Brasil 2026: Temporada eleitoral e ciclo econômico

Brasil 2026: Temporada eleitoral e ciclo econômico
Gilmar Mendes Lourenço.

A sondagem de opinião efetuada pela Genial/Quaest, junto a 2.004 eleitores entre os dias 8 e 11 de janeiro de 2026, propiciou a confirmação da vantagem do presidente Lula, candidato ao empreendimento de reeleição na corrida voltada à ocupação da cadeira de chefe de estado, a partir de janeiro de 2027.

As estatísticas disponibilizadas também oportunizam, preliminarmente, a identificação e compreensão de alguns pontos fortes e várias barreiras enfrentadas pelas mais importantes figuras integrantes da frente de oposições, se que ela existe, na negociação de contrato social alternativo adequado à subida da rampa do Palácio do Planalto.

Até aqui, a postulação antagonista mais vistosa corresponde à do senador Flávio Bolsonaro, filho primogênito do ex-presidente da república, Jair Bolsonaro – “herói de combate perdido”, preso por crime de planejamento e tentativa de execução de golpe contra as instituições republicanas, particularmente o processo eleitoral -, que já teria recebido as bençãos do progenitor.

Lembre-se que Bolsonaro foi derrotado no pleito de 2022, mesmo com a utilização abusiva da máquina pública, notabilizada pela terceirização da formulação e operação do Orçamento Geral da União (OGU, ao legislativo, dominado pelo bloco apelidado de centrão.

Trata-se de uma autêntica “tropa de choque” – erguida, por vezes, de maneira inconsciente ou mascarada, na célebre balada “Maria vai com as outras, em troca de migalhas ou até de robustas emendas, em estando próximo dos caciques – das elites excludentes, formada por partidos conservadores, destituídos de linha programática, e povoada por políticos carentes de noções básicas das intrincadas relações sociais, acostumados a devorar verbas e cargos do governo que estiver no poder.

Os principais cenários levantados pela Genial/Quaest permitem apreender que, enquanto Flávio contabiliza 38% de adesão popular, Lula, detentor de 45%, teria atingido uma espécie de pico de assinalações de intenções de voto, que variam entre 43% e 46%, no segundo turno, que é o que importa de fato, o que só não permite a fixação do rótulo de favorito, menos pela convicção e mais pela aversão ao outro lado, por conta da estabilidade da rejeição em 54%.

Além dessa relevante restrição, no grupo da população investigada autodefinido como independente, que compõem cerca de 1/3 do painel de informantes, os que afirmam desaprovar as ações da administração Lula (o que não significa necessariamente não votar nele em qualquer circunstância), chegam a 62%, sendo de 64% no painel de evangélicos.

É curioso notar que a repulsa à Lula por aquele segmento religioso permanece elevada, a despeito da simpatia, expressa por algumas lideranças, à indicação do “irmão”, Jorge Messias, para preenchimento de vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), ainda em suspenso, e da decretação da música gospel como ativo cultural nacional.

Na parte oponente, a debilidade da candidatura raiz, capitaneada pelo também conhecido como “zero um”, excessivamente atrelado à bolha da extrema direita, repousa no considerável repúdio da sociedade, apurado em 55%, embora tenha declinado do teto de 60%, medido em novembro de 2025, evidenciando, principalmente, o fragoroso repúdio no interior da fração independente (cerca de 76%), o que pode ser absolutamente mortal em clima de acentuação da polarização.

Ressalte-se que o conjunto interpretado como independente possui alinhamento ideológico com o centro democrático do espectro político – de inclinação a resolução de conflitos por meio de diálogos maduros, crítico dos exageros do intervencionismo estatal e atento a necessidade de atendimento dos anseios sociais.

Não obstante, por complexas razões, englobando desde diferenças programáticas até a hospedagem de uma verdadeira “fogueira de vaidades”, o time não consegue fabricar uma opção no jogo com as correntes extremadas, com efetiva densidade eleitoral.

De seu turno, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), desejoso “não declarado” abertamente do cargo – o que pode interferir na manifestação dos entrevistados -, exibe performance discretamente melhor que a do senador (44% versus 39%, em favor de Lula).

A grande restrição é que o mandatário da maior força econômica do país tem sido acolhido, reiteradamente, porém com inúmeras reservas, pela direita, dada a sua indisfarçável tentativa de construção e transmissão de uma imagem de moderação no trânsito pelo escorregadio terreno da política, frequentemente qualificada pelo jargão “em cima do muro”, sem conseguir esconder sua inescrupulosa submissão à família Bolsonaro.

Em uma linguagem menos polida, não constitui desaforo argumentar que, depois de vestir o boné do efusivamente destruidor de regras explicitamente democráticas, o comandante dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, apoiá-lo na aplicação do tarifaço – ou, na melhor das hipóteses, imputar a culpa à vítima, defendida, no caso, pela governança brasileira – e celebrar a forma e o conteúdo da operação Venezuela de captura do ditador Nicolás Maduro, o gerente de São Paulo “não consegue enganar ninguém”.

