Copom e Fed: razões para decisões diferentes
Gilmar Mendes Lourenço.
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), tomada no encontro de 17 de setembro de 2025, mantendo a taxa Selic em 15% ao ano – a maior do planeta quando descontada inflação, perdendo somente para a Turquia – enfeixa alguns elementos de incertezas, predominantes tanto na fronteira internacional quando no ambiente doméstico.
No terreno externo, salta aos olhos as indicações de perda de embalo da economia mundial, determinada pelos apreciáveis embaraços criados pela administração de Donald Trump à perseguição de menor instabilidade geopolítica e nos fluxos de comércio.
Tanto que a taxa de desocupação da mão de obra norte-americana vem exibindo marcha ascendente desde a deflagração da guerra de tarifas de importações, rompendo a barreira de 4% da força de trabalho e chegando a 4,3%, em agosto de 2025, com a anotação de recordes de solicitações de auxílio desemprego.
Conforme o Departamento de Estatísticas do Trabalho, a geração líquida de empregos foi de 29 mil postos por mês, que, se desconsiderado o tempo do surto de Sars-CoV 2, foi a menor média desde 2010, quando os EUA esboçavam reerguimento da crise do subprime de 2008 e 2009.
No que se refere à inflação, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) americano subiu de 2,7% para 2,9%, entre julho e agosto, quando tomada a referência de doze meses, distanciando-se da meta anual de 2%, estabelecida pela autoridade monetária.
O criterioso balanceamento entre os fatores âncora, especificamente a desaceleração da economia, a desgarrada dos preços e as incontáveis pressões de natureza política, emanadas do circuito de poder, levaram o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, a cortar a taxa básica de juros daquele país, da faixa entre 4,25% a.a. e 4,50% a.a. para entre 4,0% a.a. e 4,25% a.a., o que contribuirá para a continuidade do enfraquecimento do dólar em escala global.
No plano interno nacional, prevalece a moderada acomodação da espiral inflacionária, estimada em 5% ao ano, no varejo, a despeito da ausência de convergência em direção ao centro da meta de 3% ao ano, definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
Cumpre sublinhar que, além de aspectos circunstâncias e efêmeros, como o bônus de Itaipu, outras variáveis estruturais colaboraram para a estabilização do curso da inflação, com destaque para o choque de alimentos, com a nova supersafra agrícola, e a depreciação do dólar, fruto dos inúmeros equívocos do manuseio econômico trumpista, coadjuvado pelo substancial diferencial real de juros brasileiros vis a vis os praticados nas demais praças financeiras internacionais.
Ao mesmo tempo, salta aos olhos sinalizações antagônicas identificadas no ajuste pra baixo dos níveis de produção e negócios e do comportamento virtuoso do mercado de trabalho e rendimentos, evidenciando orientações diametralmente opostas das políticas monetária e fiscal.
Aliás, os monetaristas, apoiados em sofisticados modelos econométricos, asseveram que a dominância ou irresponsabilidade fiscal impede o declínio consistente da inflação e dos juros, e os, heterodoxos, ocupados com a aferição da corrente de transações, sugerem que juros estratosféricos inviabilizam o aumento da demanda (investimentos) e da oferta potencial e a transformação dos voos de galinha em etapas virtuosas, sustentadas na estabilidade macroeconômica.
De um lado, em modo acusatório dos golpes desferidos pela austeridade monetária, os setores da indústria, comércio e serviços registraram números negativos na virada do primeiro para o segundo semestre do ano, e o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), estaca provisória da variação do produto interno bruto (PIB), calculado pelo IBGE, encolheu -1,0%, no trimestre encerrado em julho, puxado pela agropecuária (-6,8) e indústria (-0,9%), sendo que os serviços cresceram modestos 0,2%.
De outro extremo, a desocupação do fator trabalho anotou 5,6%, no trimestre entre maio e junho deste ano, o menor nível da série histórica aferida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, iniciada em 2012, com a taxa de informalidade praticamente inalterada, ficando em 37,8% da população ocupada.
Já o rendimento real médio aumentou 3,8%, em um ano, bastante superior a qualquer medida de ganho de produtividade do sistema econômico, o que pode configurar foco inflacionário pela parcela da absorção endógena, em especial a dobradinha formada por gasto público e consumo privado.
