA versus o grupo encabeçado por China e Rússia, com a adesão de alguns asiáticos.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, ex-presidente do Ipardes e ex-conselheiro da Copel.