Nessa perspectiva, a postagem publicada em 14 de janeiro de 2026 pela primeira-dama de São Paulo, Cristiane Freitas, em seu perfil no Instagram, sentenciando que “o Brasil precisa de um novo CEO”, não enseja indagações quanto à solicitação do papel de “capitão do mato”, ou capataz, na execução do espetáculo do imperialismo norte-americano.

O roteiro da peça estabelece, sem qualquer tipo de constrangimento por parte do produtor e diretor, o represamento das iniciativas de desenvolvimento da América Latina, ancoradas em ideias soberanas, corroborado pela velha cantilena de que o “agro é pop”.

Até quando a moldagem, aprimoramento e oferecimento à sociedade deste jeito supostamente não radical do ocupante do Palácio dos Bandeirantes, com a adesão não tão velada, da ex-primeira dama, Michelle Bolsonaro, serão factíveis, constitui a grande incógnita.

A dúvida é especialmente angustiante neste momento que antecede as interlocuções e discussões finais para deliberações de candidaturas pelas diferentes alianças promovidas pelas agremiações partidárias contrárias ao status quo, intencionadas prioritariamente na drenagem dos haveres públicos contidos no generoso Fundo Eleitoral.

Considerando que o inquérito da Genial/Quaest identificou que 39% e 34% dos eleitores amparam-se em informações veiculadas em redes sociais e emissoras de televisão, respectivamente, afigura-se razoável admitir apreciável grau de contaminação de pensamentos, decisões e iniciativas pela perversa mistura de venenosos ingredientes do extremismo e fake News, agravada pela insuficiência de respostas convincentes ao leque de anseios sociais.

Um elemento alentador para as hostes oposicionistas pode ser traduzido no alargamento da constatação de piora das condições econômicas, tendo como referência os últimos doze meses, denotada por 43% dos consultados pela pesquisa, contra 38% no painel avaliado em dezembro de 2025.

Paradoxalmente, a medição de menor ânimo e/ou humor dos atores sociais com a economia, o que não significa deterioração de expectativas, acontece mesmo com a prevalência do ambiente conjuntural marcado por decréscimo do desemprego ao mínimo histórico, recorde na massa e nos rendimentos reais médios da população ocupada e refluxo da escalada da inflação.

O recuo dos índices inflacionários ao longo das cadeias produtivas, incluindo produção, distribuição e varejo, decorreu da expressiva diminuição da velocidade de aumento dos preços dos alimentos, motivada pela supersafra agrícola, estabilidade das cotações globais e forte recuo do dólar, o que, a rigor, deveria melhorar a atmosfera de negócios.

É bastante provável que a sensação menos positiva da dinâmica econômica tenha a ver com os desdobramentos da persistente política de juros reais elevados, praticada pela autoridade monetária, sobre as demais modalidades de operações de empréstimos e financiamentos, catapultando o endividamento e inadimplência de consumidores e empresas.

Esse nó deve apenas começar a ser desatado com o desencadeamento de rodadas de cortes na taxa Selic, a partir da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), de janeiro de 2026, o que, poderá conferir maior oxigenação dos níveis de atividade e de transações.

Porém, a contenção e inversão da tendência de desaceleração da cíclica da economia, depois de cinco anos ininterruptos de crescimento, provocada por desarranjos externos, principalmente a exacerbação das incertezas do fator Trump, e endógenos, com destaque para as perturbações políticas e institucionais, dependerão da implementação de providências contracíclicas.

Logo, não será nenhuma surpresa o derrame de benesses brotadas da radicalização da orientação fiscal expansionista, mesmo com ênfase retórica de responsabilidade fiscal, centrada em providências visando ao menos a preservação do montante de transferências diretas de renda aos vulneráveis, interpretadas como conquistas definitivas pela população.

Tais bondades, acrescidas do reajuste real do valor do salário mínimo, indexador de parcela expressiva dos benefícios previdenciários, e dos efeitos concretos da implantação da mini reforma do imposto de renda (IR), podem assegurar a manutenção do consumo privado em curto termo e multiplicar o cacife eleitoral do governante de plantão.

Supondo que a preferência dos eleitores será determinada pelo comportamento virtuoso ou nocivo da inflação, emprego, demanda e renda, não há qualquer razão objetiva para aguardar a inserção de propostas de longo prazo nas plataformas dos postulantes, associadas à recuperação, ainda que defensiva, dos itens da competitividade sistêmica do país.

Na prática, predominarão contendas pobres e requentadas, com coreografias apoiadas em heranças, não em projetos, concretizadas em guerras de narrativas e exposição de versões a respeito do encaminhamento de repetidas questões que passarão longe da resolução das mazelas nacionais, sintetizadas em uma das piores distribuição de renda e eficiência produtiva do planeta, dramáticas em tempos reduzida reposição demográfica.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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