Brasil tenta conter avanço de importados asiáticos enquanto setor têxtil revê modelo produtivo

Brasil tenta conter avanço de importados asiáticos enquanto setor têxtil revê modelo produtivo

Indústria nacional enfrenta perda de competitividade, aumento das importações e mudança no consumo, exigindo reorganização das empresas

A indústria têxtil brasileira entrou em 2026 pressionada pelo avanço contínuo de produtos importados, sobretudo da Ásia, e pela necessidade de reavaliar seu modelo produtivo. Dados consolidados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) mostram que as importações cresceram cerca de 25% ao longo de 2025, impulsionadas por itens de menor preço e produção em larga escala. No mesmo período, o Brasil encerrou o ano com déficit superior a US$ 6 bilhões na balança comercial do setor, segundo números do Ministério do Desenvolvimento Indústria Comércio e Serviços (MDIC).

O cenário tem afetado diretamente a competitividade dos fabricantes nacionais, que lidam com custos elevados, volatilidade cambial e menor escala produtiva. Para empresas com trajetória consolidada, os impactos são imediatos. É o caso de Cláudio Costa Cardozo (foto), fundador da Declaus Confecções, com 31 anos de atuação no segmento. “O produto importado, principalmente o chinês, mudou a dinâmica do mercado. Fui à China em 2009 para entender o processo e identificar como diferenciar nosso produto dentro de uma produção totalmente nacional”, afirma o empresário, responsável pela gestão estratégica da companhia.

Custos estruturais ampliam a distância entre Brasil e Ásia

Estudos recentes da Abit indicam que o custo de produção de uma peça básica no Brasil permanece até 30% mais alto do que em polos industriais da China e do Vietnã, reflexo da carga tributária, do preço da energia e dos encargos trabalhistas. Ao mesmo tempo, o varejo global passou a operar com ciclos mais curtos e reposições rápidas, favorecendo países com elevada escala produtiva e maior flexibilidade logística.

Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, entre 2015 e 2025, a indústria têxtil nacional perdeu aproximadamente 18% de participação no mercado interno. As categorias mais afetadas continuam sendo malharia básica, algodão e produtos associados ao modelo de moda rápida.

Mudanças no consumo intensificam a concorrência

A consolidação do e-commerce internacional também redesenhou os hábitos de compra no Brasil. Segundo o Datareportal, mais de 60% dos consumidores brasileiros adquiriram algum item de moda online em 2025, ampliando o acesso direto a produtos estrangeiros e elevando a pressão por preços mais baixos.

Para Cardozo, a resposta passa por estratégia e posicionamento. “Investimos em eficiência, qualidade e relacionamento com clientes. No setor têxtil, não é possível competir apenas por preço; é preciso entregar valor agregado”, observa.

Caminhos para enfrentar a pressão externa

Pesquisadores e entidades do setor avaliam que a recuperação da competitividade depende de um conjunto de medidas estruturais que combinam gestão, tecnologia e foco em nichos específicos. Entre as principais frentes estão:

  • Automatização e digitalização – Corte automatizado, rastreabilidade por RFID e sistemas integrados de controle de produção reduzem perdas e elevam a produtividade. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima ganhos de até 22% no desempenho operacional com a adoção de tecnologias digitais.
  • Produtos de maior valor agregado – Malhas funcionais, fibras sustentáveis e coleções de menor escala apresentam menor concorrência direta com importados de baixo custo.
  • Revisão de custos e processos – Estoques, fornecedores e consumo energético passam a ser monitorados de forma contínua.
  • Fortalecimento de cadeias regionais – Produção mais próxima do varejo reduz prazos e permite ajustes rápidos à demanda.
  • Educação do consumidor – Durabilidade, rastreabilidade e responsabilidade produtiva ganham peso na decisão de compra.

Segundo Cardozo, a consistência operacional segue como fator-chave. “O setor já enfrentou muitos ciclos. Quem trabalha com gestão estruturada e disciplina na produção consegue manter resultados mesmo com a competição internacional”, afirma.

Perspectivas para 2026 e recomendações para pequenas empresas

Para 2026, a Abit projeta crescimento entre 2% e 3% na produção, condicionado ao desempenho do consumo interno, ao comportamento do câmbio e a possíveis ajustes em políticas de defesa comercial. O consenso no setor é que a concorrência com importados asiáticos continuará intensa no curto prazo.

Para pequenas e médias confecções, especialistas recomendam revisão rigorosa de custos fixos e variáveis, análise detalhada das margens por produto, mapeamento de gargalos produtivos, investimento seletivo em capacitação e tecnologia e diversificação dos canais de venda. A avaliação predominante é que empresas que apostarem em eficiência, inovação e posicionamento têm espaço para manter relevância no mercado interno, mesmo em um ambiente mais competitivo.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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