A esse respeito, é interessante assinalar que os persistentes efeitos positivos na demanda interna, ensejados pela multiplicação dos dispêndios públicos não financeiros, estariam na raiz da intransigência do Copom em desencadear um ciclo de diminuição da taxa de juros, o que favoreceria, mesmo que parcialmente devido à elevada concentração bancária prevalecente no Brasil – em duas instituições públicas e três privadas -, a retração do custo das diferentes modalidades de crédito.
Até porque, de acordo pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil, a nação contabilizou, no mês de agosto de 2025, 71,78 milhões de consumidores inadimplentes, o que equivale a 43,13 da população adulta, recorde dos acompanhamentos realizados desde 2015.
No entanto, a deliberação de funcionamento rígido do regime de metas de inflação não coaduna com o alargamento dos mecanismos fiscais destinados ao estímulo ao giro da roda, inclusive como anteparo ao menor incremento das exportações, agravado com o tarifaço de Trump e com as restrições à prospecção de destinos alternativos aos EUA.
Nessa perspectiva, aos menos dois componentes de perturbação poderiam ser resgatados pelo cotejo monetário versus fiscal. O primeiro deles reproduz o escandaloso avanço do legislativo na formulação e execução da peça orçamentária, abarcando o generalizado abocanhamento de verbas e cargos das diferentes pastas ministeriais.
Na mesma linha emerge o recebimento das inescrupulosas e aviltantes emendas parlamentares, em grande parte sob rigorosa investigação do Tribunal de Contas da União (TCU), que suplantam os R$ 50 bilhões por ano e são dotadas do poder de aniquilar as chances de cumprimento das estratégias de estado, sendo estas, em sua maioria, contratadas nas urnas pela plataforma vencedora do pleito majoritário.
O segundo vetor de incômodo está intimamente associado ao verdadeiro “salto triplo” constatado nos recursos aportados aos programas de proteção social, com finalidades mais eleitoreiras do que ao efetivo e meritório atendimento das carências da população vulnerável.
Apenas a título de exemplo, o Bolsa Família (BF), vedete das transferências diretas de renda, aumentou de R$ 32,5 bilhões, em 2019, quando atendia a cerca de 14 milhões de domicílios e representava 0,4% do PIB, para R$ 168,2 bilhões, em 2024, suprindo 19,2 milhões de lares, e respondendo por 1,4% do PIB, sem a erradicação da pobreza e miséria, apesar de o país ter sido agraciado com a supressão do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU).
Frise-se que, desde a fracassada ofensiva de Bolsonaro à reeleição, em 2022, quando houve a junção do BF com o Auxílio Emergencial (de R$ 600,0), aprovado pelo Congresso Nacional, em 2020, por ocasião da eclosão da Pandemia de Covid-19, e a alteração de nome para Auxílio Brasil (também com piso de R$ 600,0), constatou-se uma autêntica explosão de irregularidades nos cadastros, ou, na mais polida das avaliações, distorções.
A mais contundente delas, denotada por meio da utilização de novas tecnologias, corresponde ao desmembramento dos domicílios em famílias distintas ou “unipessoais” – em função da catapultada do valor mínimo concedido por beneficiário -, que saíram de 2,2 milhões, em 2021, para 5,9 milhões, em 2023, estando hoje em 3,8 milhões, constituído ainda assim incremento de 73% em relação a 2021, o que permite insinuar a existência de regras e instrumentos de fiscalização no mínimo pouco eficientes.
Não obstante, convém apreender que o status dos juros primários nacionais está impregnado da precificação de apostas, ou expectativas, pretéritas que se não se confirmaram, particularmente a eternização dos embates entre chefe de governo e chairman do BC autônomo, com a passagem de bastão do bolsonarista, Roberto Campos Neto, para o Lulista, Gabriel Galípolo, e a explosão da dívida pública, que se mantém abaixo do degrau da época da crise sanitária e da média dos principais mercados emergentes.
Sem contar que, diante das barreiras legais lançadas em setembro de 2001 à decretação de calote – como o acontecido em 16 de março de 1990, quando da retenção de 80% dos ativos financeiros no segundo dia do governo Collor – e a garantia de recompra, a atrativa remuneração dos bônus governamentais traduz campo fértil ao plantio e colheita pelos rentistas.
Portanto, não é difícil enxergar a deliberação absolutamente previsível e adequada do FED e a confirmação da posição esperada do Copom, ainda que imposta pela passividade ante ao aprisionamento voluntário à segurança máxima estipulado pela sentença das estreitas metas de inflação.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.


