Aspectos políticos e econômicos da nova política de preços dos combustíveis

Aspectos políticos e econômicos da nova política de preços dos combustíveis
Gilmar Mendes Lourenço.

As alterações na política de reajustes de preços dos combustíveis nas refinarias da Petrobras, anunciadas pelo ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o presidente da empresa, Jean Paul Prates, em 16 de maio de 2023, envolveram um conjunto articulado de motivações econômicas e políticas.

Pelo ângulo da economia, o governo definiu a troca da adoção do critério de paridade de importação (PPI), atrelado às flutuações do dólar e cotações do barril de petróleo no mercado internacional, por uma estratégica de precificação centrada na conjugação entre evolução das despesas de produção da estatal e o custo de oportunidade, partindo da premissa de quase autossuficiência no abastecimento doméstico.

A grande novidade, designada como custo oportunidade, enfeixa a tentativa de estabelecimento de uma sintonia fina, ou até de um ponto de equilíbrio, entre a necessidade de recuperação da renda líquida disponível dos consumidores e preservação da rentabilidade da companhia, bastante prejudicada, por sinal, com a permanentes incertezas subjacentes aos procedimentos antes empregados.

Até porque, a multiplicação dos cenários de insegurança, provocada pelos inúmeros reajustes acontecidos com base na PPI, representou o estopim de vários momentos e eventos de instabilidade política, em especial a eclosão da chamada “greve dos caminhoneiros”, em maio de 2018, que abalou profundamente a já enfraquecida gestão de Michel Temer.

Ademais, afigura-se mais adequada a conduta de fixação de preços amparada na lógica microeconômica do que a obtenção da diminuição dos valores de comercialização por meio de renúncias tributárias transitórias federais (PIS/Cofins) e estaduais (ICMS), verificada no segundo semestre de 2022.

Em sendo reflexo de vontade meramente eleitoreira do incumbente de plantão, aquelas benesses contribuíram crucialmente para a montagem da bomba do déficit e endividamento público, com explosão prevista para 2023, contornada parcialmente pela aprovação da PEC da Transição, acordada entre o futuro governo e o Congresso, ainda no ano passado.

Apesar de conferir maior previsibilidade aos agentes atuantes direta e indiretamente na cadeia de processamento e refino de petróleo e venda de derivados, a nova regra carece de incorporação plena do elo de distribuição, secularmente resistente à transferência da diminuição de dispêndios e/ou ganhos de produtividade aos revendedores e consumidores, por funcionarem em regime de oligopólio, estrutura de mercado caracterizada pelo controle por reduzido número de grandes empresas.

No terreno dos condicionantes políticos acoplados à mudança nos procedimentos de marcação dos preços dos combustíveis no Brasil emerge o indiscutível traquejo exibido pelo comandante da nação, em meio às crescentes barreiras à formação e consolidação de uma base parlamentar sólida, decorrente da prevalência do fortalecimento da operação em blocos de interesses, em detrimento do tradicional percurso traçado pelas agremiações partidárias.

Igualmente expressiva foi a percepção da cúpula governamental acerca do ambiente internacional inóspito, carregado pelo risco de estagflação (estagnação dos negócios e resistência inflacionária, agravada pela pouca eficácia da ortodoxia monetária e o prolongamento temporal da guerra na Ucrânia), e da desaceleração dos níveis de atividade no país, desde o final do ano passado, derivado da crise de endividamento e inadimplência ocasionada pelas taxas de juros estratosféricas.

Nessa perspectiva, além do esforço de preparação do novo arcabouço e fiscal e tramitação da reforma tributária, o staff de Lula 3 vem se empenhando na abertura de alguns atalhos capazes de conciliar o abrandamento dos efeitos da inflexão econômica e o cumprimento das promessas mais salientes do contrato eleitoral celebrado em dois turnos, em 2022.

Por isso, ao menos aos analistas mais atentos, não surpreende a pronta aparição, na primeira “folha do caderno” de ações, da ressurreição e reorganização do programa Bolsa Família, dirigido prioritariamente à redução da pobreza e miséria e restauração dos alicerces das iniciativas de inclusão social.

Na mesma linha, em uma espécie de segunda página da plataforma de campanha, aparece o resgate do programa Minha Casa Minha Vida, destinado à eliminação de 1/3 do déficit habitacional de 6 milhões de unidades, até 2026, privilegiando famílias com renda mensal inferior a dois salários mínimos.

Ainda nesse espaço, ressalta o retorno da revalorização do salário mínimo, embora moderada, por conta dos desdobramentos multiplicadores em diversas rubricas de gastos governamentais e do imperativo de erguimento da âncora fiscal que ocupara o posto do eliminado teto de despesas primárias da União.

Por fim, o conteúdo da terceira página do princípio de quitação da fatura eleitoral compreende o ensaio de resolução do conflito dos combustíveis que serve essencialmente de agrado à classe média, bolsonarista em sua maioria ou que só sufragou Lula com o firme e louvável propósito de escape da armadilha de mais quatro anos de autocracia e negacionismo.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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